Lisboa |
Cónego João Seabra (1949-2022)
“Fica o legado de uma grande afirmação cristã na sociedade portuguesa”
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Um sacerdote que esteve “em todas as frentes” e cuja vida foi um “testemunho” e uma “presença amiga”. É desta forma que o Cardeal-Patriarca de Lisboa recorda, emocionado, o antigo colega de seminário cónego João Seabra, falecido no passado dia 3 de junho, aos 72 anos. Presidente da República lembrou a figura “carismática, enérgica e interventiva” do amigo de longa data.

 

“Neste último meio século de vida, a Igreja em Lisboa contou com ele em todas as frentes. Desde logo no seminário, onde foi tão importante para todos nós – eu entrei com ele no mesmo dia –, depois, na Universidade Católica, como capelão, depois nas Equipas de Nossa Senhora e nas Equipas de Jovens de Nossa Senhora, nos primeiros campos de férias, quando entrou, de alma e coração, no movimento Comunhão e Libertação e, finalmente, nos colégios que ele fundou”, resumiu D. Manuel Clemente, na Missa exequial do cónego João Seabra, na Sé de Lisboa, na manhã de 6 de junho.

Na homilia, o Cardeal-Patriarca recordou a “intervenção pública” do sacerdote, sempre que “era precisa uma palavra de esclarecimento”. “Em todas aquelas frentes a que a vida hoje tem de defender e promover, da conceção à morte natural, em tudo o que foi preciso”, lembrou, sem se esquecer “da sua obra historiográfica, quer no que diz respeito às relações Igreja-Estado, sobretudo a propósito da Lei da Separação”. “A sua tese de doutoramento, belíssima, e agora esta publicação sobre os problemas que o pombalismo levantou à Igreja, e como a teologia e a prática se entenderam na época, é tudo de primeira água. Como tudo é de primeira água naquilo que o nosso João fez”, considerou D. Manuel Clemente. “Esta Eucaristia é uma ação de graças muito grande da Igreja de Lisboa e não só, da nossa sociedade também, àquilo que Deus nos deu na vida, no testemunho, na presença amiga deste grande colega que foi o João”, acrescentou.

 

Mão na cabeça

O Cardeal-Patriarca tinha começado por “agradecer e reconhecer, muito”, a “todos quantos acompanharam mais de perto o nosso caríssimo João”. “Nestes últimos anos da vida do João – em que ele quase decalcou os últimos anos da sua grande figura exemplar, que foi São João Paulo II –, houve um depauperamento exterior das suas condições físicas, mas não intelectuais, e um crescimento interior”, salientou D. Manuel Clemente, partilhando, de forma emocionada, o momento derradeiro em que se encontrou com o cónego João Seabra: “A última vez que nós nos vimos, há uma semana, terminámos o nosso encontro com uma bênção mútua: eu pus-lhe a mão na cabeça, e ele pôs a sua na minha e ainda não a tirou”.

À Renascença, o Cardeal-Patriarca de Lisboa considerou que não faz sentido “falar de despedida”. “Vamos continuar a senti-lo muito presente, com o seu trabalho, com o que deixou, o seu legado de uma grande afirmação cristã na sociedade portuguesa, e uma grande mobilização católica por todas as causas pertinentes”, apontou.

 

Uma vida a servir

Amigo de longa data do cónego João Seabra, de quem foi colega no liceu e faculdade, o Presidente da República participou, comovido, na Missa exequial do sacerdote, na Sé de Lisboa. “Foi uma cerimónia que mostrou bem a importância do padre João Seabra, porque estiveram alunos dos seus colégios, estiveram estudantes da Universidade Católica, estiveram muitos padres que ele formou, estiveram muitos elementos das equipas de casais e de jovens das Equipas de Nossa Senhora, esteve a vida dele. E a vida dele foi isso: foi servir, como uma espécie de ‘paizinho’, na formação de milhares, e milhares e milhares de crianças, de jovens e de adultos. Foi assim, partiu assim, cumpriu uma missão com aquele carisma que lhe conhecemos, e marcou a Igreja portuguesa e marcou a sociedade portuguesa”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, aos jornalistas, no final da celebração.

No dia da morte do cónego João Seabra, a 3 de junho, o Presidente da República tinha lembrado o sacerdote, sublinhando que “poucas figuras da Igreja portuguesa das últimas décadas foram tão carismáticas, enérgicas e interventivas como o Pe. João Seabra”. “Dele se disse que foi o melhor bispo que nunca tivemos. Homem da fé e da razão, da ação e do pensamento, mostrou-se sempre incansável na defesa não apenas das suas convicções, mas da verdade cristã que professava, apostado na formação dos jovens, defensor da necessidade de dar testemunho e de não temer ir contra a corrente”, salientou, na nota publicada no site da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa recordou que conheceu o cónego João Seabra há mais de 60 anos. “Foi também um sacerdote, colega e grande amigo com quem muito convivi, desde os 12 anos, que estimei, em especial nos anos turbulentos da mudança de regime, e cujo percurso e personalidade marcantes nunca deixei de acompanhar”, garantiu o Presidente da República, a propósito do padre João Seabra, sacerdote do Patriarcado de Lisboa que morreu a 3 de junho, aos 72 anos.

 

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“Dar-me todo à obra da Igreja”

A 12 de novembro de 2018, o cónego João Seabra assinalou os 40 anos da sua Missa Nova. “A minha vida consistiu só nisto: dar-me todo à obra da Igreja”, referiu o sacerdote, então com 69 anos, na homilia da celebração na Igreja de Santa Joana, Princesa, em Lisboa. Considerando-se “um servo da Verdade”, o cónego João sublinhou que “a Igreja não existe para si própria”. “A Igreja existe para que Cristo se possa encontrar com cada homem, para que cada homem se possa encontrar com Cristo. Existe para isso, e nada mais”, sublinhou, lembrando que foi “tratado com muita misericórdia por Deus”. “Espero ter sido, ao longo da minha vida, ministro da Sua misericórdia para muitos”, referiu.

Há quase quatro anos, o cónego João Seabra revelou ainda que a homilia da sua Missa Nova foi “a única” que escreveu nestes 40 anos de sacerdócio. “Meditei e rezei cada uma das palavras daquela homilia, e li-a com uma comoção e uma certeza, com uma gratidão e uma humildade profunda, de coração, diante de Deus”, recordou. 

 

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Perfil

O cónego João Seabra nasceu em Lisboa, em 1949. Licenciou-se pela Faculdade de Direito de Lisboa e entrou no Seminário dos Olivais em 1973. Fez a licenciatura em Teologia, na Universidade Católica, e a licenciatura em Direito Canónico, na Universidade de Salamanca, e foi ordenado sacerdote a 5 de novembro de 1978, pelo cardeal D. António Ribeiro, celebrando Missa Nova no dia 12 de novembro desse ano, na Igreja de Santa Isabel, a sua paróquia.

Doutor em Direito Canónico pela Pontifícia Universidade Urbaniana, era cónego da Sé Patriarcal de Lisboa e foi capelão da Universidade Católica, diretor do Instituto Superior de Direito Canónico, da UCP, pároco em Santos-o-Velho e na igreja de Nossa Senhora da Encarnação, no Chiado, defensor do vínculo do Patriarcado, chefe do Serviço de Legados Pios, assistente nacional do movimento Comunhão e Libertação e acompanhou as Equipas de Casais e de Jovens de Nossa Senhora. Foi fundador e era presidente da associação educativa que detém o Colégio de São Tomás, em Lisboa, o Colégio São José do Ramalhão, em Sintra, e o recente Colégio São José de Beja.

Em 2019, foi condecorado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelos serviços prestados à educação, à cultura e à juventude no nosso país.

 

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“Os seus 43 anos de sacerdócio foram marcados pela urgência de salvar as almas para Cristo, anunciando a Fé com certeza e alegria. Serviu a Igreja como pároco, académico, jurista, mas acima de tudo foi um pai para gerações de cristãos, especialmente jovens, com quem se cruzou. A todos procurou educar no amor a Cristo, na pertença à Igreja e na fidelidade aos sacramentos. Os últimos anos da sua vida foram marcados pela doença, que viveu com docilidade, sempre confiante na Misericórdia de Deus. Serviu a Cristo e à Sua Igreja até o Senhor o chamar.”

Paróquia de Santa Joana, Princesa

 

“O Cónego João Seabra foi um dos docentes e pastores que mais marcou o desenvolvimento da universidade nos seus 55 anos de existência, que o homenageou em 2019, entregando-lhe a Medalha de Ouro da UCP pelos relevantes serviços a ela prestados e à Igreja. (…) Canonista insigne foi sempre na sua prática diária, na real inscrição na vida dos que com ele conviviam, que melhor ensinou os que o rodeavam. Propunha, sem impor, conversando e escutando. Tocou os que o rodeavam, demonstrando uma enorme força e dando exemplo vivo perante a adversidade.”

Reitora da Universidade Católica Portuguesa, Isabel Capeloa Gil

 

“Seguindo Cristo com Dom Giussani, tornou-se pai de tanta gente em Portugal, com uma audácia e uma exuberância que não deixavam ninguém indiferente; o Padre João contagiou pessoas comuns e grandes personalidades, que encontraram nele um interlocutor à altura das suas interrogações. Com a sua vida testemunhou o que Cristo pode fazer com o ‘sim’ de quem se deixa agarrar por Ele: um protagonista novo no mundo, mesmo no período da sua longa doença.”

Presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, Davide Prosperi

 

“O Padre João Seabra foi decisivo na defesa e luta pela Vida em Portugal. Desde sempre, e com particular relevo no primeiro embate em 1984 e desde 1996. (…) Acompanhou-nos sempre prodigalizando o seu conselho, amparando-nos em cada momento, corrigindo-nos quando necessário, movendo as suas relações, educando-nos nos problemas e dilemas que tivemos que enfrentar. Respeitando a nossa liberdade e alegrando-se com cada pequeno êxito. Atravessando-se por nós quando isso foi necessário e sempre procurando mais a nossa conversão, do que o sucesso político. Foi por isso um Pai a quem todas as nossas movimentações tanto devem.”

Federação Portuguesa pela Vida

 

“No último dia de vida, antes de sair do hospital para ir para casa, onde depois morreu, a enfermeira foi-lhe dar alta e ele deu a bênção à enfermeira. Até ao último instante, estava para salvar as almas, com aquilo que Deus lhe concedia. Marcou muitas gerações, desde as gerações dos pais – os meus avós –, até à geração abaixo da minha, marcou muita gente. Este povo que hoje aqui se reuniu [na Sé de Lisboa] é sinal desta entrega do meu tio a Nosso Senhor.”

José Maria Seabra Duque, sobrinho do cónego João Seabra, à Renascença

 

“O Padre João, como sempre era respeitosa e carinhosamente tratado, dedicou-se ao ISDC de forma total e frutuosa, pondo a render a grande sabedoria e inteligência com que o Senhor o dotou. E assim o fez em tudo quanto a Igreja lhe pediu como missão. Ao longo da sua vida escutou, ensinou, acompanhou, foi Pai e Mestre! Que o Senhor receba na sua glória este seu servo, a quem o ISDC e o Direito Canónico tanto devem!

Obrigado, querido Padre João!”

Nota do ISDC - Instituto Superior de Direito Canónico

 

“A ACEGE agradece a Deus a Vida do Pe. João Seabra que sempre nos apresentou Cristo e a sua Igreja. Agradecemos o seu testemunho de amor ao destino de cada um que dele se aproximava, a sua entrega radical à vontade de Deus, na saúde e na doença, e o seu desejo de anunciar Cristo a cada um e a todos as realidades da sociedade.”

Nota da ACEGE | Associação Cristã de Empresários e Gestores

 

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Fotos das exéquias do cónego João Seabra: www.flickr.com/patriarcadodelisboa/albums

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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