Por uma Igreja sinodal |
– Percursos de renovação preparatórios do Concílio Vaticano II
A sinodalidade na primeira metade do século XX
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Entre os desafios que se apresentavam no dealbar do século XX, urgia a necessidade de superar uma visão excessivamente jurídico-institucional da Igreja e reabrir caminhos para uma compreensão teologicamente mais fundada e credível da sua identidade e missão. Nesse sentido, e como caminhos precursores do Vaticano II, desempenharam um papel determinante diversos “movimentos” de renovação teológica e espiritual na primeira metade do século XX (movimentos litúrgico, bíblico, patrístico, ecuménico…), suportados pelo trabalho de Centros de estudo e mosteiros, grandes teólogos e muitas outras iniciativas.

 

1. Nota comum desses “movimentos”, que perceberam as limitações do pensamento neoescolástico, é a consciência da necessidade de ir de novo às fontes do Cristianismo e de compreender as condições socioculturais em que o pensamento e a práxis cristãs eram interpelados a testemunhar a fé.

O “movimento litúrgico” permitiu redescobrir a centralidade da celebração da fé como experiência de vida cristã e caminho formação pela participação crente. A divulgação de estudos histórico-teológicos e a introdução de algumas reformas litúrgicas foram marcantes para o Vaticano II (o único documento preparatório que não foi rejeitado pelos Padres conciliares foi o referente à liturgia!).

A refontalização bíblica e patrística impulsionou a renovação de toda a teologia e a perceção atualizada do que a fé significa para a vida (em reação à interpretação livre protestante, o acesso direto dos fiéis católicos ao texto bíblico era suspeito, se não rejeitado!). Por sua vez, o estudo dos Padres da Igreja refrescou os fundamentos do pensamento teológico e ajudou a aprofundar a experiência da fé.

Ao mesmo tempo, os primeiros passos da receção católica do movimento ecuménico moderno (nascido no século XIX no seio do protestantismo) abriam caminhos de diálogo com as outras Igrejas. Surgiram assim novos horizontes para a compreensão da vivência cristã e a renovação eclesial.

 

2. Fruto desta renovação teológico-espiritual, mas também em resposta a desafios que o mundo de então colocava, as primeiras décadas do século XX são marcadas por uma revitalização eclesial. A “crise modernista” (no seu questionamento da relação entre fé e história, entre doutrina e experiência) constituiu um desafio para a reflexão teológica, mas exigiu também um olhar mais atento à prática crente. A intensificação da piedade eucarística e o catecismo de Pio X ilustram bem isso. Sentia-se ao mesmo tempo a necessidade de reestruturar a vida eclesial no seu conjunto (o Código de Direito Canónico, de 1917, determinava já – sem grande sucesso, embora! – a realização de sínodos diocesanos de dez em dez anos).

É entre as duas Grandes Guerras, após duras experiências de tragédia humana e de desmoronamento da sociedade, que se dá um renovado sentido da Igreja como grandeza significativa para a existência humana. É conhecida a expressão de Romano Guardini, vinda a público em 1921: “Um acontecimento religioso de alcance transcendental manifestou-se: a Igreja nasce nas almas”.

 

3. Este desabrochar de uma renovada consciência de Igreja tem por suporte, sobretudo a partir dos anos 30, mas como fruto de impulsos anteriores, a compreensão da Igreja como “corpo místico de Cristo”, presença viva de Cristo no mundo. Ponto culminante deste desenvolvimento é a encíclica “Mystici Corporis” (1943) de Pio XII, que, apesar dos seus limites, sinaliza um caminho de progressiva purificação da visão da Igreja face a elementos alheios à sua mais autêntica identidade. Salienta-se aí que as dimensões visível e invisível da Igreja são indissociáveis e percebe-se melhor a realidade da Igreja como fruto da ação do Espírito em todos os crentes.

Porém e como fruto da renovação bíblica e patrística, a reflexão teológica tinha já começado a prestar atenção à dimensão histórico-salvífica do acontecimento da revelação e da fé. Emerge assim a noção de “Povo de Deus” como sendo o conceito bíblico mais abrangente e mais adequado (não exclusivo!) para descrever elementos fundamentais da identidade da Igreja. Esta nova sensibilidade para a visão da Igreja como Povo de Deus a caminho na história e para a dimensão sacramental do acontecimento da revelação e da fé vai marcar a eclesiologia conciliar.

 

4. Todo este percurso de renovação eclesial foi acompanhado (e também potenciado) pelo progressivo despertar do laicado católico, cada vez mais aberto à dimensão existencial, social e política da vivência da fé. Esta nova consciência exprimiu-se de forma singular na espiritualidade e na prática da Ação Católica (Pio XI, encíclica Quas Primas, 1925). Foi crescendo assim também a perceção de que a Igreja não pode ser reduzida às suas instâncias hierárquicas: é toda a comunidade crente, diferenciada embora nos seus serviços e ministérios, que é chamada a testemunhar o significado do Evangelho para a humanidade.

Este sentido do direito e do dever de participação dos cristãos na Igreja e na vida pública não é dissociável do surgimento das democracias no pós-guerra. Também desse modo foi reavivada a sensibilidade crente para a corresponsabilidade (sinodalidade) eclesial. É neste contexto, aliás, que surgem também as primeiras expressões do que chamamos, hoje, “Novos Movimentos Eclesiais”.

 

5. A convocação do Concílio Vaticano II surgiu de forma algo inesperada, mas as exigências de renovação eclesial e as interpelações de um mundo em transformação tornavam-no indispensável. Todavia, a criatividade e a novidade do Concílio não se entendem sem os processos precursores das décadas que o precederam. E essa é mais uma razão a evidenciar como o Vaticano II constitui “a grande herança” que, ainda hoje, somos chamados a receber.

José Eduardo Borges de Pinho
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