Lisboa |
Padre Fernando Martins, pároco emérito de Oeiras, celebrou 75 anos de ordenação
Uma vida a “humanizar” as pessoas
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Chegou a Oeiras com 43 anos, ficou outros 43 e deixou de ser pároco há 12. O padre Fernando Martins tem, portanto, 98 anos e celebrou, a 6 de julho, os 75 anos da ordenação. Construiu o centro social paroquial, é considerado um precursor no exercício da caridade organizada, mas a grande obra, nas suas palavras, foi “a humanização das pessoas”.

 

“O meu trabalho principal não está propriamente no social. Muita gente só vê, do que se faz nas paróquias, o social. O meu trabalho principal, digo-lhes, foi a humanização das pessoas. Um bom cristão só o será se for um bom ser humano. Se não for um bom homem, uma boa mulher, também não será um bom cristão, nem uma boa cristã. O meu trabalho, em toda a parte, foi exatamente este”. Foi desta forma que o padre Fernando da Silva Martins resumiu a sua vida sacerdotal de 75 anos, na celebração em que celebrou as bodas de diamante sacerdotais. Na Igreja Matriz de Oeiras, no final de tarde do passado dia 6 de julho, o agora pároco emérito de Oeiras, num discurso improvisado de quase dez minutos, deixou uma “palavra de agradecimento”. “Estou muito grato a todos. Que Deus continue a abençoar-nos e que todos sejamos felizes”, desejou o sacerdote de 98 anos.

Sobre o livro ‘Padre Fernando Martins. Um rosto que marcou Oeiras’, que tinha acabado de ser apresentando, o sacerdote assumiu não saber de nada e mostrou-se “muito grato”. “Só há dois ou três dias é que soube desta festa. Vou começar a ler o livro e vou ver quem é que diz mal de mim, está bem?”, gracejou o padre Fernando Martins, que, no final, foi aplaudido longamente pela sua comunidade de Oeiras.

 

À frente no seu tempo

Três dias depois da festa dos 75 anos de ordenação, o padre Fernando Martins recebe a reportagem do Jornal VOZ DA VERDADE na sua casa, situada a menos de 200 metros da igreja matriz. “Oeiras não era como hoje, tinha pouca gente, devia ter uns oito, dez mil habitantes. Quando vim para cá, tudo isto aqui à volta era terreno de cabras, com ovelhas a pastar”, refere o padre Fernando, que foi nomeado pároco de Oeiras em 1966 e aí permaneceu 43 anos, até 2009, então com 85 anos. “Se eu passasse o meu tempo a casar, batizar e fazer funerais, levava isto bem… agora, ‘fazer’ cristãos, humanizar as pessoas, esse foi o vértice do meu trabalho”, recorda. “Dizem que fui um homem à frente no meu tempo… talvez, mas também por isso apanhei muito. Mas o Cardeal Ribeiro dizia-me sempre: ‘Vá para a frente, não se incomode’. Porque quando cheguei, ‘apanhei’ dos comunistas; aconteceu o 25 de Abril, e ‘apanhei’ dos fascistas… e era chamado de ‘padre vermelho’”, partilha, hoje, numa animada conversa.

O padre Fernando Martins nasceu a 1 de fevereiro de 1924, em Sarzedas, Castelo Branco. “É uma terra grande, que tem um foral de D. Sancho I, com a estrada romana, mas depois, devido à linha férrea, as pessoas começaram a sair”, conta este sarzedense, lembrando que, “antigamente, toda aquela gente da Beira era religiosa”. “Frequentei a catequese, fiz a instrução primária e quis estudar, e a melhor maneira era o seminário”, recorda. Entrou no Seminário de Santarém, “onde já tinha uns primos”, mas “não se podia falar em vocação”. “Fui até ao fim e estive nos seminários de Almada e dos Olivais. Nunca tive a tentação de sair. Agarrei-me a Cristo, que me seduziu. Talvez por isto: porque Cristo amava a todos, mas amava de maneira muito particular os pobres”, garante o sacerdote, que foi ordenado pelo Cardeal Cerejeira, a 6 de julho de 1947, na Sé, com 23 anos. “Foi a minha primeira Missa, porque foi uma Missa concelebrada. Do meu curso, devíamos ser cerca de 20”, refere, lembrando que celebrou Missa Nova na terra natal a 20 de julho. “Foi uma grande festa”, recorda.

 

Bom discípulo

O padre Fernando Martins assumiu então funções como diretor espiritual e professor no Seminário de Santarém. “Havia muitos seminaristas”, lembra, contando que, em 1957, foi nomeado “primeiro pároco de Vaqueiros, uma das freguesias mais pequenas do país”, onde restaurou a igreja e viu a rua principal designar-se «Avenida Padre Fernando Martins». No ano seguinte, foi para a paróquia de São Julião, em Setúbal, deu “aulas de Moral no Liceu, do antigo 1.º ao 7.º ano” e foi “vigário geral de Setúbal”. “Foram bons tempos, onde procurei unir as pessoas”, considera.

A 22 de setembro de 1966, o padre Fernando Martins é nomeado pároco de Oeiras. “Assumo que no início fiquei chateado, porque era muito feliz em Setúbal, mas tomei posse e tive de construir a comunidade. Criei o grupo de acólitos e formei-os. Fui sempre formador. Formei jovens que marcaram e continuam a marcar a sociedade”, destaca, lembrando também as “muitas famílias” que o ajudaram, em particular “nas cheias de 1967”. “O meu trabalho, como referi na Missa dos 75 anos da minha ordenação, foi a humanização. É uma alegria para mim quando as pessoas me abraçam e agradecem o que fiz por elas”, salienta o sacerdote que construiu os vários complexos do Centro Social Paroquial de Oeiras e ajudou “a criar freguesias e não só paróquias”, como Porto Salvo (1984), Nova Oeiras e São Julião da Barra (ambas em 1991).

Em 1989, o padre Fernando Martins foi agraciado pela Câmara Municipal de Oeiras com a Medalha de Mérito Concelhio, grau ouro, e, em 2007, a autarquia inaugurou uma estátua do sacerdote no adro da igreja, reconhecendo o contributo a esta terra. Em 2010, o então Presidente da República, Cavaco Silva, distinguiu o padre Fernando como Comendador da Ordem de Mérito. “A sorte grande que eu tive foi vir para Oeiras”, confidencia, hoje, o padre Fernando Martins, que a 6 de julho celebrou 75 anos de sacerdócio: “Procurei ser sempre bom discípulo de Cristo. Nós somos homens de cabeça erguida e braços estendidos. Olhamos para o alto, para o Pai que está nos Céus, e olhamos para os lados, para os homens nossos irmãos”.

 

75 anos de ordenação do padre Fernando Martins, pároco emérito de Oeiras


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“Para que o Reino acontecesse” em Oeiras

O Cardeal-Patriarca de Lisboa presidiu, na Igreja Matriz de Oeiras, à Missa do 75.º aniversário de ordenação sacerdotal (bodas de diamante) do “nosso querido padre Fernando Martins”. “Temos que dar graças a Deus, porque a nossa vida, a vida das nossas terras, a vida de Oeiras, nestas décadas todas em que o padre Fernando aqui derramou o seu coração, não seria a mesma coisa sem ter aqui um profeta. Alguém que lembrava a Palavra de Deus, que proporcionava essa mesma Palavra aos mais pequeninos e aos mais crescidos na catequese, que depois elevava tudo isto que acontecia no altar, em ação de graças ao próprio Deus, e que depois ia regendo a sua comunidade, a sua paróquia, de acordo com a mesma lei de Deus, para que o Reino acontecesse”, apontou D. Manuel Clemente, no passado dia 6 de julho, na presença do presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais.

 

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Um livro que é “uma vida” e um “obrigado”

No final da Missa, a paroquiana Márcia Carvalho apresentou brevemente o livro ‘Padre Fernando Martins. Um rosto que marcou Oeiras’. “Quisemos que este livro fosse uma vida. Uma ‘vida’ que reunisse várias vidas, todas elas tocadas pela vida do nosso prior. São 75 histórias para contar 75 anos de sacerdócio”, referiu esta leiga, em nome da comunidade, sublinhando que a obra “é também um obrigado”. “É um obrigado por tudo aquilo que continua a fazer connosco, pelo testemunho que é a sua vida na vida de cada um de nós. E é também um obrigado a Deus, porque cada dia que nos cruzamos consigo é Deus que atua em nós através de si”, frisou Márcia.

O pároco de Oeiras referiu-se ao livro como “um justo reconhecimento ao padre Fernando” e reforçou o “obrigado” da comunidade. “Estejamos atentos a estes pequenos grandes sinais de Deus como são 75 anos de fidelidade, com muitos sofrimentos, muitas lutas, mas que permaneceu sempre em Deus. Muito obrigado, padre Fernando, pelo seu testemunho e pela sua vida”, salientou o padre Sérgio Mendes, considerando-se ainda “beneficiário” do “trabalho árduo” deste antecessor.

O livro ‘Padre Fernando Martins. Um rosto que marcou Oeiras’ está à venda na secretaria paroquial.

 

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‘Padre Fernando Martins. Um rosto que marcou Oeiras’

O livro ‘Padre Fernando Martins. Um rosto que marcou Oeiras - 75 anos de ordenação sacerdotal. 75 testemunhos’ é uma homenagem da paróquia de Oeiras ao seu antigo pároco ao longo de 43 anos, por ocasião das suas bodas de diamante sacerdotais (75 anos). A obra, publicada com a Paulinas Editora, recolhe 75 testemunhos, como forma de agradecimento ao ‘senhor Prior’.

 

“As terras ganham a feição de quem as serve e em Oeiras transparece muito o rosto do Padre Fernando Martins. Assim mesmo o reconhecem a paróquia e a autarquia, como os testemunhos deste livro manifestam. A estes e aos seus amigos em geral me junto também eu, num forte e muito grato: - Obrigado, Padre Fernando!”

D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, no prefácio

 

“Gratidão! Eis a palavra que descreve o sentimento que tenho relativamente ao nosso Padre Martins. Ao nosso Prior, dos oeirenses. À figura de referência que pudemos acompanhar nas últimas quatro décadas, com inegável impressiva obra, sobretudo no que aos mais necessitados diz respeito.”

Isaltino Afonso de Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras

 

“A marca principal do seu magistério é a aproximação da Igreja à sociedade. O Padre Fernando Martins soube estar presente no cuidado, na ajuda, na saúde, na educação, no desporto, na música… no conjunto das iniciativas que tornam as sociedades mais humanas. Oeiras deve muitíssimo a este homem que fez da vida uma entrega constante aos outros.”

António Sampaio da Nóvoa

 

“Impressionava aquela respeitabilidade que a figura do novo pároco despertava. Aquela verticalidade serena, o discurso pausado e direto, a distância que a princípio suscitava, escondendo a afabilidade que, a pouco e pouco, se ia revelando. Para um acólito adolescente como eu, Fernando Martins distinguia-se dos seus antecessores.”

David Justino

 

“Admiro a humildade com que sempre viveu, a sua vontade de estar informado, o cuidado que coloca nas relações pessoais que estabelece com pessoas de todas as idades, a capacidade de ouvir sem julgar, a atenção ao outro. Pessoa de grande visão, foi precursor no exercício da caridade organizada.”

Isabel Jonet

 

“Chegou a Oeiras e rapidamente revolucionou esta vila. Foi um sacerdote muitas vezes à frente do seu tempo. Implementou as orientações do Concílio Vaticano II na sua paróquia e levou Cristo às periferias, quando pouco se falava sobre isso.”

Sónia Vicente, paroquiana e coordenadora do livro ‘Padre Fernando Martins. Um rosto que marcou Oeiras’

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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