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Testemunho
D. Daniel Henriques: da eloquência do silêncio à encíclica dos gestos
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«O Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do Senhor» (Jb 1,21). É com estas palavras que Job resiste à tentação de maldizer a Deus pela grave situação em que se encontrava. Talvez tenha sido também uma frase balbuciada por D. Daniel nestes últimos meses da sua vida. E é seguramente uma expressão que encaixa perfeitamente no que sentimos: bendizer o Senhor pelo tanto que nos deu através do ministério pastoral de D. Daniel.

Conheci o D. Daniel como seminarista. Sempre vi nele uma incarnação (quase) perfeita daquele sonho missionário de chegar a todos que o Papa Francisco veiculou na “Evangelii Gaudium” e que D. Manuel Clemente assumiu como programa para esta diocese de Lisboa. Vi nele um irmão, alguém empenhado na construção de uma autêntica fraternidade sacerdotal, que recebi na imposição das mãos aquando da minha ordenação, nas palavras dirigidas na Missa Nova ou até nos simples gestos de cordialidade com que me recebia nas suas paróquias. Vi em D. Daniel (então Padre Daniel) um irmão mais velho, inspirador pelo testemunho, provocador pelo estilo: um padre “de cajado e sandálias”, revestido com a estola da misericórdia, de sorriso fácil, embora tímido, com um coração aberto (e sedento) para chegar a todos.

A partir do dia 25 de novembro de 2018, passou a ser também um pai. D. Daniel não se vangloriou por uma aparente “progressão na carreira”, porque como ele próprio assume no seu lema episcopal, “todas as minhas fontes estão em Ti”. D. Daniel não dizia palavras vazias: tudo falava de Deus, tudo apontava para Jesus. Despojou-se de qualquer tentação de “poder” para o transformar em serviço. O seu ministério apoiou-se no essencial; e nessa essencialidade, aproximou-se deveras da santidade. Não era apenas um homem bom; era um homem santo.

A partir de outubro de 2019, sem deixar de ser pai, passei a ter em D. Daniel um amigo. Estava eu em Roma, no quarto ano da minha aventura romana. D. Daniel já sabia o que tinha, mas, pensando mais nos outros do que em si, preservando mais a amizade do que a comodidade, quis dizer presente no Consistório que faria do seu colega e amigo D. José Tolentino Mendonça Cardeal da Igreja Romana. A doença foi mais forte, e obrigou-o a trocar a Basílica de S. Pedro pela Clínica Gemelli. As notícias não eram animadoras: teria que ser submetido a intervenção cirúrgica.

Foram 3 semanas de graça (e de graças). Não foram apenas 3 semanas, para mim, de visitas quase diárias ao hospital; foram 3 semanas a lidar com um santo. Foi impressionante a forma como D. Daniel lidou com a doença. Em primeiro lugar, com muita serenidade; mas também com um doloroso realismo de quem sabia que um longo calvário o esperava.

No início da sua “estadia”, pediu 3 coisas: um terço, o breviário e, se possível, uns chinelos de quarto. A fragilidade física de D. Daniel era sobrenaturalmente contrariada por esta “teimosia” em se agarrar ao Senhor. Nunca ouvi uma queixa. Nunca ouvi uma repreensão. Da sua voz cansada só brotavam palavras de gratidão pelas manifestações de carinho e de comunhão que chegavam de Portugal e às quais não conseguia responder; e pelas visitas, muitas delas inesperadas, com que foi sendo brindado. Creio que naquelas semanas o D. Daniel percebeu o alcance e a verdadeira dimensão do seu ministério episcopal. Mas a sua simplicidade impedia-o de o exprimir publicamente. Ele foi o bispo do essencial e da simplicidade.

Recordo-me de me ter dito que a primeira coisa que fez quando chegou a Roma foi confiar o seu ministério (e a sua doença) à proteção e intercessão de S. João Paulo II, de quem era devoto. E foi precisamente no antigo quarto do Santo Padre que D. Daniel viveu os seus últimos dias na Clínica Gemelli. Mais uma das “deuscidências” que o Senhor possibilitou nestas semanas. Na sua boa disposição, dizia-me que quando saísse iríamos comer massa e um gelado. Era o que lhe apetecia. Mas também o primeiro encontro com o Papa Francisco, já pela segunda vez adiado devido à doença.

Deus foi generoso para com D. Daniel: não se limitou a cumprir estas duas vontades (comeu gelado e massa, e teve a graça de concelebrar com o Santo Padre em Santa Marta), mas permitiu que conhecesse a Biblioteca do Vaticano e outros locais emblemáticos ainda desconhecidos.

Os meses que se seguiram foram um sofrido e doloroso Calvário, vivido em chave pascal. Entre a tensão da oração de Jesus no Getsemani e a liberdade com que Jesus entregou ao Pai o Espírito, D. Daniel experimentou provavelmente todas estas sensações. Mas viveu-as com um profundo sentido de fé e de silêncio, desejando apenas que o seu testamento espiritual fosse uma reprodução fiel do seu padroeiro de curso: «combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé».

Vi-o pela última vez no dia 5 de outubro. O seu sorriso tentava esconder o que de facto sabia estar a viver. Estava nas mãos de Deus. Aliás, como sempre esteve e como sempre se sentiu. Mesmo sabendo que poderia ser uma possibilidade, nunca imaginei que fosse a última vez que o iria ver. Desde 2019 que sempre me agradecia por aqueles momentos vividos em Roma. E dois dias antes de falecer, numa troca de mensagens, foi essa a última frase: «Obrigado pela amizade». Mas esta é que deveria ser a minha frase: «Obrigado pela amizade». Conheci um santo, um verdadeiro testemunho de Cristo Bom Pastor que fez da eloquência do silêncio e da encíclica dos gestos o seu verdadeiro testamento espiritual.

Obrigado, D. Daniel. Pela amizade. Por tudo. A-Deus!

 

texto pelo Pe David Palatino

(https://misericordessicutpater.blogspot.com)

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