Entrevistas |
Professora Fátima Nunes nomeada diretora do Secretariado Diocesano do Ensino Religioso de Lisboa
“Sistema de ensino sem a dimensão espiritual e religiosa no seu currículo torna-se deficitário”
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A nova diretora do Secretariado Diocesano do Ensino Religioso (SDER) de Lisboa, nomeada pelo Cardeal-Patriarca no passado dia 16 de julho, sublinha “a atualidade” da disciplina de EMRC (Educação Moral e Religiosa Católica) para uma “formação integral dos alunos”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, Fátima Nunes, a primeira leiga a assumir este cargo, salienta que a sua missão vai passar por “incentivar os professores, conhecê-los, ouvi-los, acompanhá-los e ajudá-los”.

 

Após 13 anos como colaboradora do SDER de Lisboa, foi nomeada pelo Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente, diretora deste serviço. Que expectativas tem?

Incentivar os professores, conhecê-los, ouvi-los, acompanhá-los e ajudá-los na sua missão, continuando também o diálogo com as Direções das Escolas, públicas e privadas. Os professores de EMRC necessitam de viver mais em espírito de sinodalidade, quer entre si, quer com as Comunidades Educativas. Há que trilhar caminho neste sentido.

O senhor Cardeal-Patriarca nomeou-me para este serviço da Igreja Diocesana, e foi como tal que eu aceitei, como serviço e como missão, tentando responder sempre à vontade de Deus.

 

O facto de ser a primeira leiga a assumir o cargo traz responsabilidades acrescidas?

Dou graças a Deus pelo voto de confiança depositado pelo senhor Cardeal-Patriarca ao me nomear para esta missão. Na verdade, na Diocese de Lisboa, este cargo sempre foi atribuído a um sacerdote. Sendo eu a primeira mulher nesta função, aceitei com agrado esta nomeação. As responsabilidades que daí advêm já estão subjacentes. O trabalho a realizar não muda, o que pode mudar é a forma de o conduzir e nós, mulheres, temos uma outra sensibilidade para enfrentar e resolver determinadas situações, o que poderá ser uma mais-valia.

É meu desejo continuar a abraçar esta missão com o mesmo espírito de sempre, humildade e simplicidade.

 

Passou uma semana desde que a nomeação foi tornada pública. Que reações tem tido?

Graças a Deus, foram muitos os colegas e amigos que se manifestaram e de várias formas. Todas as reações foram de felicitação, orgulho, satisfação, encorajamento, apoio e também de disponibilidade para uma colaboração mais próxima.

Esta missão não é minha é da Igreja, e como tal todos somos corresponsáveis.

 

A EMRC procura dotar os alunos do conhecimento do fenómeno religioso a partir da vivência cristã, em diálogo com uma sociedade multicultural. Antes desta colaboração no SDER, deu aulas durantes 22 anos. Qual a atualidade desta disciplina?

A atualidade de EMRC creio ser a mesma de sempre, ou seja, a necessidade da formação integral dos alunos. Um sistema de ensino sem a dimensão espiritual e religiosa no seu currículo torna-se deficitário. A sociedade atual, mais do que nunca, precisa de encontrar um sentido para a vida e valorizá-la. Quem melhor que Jesus Cristo para deixar esta mensagem? Ele próprio se intitulou “Caminho, Verdade e Vida”.

Entre os saberes adquiridos nas outras disciplinas, todos eles importantes, a EMRC é aquela que, por excelência, promove a mensagem e os valores cristãos, identifica os valores evangélicos, desafia a um projeto de vida com sentido, estabelece o diálogo entre a cultura e a fé, age com responsabilidade e coerência.

 

Sendo uma professora que está há 13 anos no SDER, é possível fazer um breve retrato da disciplina de EMRC no Patriarcado, em termos de implantação e de números?

Na disciplina de EMRC no Patriarcado de Lisboa, de um modo geral e durante alguns anos, felizmente, foi notório um certo crescendo, quer no ensino público, quer no ensino privado, graças ao trabalho e dedicação de muitos professores.

Em alguns Agrupamentos de Escolas, existiram situações pontuais de decréscimo, sobretudo por incumprimento da legislação em vigor, que regulamenta a disciplina, as quais exigiram a intervenção do SDER.

Nestes últimos anos, marcados pela situação pandémica e pela novidade da matrícula efetuada através do Portal do Ministério da Educação, o decréscimo, no ensino público, foi mais acentuado. As perspetivas são animadoras, e estamos empenhados e confiantes no caminho a percorrer.

No ano letivo de 2021/2022, frequentaram a disciplina de EMRC 45.272 alunos, correspondendo a 17,4% dos alunos matriculados. Acrescento que 7.836 alunos, embora inscritos em EMRC, não lhes foi possível frequentar a disciplina.

 

Um dos desafios mais destacados pelo SDER de Lisboa nos últimos anos tem sido a falta de professores de EMRC. Que trabalho tem sido feito nesta área?

Tem sido feita uma sensibilização junto dos professores, sacerdotes e catequistas, para que suscitem nos jovens, após o 12.º ano, esta opção pela EMRC, frequentando o Curso de Ciências Religiosas. Neste momento, temos duas jovens nesta situação, que estão a concluir o seu mestrado. Este desafio também foi possível graças ao financiamento disponibilizado, há cerca de cinco anos, pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé.

Relativamente aos professores que já se encontram no ativo, o SDER continua a evidenciar esforços na conciliação de horários incompletos, por vezes contactando com as Direções das Escolas, para que o máximo de alunos possa frequentar livremente a disciplina.

 

Estamos em época de matrículas, que apelo gostaria de deixar?

O meu apelo vai para todos os agentes educativos, para que não se demitam da sua responsabilidade e incentivem os alunos a aceitarem o desafio da EMRC. Esta é a disciplina que ajuda cada aluno a fazer escolhas com sentido, a ser ‘mais’ pessoa, a ser mais feliz, independentemente da sua crença religiosa. ‘EMRC, Vem e Vê!’, como diz o lema.

 

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Perfil

Maria de Fátima Nunes, de 60 anos, é da paróquia de Peniche, tem a licenciatura em Ciências Religiosas, via ensino em EMRC, e mestrado em Ciências Religiosas, com especialização em Animação Sócio-Religiosa. Foi empregada comercial e responsável pela contabilidade, deu aulas durantes 22 anos e colabora há 13 anos no SDER de Lisboa, tendo sido nomeada diretora, no passado dia 16 de julho, pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, em substituição do padre Paulo Malícia.

 

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Padre Paulo Malícia: “É uma mais valia para a Diocese de Lisboa assegurar estes serviços com leigos”

Que caminho foi feito, nestes 16 anos em que foi diretor do SDER, em termos da disciplina de EMRC e dos docentes?

A principal prioridade foi sempre acompanhar os docentes e zelar pela disciplina nas escolas. Os docentes, com tudo o que isso implica, desde o acompanhamento pessoal à formação, a tudo; e o ver se nas escolas a disciplina era oferecida e era garantida em condições. Esta foi a primeira prioridade.

Foi uma altura de grandes mudanças legislativas, algumas até muito grandes, que obrigaram a disciplina, e o papel dos secretariados, a repensar-se. Foi acompanhar e tentar implementar essas mudanças legislativas e o que elas implicaram.

Portanto, estes foram os dois focos: em primeiro lugar, os docentes e assegurar a existência da disciplina; e depois acompanhar as implicações das mudanças legislativas muito profundas da disciplina de EMRC.

 

Como vê a nomeação de uma leiga para o cargo de diretora do SDER, no caso a professora Fátima Nunes, uma colaboradora direta sua dos últimos 13 anos?

Em relação à primeira parte – e isso foi falado e foi logo muito concordado pelo senhor Patriarca –, este cargo pode e deve ser assegurado por um leigo. Isso também teve um pouco a ver com a evolução da disciplina nestes últimos anos. Portanto, fico muito feliz por ser um leigo a assumir esta missão. Acho que faz parte do papel dos leigos também assumirem estas missões na Igreja. Esta não é uma missão para um padre, é uma missão, em primeiro lugar, que não é especificamente do sacerdote. É uma mais valia até para a Diocese de Lisboa poder assegurar estes serviços com leigos, como já acontece noutras dioceses, aliás. Fico até muito feliz por isso.

A professora Fátima tem sido colaboradora do SDER estes anos todos, é uma pessoa que está por dentro dos dossiês e do mecanismo todo, portanto sendo a escolha do senhor Patriarca, e bem, um leigo, era natural que fosse a Fátima porque, nos últimos anos, tem sido ela a coordenadora. Acho que é uma escolha natural, de alguém que está dentro dos dossiês todos, dos desafios todos e que pode desempenhar bem esta função e começar esta nova etapa muito bem.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos docentes e aos alunos de EMRC?

Quero agradecer o trabalho e dedicação dos professores em prol da educação e da disciplina de EMRC. Foram muitos os momentos vividos com eles: alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, encontros e desencontros, sonhos realizados e sonhos por cumprir. Partilhámos as nossas vidas nos momentos bons e menos bons. Vi muitos a crescer, a ter filhos e netos, a enfrentar desafios profissionais e pessoais, a começar e acabar uma profissão que é, e será sempre, uma nobre missão. Vi lágrimas e sorrisos que não esquecerei.

Levo no coração a alegria estampada no rosto dos alunos, o que, para mim, foi sempre o sinal de que fazemos a diferença porque semeamos Amor. Afinal, o que é educar senão amar!

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