Lisboa |
Centenário do nascimento de monsenhor Bastos, pároco de Peniche durante 61 anos
“Inteligência pastoral e social”
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“O padre Bastos é uma figura marcante na sociedade e na Igreja, durante todas as décadas em que viveu”. É desta forma que o Cardeal-Patriarca de Lisboa recorda monsenhor Manuel Bastos (1922-2010), que foi pároco de Peniche entre 1947 e 2008, no dia em que faria 100 anos. “Foi a mais importante personalidade de Peniche no século XX”, segundo o atual pároco.

 

Monsenhor Bastos esteve em Peniche durante mais de seis décadas, mas foi um sacerdote que se projetou “muito para além” desta terra piscatória. “O padre Bastos é uma figura marcante na sociedade e na Igreja, durante todas as décadas em que viveu. Estando sempre em Peniche durante o seu ministério sacerdotal, projetou-se muito para além de Peniche. Todos nós, sacerdotes e leigos que o conhecemos, ficámos marcados, e muito bem marcados, pela sua entrega, pela sua inteligência pastoral e social, pelo seu cuidado, por tudo aquilo que fazia dele uma figura ímpar”, salientou o Cardeal-Patriarca de Lisboa, no final da sessão solene no dia do centenário do nascimento do antigo pároco, a 5 de maio.

No novo Complexo Social Comendador João Augusto Barradas – antigo presidente da Câmara Municipal de Peniche, que foi depois vice-presidente do Centro Social Padre Bastos –, D. Manuel Clemente lembrou que “além da sociedade e das autoridades, há um outro fator” que, em Peniche, “resultou em pleno”: “o fator pessoal”. “São os protagonistas que fazem com que estas duas realidades coexistam e coexistam bem, e resolvam e avancem”, observou. “Quando há uma personalidade como foi a de monsenhor Bastos e os seus colaboradores, mulheres e homens de boa vontade, nesta bela terra de Peniche, quando isso acontece e é ativado por personalidades assim, isto funciona. Dizer isto quando estamos a evocar uma figura concreta, um rosto preciso e uma vida bonita, vale muito mais”, assegurou, a terminar, o Cardeal-Patriarca, que depois benzeu o complexo social que integra o Lar Nossa Senhora da Boa Viagem, no andar inferior, e o Lar de Santa Maria, no piso superior.

 

Milagre de amor

Monsenhor Manuel Bastos faria 100 anos no passado dia 5 de maio. A 6 de julho de 1947, foi ordenado sacerdote e, em 14 de setembro do mesmo ano, foi nomeado pároco de Peniche, onde ficou até setembro de 2008, durante 61 anos. Faleceu no dia 12 de junho de 2010, aos 88 anos, “a mais importante personalidade de Peniche no século XX”, segundo o atual pároco. “Figura ímpar, marcou e moldou esta cidade e as suas gentes, não só a nível espiritual, mas também nos diversos âmbitos da vida social: na educação, na cultura e no desporto”, salientou o padre Diogo Correia, “num lugar simbólico”, as novas instalações de uma instituição fundada pelo “saudoso padre Bastos”. “De entre as inúmeras obras que nos legou, talvez tenha sido a que ele mais amou – o Lar de Santa Maria – e que hoje, com emoção, temos o privilégio de inaugurar as suas novas instalações”, observou o sacerdote, considerando a história deste lar, fundado em 8 de dezembro de 1958, “a história de um verdadeiro milagre de amor”. “O padre Bastos não ficou indiferente perante a difícil realidade social e económica de uma grande parte da sua população. E assim o Evangelho aconteceu, numa total abertura ao impulso do Espírito Santo, nunca antepondo os seus projetos pessoais aos planos de Deus, mas deixando sempre que o Senhor tomasse a dianteira”, frisou.

O Complexo Social Comendador João Augusto Barradas, agora inaugurado oficialmente, abriu em outubro passado. “É um espaço enorme, moderno e funcional, que nos enche de orgulho e que honra a cidade de Peniche e a nossa paróquia, acolhendo os nossos velhinhos com um conforto e uma dignidade inexcedíveis, dando cumprimento ao sonho do padre Bastos: ‘Esta é a casa de todos’”, garantiu o padre Diogo. “Resta-nos continuar este grande legado – um verdadeiro milagre de amor – de que somos herdeiros. Por isso, como sempre dizia o padre Bastos: ‘Palmas, palmas... mais palmas!’”, terminou o pároco de Peniche.

 

Continuar a obra

Presente na cerimónia, o presidente da Câmara Municipal de Peniche lembrou a “infância passada” com “o saudoso padre Bastos”, que “era frequentador” da sua casa. “O padre Bastos é daquelas pessoas que merecia viver 100 anos cheios de saúde e a trabalhar pelos objetivos que ele trabalhava. O padre Bastos tinha, em relação aos pobres e aos pescadores, uma amizade difícil de descrever e tentou, por todos os meios, criar-lhes condições”, destacou Henrique Bertino, não esquecendo João Augusto Barradas, que passa a dar nome a este complexo do centro social. “Os dois são marcas da minha vida”, partilhou. “É necessário continuar a sua obra. Há muitas pessoas que precisam do nosso apoio”, considerou ainda o autarca.

Já o diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Leiria, João Paulo Pedrosa, lembrou que aquele era “um dia feliz para Peniche”, com a inauguração da infraestrutura, e manifestou-se satisfeito por “as famílias de Peniche terem os ascendentes e descendentes numa grande instituição como é o Centro Social Padre Bastos”. “Esta circunstância não é igual em todo o lado”, aferiu, não esquecendo a “figura icónica do padre Bastos” e a “qualidade das respostas” que esta instituição apresenta. Este responsável lembrou ainda palavras do Cardeal-Patriarca de Lisboa na comemoração dos 75 anos do Centro Social e Paroquial do Bombarral, em outubro passado. “Como disse o senhor D. Manuel, ‘o bem tem pressa’. Estas instituições não são um bem adquirido, precisam de gente da comunidade, boa e disponível, que se cheguem à frente”, terminou o diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Leiria.

 

Cuidar como Maria

Diretor-geral do Centro Social Padre Bastos, Jofre Pereira considerou esta “a festa da plenitude, da eternidade”. “Temos sentido fortemente a presença do padre Bastos e de João Augusto Barradas. Experimentámos, nestes dias, a eternidade”, partilhou este responsável, explicando depois que “a memória é importante, mas para projetar o futuro”. Jofre lembrou, na sua intervenção, a “identidade e missão” da instituição, “pelas palavras do padre Bastos”: “Cuidar com o olhar materno de Maria”. “A herança que o padre Bastos nos deu foi cuidar como Maria. Não havia dinheiro para o lar, mas ele confiou sempre em Deus”, sublinhou. “Porque quando fazemos o bem, as coisas aparecem”, acrescentou.

Este leigo de Peniche destacou ainda como o antigo pároco, na comunidade, se “aproximou de todos os pobres e de todas as pobrezas”. “Para monsenhor Bastos, era fundamental a dignidade da pessoa humana”, referiu, não esquecendo “a preocupação com a área cultural”, exemplificando “com o jornal Voz do Mar”. Jofre Pereira destacou ainda a importância que o padre Bastos teve na “promoção do papel da mulher” e a atenção a cada pessoa. “‘Onde há um penicheiro, aí é o limite da paróquia’, dizia ele muitas vezes. Porque o limite da paróquia não era a igreja, era onde estávamos todos. O padre Bastos tinha tempo para escutar as pessoas e escutava e acolhia todos, ricos e pobres”, frisou este responsável, considerando ainda o seu antigo pároco “um visionário”. “Sem comunhão, nada conseguimos fazer. O padre Bastos dizia: ‘Tudo tem de ser feito com beleza, qualidade e eclesialidade’. A nossa missão, enquanto centro social paroquial, é assim criar fraternidade universal”, terminou Jofre Pereira.

 

Evangelho a acontecer

A presença do Cardeal-Patriarca de Lisboa no Centro Social Padre Bastos teve início com a visita à exposição de fotografias da inauguração do antigo Lar de Santa Maria, em 26 de novembro de 1972, exposta nos vários corredores da instituição. Depois, D. Manuel Clemente presidiu, na nova capela, à Missa com os utentes do lar, deixando uma palavra aos funcionários, “tanta gente com generosidade”, que encontra “meios para que a vida floresça”. “Quem é cristão, reproduz aquilo que Cristo fez. Há dois mil anos que há homens e mulheres que reproduzem o que Cristo fez”, apontou, mostrando-se satisfeito pelo facto de os idosos serem “bem tratados aqui, neste lar”. “Esta obra acontece para que Jesus Cristo continue a acontecer e também aqui, em Peniche. Aconteceu no coração e na ação de todos os que contribuíram para que isto acontecesse. Tudo o que aqui fizerem, é Cristo no mundo, é Evangelho a acontecer. Parabéns, porque o que estamos a celebrar é Evangelho no mundo”, terminou o Cardeal-Patriarca.

 

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No final da celebração, o Cardeal-Patriarca presidiu à consagração do lar e dos utentes a Nossa Senhora da Boa Viagem, num momento de oração que os idosos e os funcionários viveram intensamente.

 

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A entrevista a monsenhor Bastos, em 2007: “O adro da Igreja é a cidade”

Na comemoração dos 60 anos como pároco de Peniche, em 2007, monsenhor Manuel Bastos concedeu uma entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, onde garantia que “o mundo da pastoral não tem limites”. “Muitas vezes, falta-nos criatividade, generosidade e coragem. Somos apertados pela rotina, que é a pior coisa que há. Foi nela que caiu a Europa. Para além disso, é preciso rezar! Rezar muito. Não nos podemos esquecer que a Igreja é Igreja por causa do mundo”, alertava, então, na entrevista publicada na edição n.º 3827, de 25 de novembro de 2007.

O sacerdote natural de Matadussos, Esgueira, na Diocese de Aveiro, onde nasceu em 1922, lembrou ainda o “ambiente muito cristão” em que cresceu e destacou que sentiu a vocação “desde pequenino”. Pároco de Peniche desde 1947, ano em que foi ordenado, monsenhor Manuel Bastos Rodrigues de Sousa passou, antes, por uma paróquia da cidade de Lisboa. “A minha ‘estreia’ foi em Alfama. Naquela altura, era habitual os padres novos fazerem um mês de estágio numa paróquia da cidade. Foi uma experiência curta, mas muito enriquecedora. Na impossibilidade de ir para África, pedi ao senhor Patriarca que me enviasse para uma paróquia que não tivesse nada de estruturas”, contava, partilhando depois o conselho que recebeu do Cardeal Cerejeira: “O senhor Patriarca, quando me mandou para cá, disse: ‘Vais para uma paróquia que tem tradições muito bonitas’. Sabia que era uma terra de pescadores, afeta às devoções marianas. Um conselho que o Cardeal Cerejeira me deu foi: ‘Tu não mates nada, mas limpa tudo!’ Às vezes é preciso estudar muito bem as tradições. Não devemos chegar e ‘matar’ as coisas! Temos que ajudar as pessoas a perceber que é preciso aprender a tolerância”. Nesta entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, em 2007, monsenhor Bastos considerou ainda que a pastoral da Igreja não se pode limitar ao adro dos templos, mas deve abarcar toda a cidade. “Hoje, o adro da Igreja é a cidade toda!”, observava, a propósito da Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Peniche, que “tem uma importância enorme para toda a comunidade”.

Questionado sobre o que gostaria de ter feito em Peniche que ainda não tinha conseguido concretizar, monsenhor Bastos assumiu: “O que talvez mais me preocupe neste momento é a situação do Lar de Santa Maria e, por conseguinte, dos idosos de Peniche. Temos de fazer, nesse local, alguns melhoramentos. Temos que perceber como é que vamos acolher os idosos no nosso país. Este lar, que criámos há uns anos, tinha como objetivo acabar com a mendicidade. Acontece que a situação mudou radicalmente. O lar é um espaço aberto a todos. A solidão é uma grande doença dos nossos dias. Ainda agora nos pediram que façamos mais um lar. É importante que os políticos entendam a nossa função. A nós, cabe-nos ter confiança no futuro!”, respondia, então, o sacerdote que estava à frente da paróquia de Peniche há 60 anos.

entrevista e fotos por Diogo Paiva Brandão

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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