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O extraordinário exemplo de vida de D. Enrique Figaredo no Camboja
O Bispo dos amputados
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A princípio, foi a compaixão que o moveu. Compaixão pelas vítimas das minas, talvez a arma mais traiçoeira inventada pelos homens. No Camboja, onde está desde 1985, este jesuíta espanhol iniciou um trabalho notável junto dos amputados, junto dos mais pobres, dos excluídos, os que a sociedade sempre ignorou. Agora, é com paixão que cumpre todos os dias essa missão…

 

Se alguém perguntar no Camboja pelo prefeito apostólico de Battambang, provavelmente não saberão de quem se trata. Mas se falarem no bispo das cadeiras de rodas, aí já não restarão dúvidas. O jesuíta espanhol Enrique Figaredo, 62 anos de idade, está no Camboja há quase quatro décadas. Chegou a este país do sudeste asiático em 1985 e desde então tem sido incansável o seu trabalho. Já fundou escolas, hospitais, centros de ajuda para marginalizados e dedicou, desde sempre, uma atenção especial para com os amputados, para com as vítimas das minas. O passado, relativamente recente, da guerra no Camboja deixou esse legado traiçoeiro de bombas escondidas no chão, numa espera silenciosa pelas suas vítimas. E são tantas… D. Enrique Figaredo explicou, a uma equipa da Fundação AIS, que ainda há cerca de 200 acidentes por ano com minas. As minas terrestres ainda por explodir são, essencialmente, as que estão longe das cidades, longe das estradas mais movimentadas, longe das preocupações do poder. São minas que estão escondidas nos campos, nos lugares frequentados pelos mais pobres, gente que procura numa agricultura de subsistência o alimento para o dia-a-dia. É nos campos de arroz ou nas florestas que essas minas escondidas esperam pelas suas presas.

 

O guarda da igreja

De viagem para Prey Thom, D. Enrique levou consigo uma equipa de reportagem da Fundação AIS. O objectivo era mostrar uma aldeia especial. Uma aldeia que nasceu da sua preocupação precisamente para com estas vítimas, para com os sobreviventes das minas. “Decidimos criar um lar para eles e para as suas famílias, para que possam viver juntos e organizar a sua própria vida”, diz o jesuíta espanhol enquanto conduz um carro Toyota já estafado por quilómetros de estradas empoeiradas. Há serenidade na sua voz, no olhar, nos gestos. Dir-se-ia que D. Enrique assimilou por completo a amabilidade dos Cambojanos. “Toda esta área estava cheia de minas terrestres. Era terra de ninguém, era onde eles combatiam”, explica, ao mesmo tempo que vai levando o carro na direcção da aldeia. “Temos milhares de sobreviventes de minas terrestres, amputados…” Um deles é Pat. É duplo amputado. Ficou sem as mãos enquanto combatia no exército dos Kmers Vermelhos. A verdadeira batalha da sua vida começou aí. Tem cinco filhos e o trabalho nos campos tornou-se impossível com os ferimentos. Ele precisava de trabalho para sobreviver e D. Enrique conseguiu um lugar para ele como guarda da igreja.

 

Verdadeira pátria

“Nunca nos vamos habituar ao sofrimento do povo. É impossível”, diz o ‘bispo das cadeiras de rodas’, falando já para a câmara de televisão da Fundação AIS. “É o nosso coração que nos faz reagir. E também tenho de dizer que o sofrimento vem muitas vezes com centelhas de esperança…” O prefeito apostólico de Battambang foi adoptado pelas gentes do Camboja. Todos sorriem à sua presença. Ele transporta consigo uma simplicidade natural que o confunde com as gentes da terra. É como se tivesse nascido no Camboja. É um entre iguais. D. Enrique Figaredo nasceu em Espanha, há 62 anos, mas a sua verdadeira pátria está agora por ali, entre os mais pobres e esquecidos, entre os amputados, entre os que, com ele, reaprenderam a sorrir. “Talvez porque temos fé, acreditamos. Aquele que nos vai levar à luz não somos nós. Deus dá-nos a força para irmos, para sermos humildes… Mas também temos de saber que não somos nós que vamos resolver o problema com as nossas forças. O que podemos fazer é ser amáveis, acompanhar e Deus guiar-nos-á.” Humilde e amável. Bastam duas palavras para se fazer quase o retrato completo deste Bispo dos amputados.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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