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Igreja realiza trabalho notável junto das crianças de rua na Serra Leoa
Crianças de sorrisos tristes
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A Serra Leoa é um dos países mais pobres do mundo. Durante 11 anos houve uma terrível guerra civil e, depois, como se isso não fosse já demasiado, veio a epidemia do Ébola. Mas os mais pobres de todos serão as crianças. Nas ruas da capital, Freetown, há quem tente resgatar as raparigas e os rapazes que vivem abandonados, oferecendo-lhes uma vida onde possam aprender a sorrir. No dia 1 de Junho, celebra-se o Dia Mundial da Criança…

 

“Fui viver para a rua. Havia muitas meninas a viver na rua. Roubavam, prostituíam-se a troco de dinheiro, mendigavam e faziam muitas outras coisas. Algumas morreram, outras estão hospitalizadas, outras apanharam doenças e outras estão na prisão.” Victoria é apenas uma das muitas raparigas que andam dia e noite pelas ruas de Freetown, a capital da Serra Leoa. Este é um dos países mais pobres do mundo. Durante 11 anos, a Serra Leoa viveu uma terrível guerra civil. Quando as armas se calaram, em 2002, terão perdido a vida milhares de pessoas. Há quem fale em cerca de 200 mil.  E causou ainda mais de 2 milhões de deslocados. Essa década de horror – a guerra ficou também conhecida como dos ‘diamantes de sangue’ – tornou ainda mais pobre a pobre Serra Leoa. Depois, veio a epidemia de Ébola, entre 2014 e 2016, que terá ceifado a vida cerca de 4 mil pessoas e deixou mais de 12 mil órfãos. Metade da população deste país, de cerca de 7 milhões de habitantes, tem menos de dois euros por dia para sobreviver. Mas talvez os mais pobres de todos os pobres da Serra Leoa sejam as crianças. As crianças que foram obrigadas a combater na guerra, as crianças que vivem agora nas ruas, as crianças que, para sobreviver, até têm de se prostituir. É o caso de Victoria, que contou a sua história à Fundação AIS. É o caso também de Aminatha, é o caso de dezenas de outras raparigas. O Pe. Jorge Mario Crisafulli conhece o nome de quase todas elas. Ele é o director do Centro Dom Bosco. “Encontrámos nas ruas meninas de 9 anos que estavam a prostituir-se para sobreviver, não porque queiram, mas porque foram forçadas a fazê-lo.” As ruas da capital da Serra Leoa são o retrato da pobreza do país. Nas sombras das esquinas escondem-se pessoas, por vezes apenas crianças. O Pe. Jorge, argentino, é responsável por diversos projectos de apoio para estes menores que vivem nas ruas. Um trabalho que pode fazer a diferença entre a vida e a morte de dezenas de jovens e crianças. É a Igreja de mangas arregaçadas, ao lado dos que mais sofrem, de pessoas concretas, em necessidade. Como sublinha o Pe. Jorge Crisafulli, “as ruas de Freetown são um lugar teológico”.

 

Cheirar a pobreza

Cada uma destas crianças traz consigo uma história de dor, de miséria, de sofrimento e de abandono. Muitos dos jovens que vivem hoje nas ruas da capital da Serra Leoa foram soldados nos tempos da guerra civil. “Eu era um rapaz, tinha 9 anos. Vivia com a minha família. Os rebeldes atacaram a minha aldeia, levaram-me para as tendas. Fui treinado para lutar como criança-soldado durante a guerra.” Saidu é um jovem adulto. Nunca o deixaram ser criança, nunca brincou despreocupado com os amigos. Muito cedo na vida, puseram-lhe uma arma nas mãos, e não um caderno e um lápis. Mandaram-no para o meio do mato para matar e não para a escola para aprender. “Não me lembro da idade que tinha. Era muito pequeno. Mataram a minha mãe, mataram o meu pai e deram-me muitas drogas. Tive de matar muitas pessoas. Matar, queimar casas, cortar mãos… Estava drogado nessa altura e fui forçado a fazê-lo. Se não o fizermos, somos mortos.” Sisco é outra das crianças-soldado da guerra civil na Serra Leoa. O Pe. Jorge Mario Crisafulli é uma espécie de anjo da guarda destas crianças tristes. “Vamos para as ruas às vezes todas as noites do mês. Vamos para as ruas e tentamos ver onde vivem, trabalham e dormem. Vamos lá e cheiramos a pobreza. Vemos o lixo nas ruas, os ratos, os mesmos que mordem os pés das crianças enquanto elas dormem na zona do mercado. E isto mexe com o nosso coração”, diz-nos o Pe. Jorge. “Não podemos ficar indiferentes…” Nas ruas de Freetown, a capital da Serra Leoa, há quem, como o Pe. Jorge, tente resgatar as raparigas e os rapazes que vivem abandonados, oferecendo-lhes uma vida onde possam aprender a sorrir. No dia 1 de Junho, celebra-se o Dia Mundial da Criança…

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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