Entrevistas |
Cónego José Manuel Ferreira: ?Bento XVI era um fiel como qualquer um de nós a adorar Cristo na Eucaristia?
<<
1/
>>
Imagem
Esteve 15 minutos com o Papa a mostrar o Mosteiro dos Jerónimos. À VOZ DA VERDADE, o cónego José Manuel Ferreira revela que, ao ver Bento XVI ajoelhado diante do sacrário, o sentiu “como qualquer um de nós a adorar Cristo na Eucaristia”.

Na sua visita a Portugal, Bento XVI foi conhecer o Mosteiro dos Jerónimos no dia 11 de Maio. De que forma foi preparada a visita do Papa, quantas pessoas envolveu a preparação e o que é que era pretendido transmitir ao Santo Padre durante a visita?

Assim que foi anunciada a visita do Santo Padre surgiu imediatamente a ideia de se constituir um coro de crianças que pudesse interpretar um cântico que de certo modo se fizesse como pano de fundo do percurso do Santo Padre e de algum modo pudesse preparar um ambiente de oração que era o motivo principal da vinda do Santo Padre Bento XVI aqui à igreja. O Papa vinha, certamente, para visitar, mas vinha também para se recolher durante uns instantes em oração diante do sacrário. Por isso, pensámos que um cântico de natureza eucarística pudesse ser mais adequado e assim escolhemos o belíssimo hino medieval ‘Ave verum Corpus’, na famosa versão de Mozart. E assim surgiu como uma evidência que tinha de ser este cântico! A proposta foi automaticamente bem acolhida por muitas crianças, pais e direcções das escolas. Divulgámos a ideia junto de escolas e colégios da freguesia de Santa Maria de Belém, e até fora desta freguesia, juntamente com as crianças da própria catequese. A preparação requereu algum tempo, com ensaios regulares, muita dedicação e muita gente, não só as crianças, mas também os pais, os educadores, os professores… Foi um conjunto de pessoas que trabalhou com afinco para dar ao Papa um momento muito agradável quando entrasse na igreja dos Jerónimos.

 

O que é que o Papa visitou no mosteiro? Bento XVI manifestou particular interesse em algum local específico dos Jerónimos?

De facto, creio que todo o espaço da igreja o sensibilizou muito, antes de mais nada… Eu tive a oportunidade de acentuar aquilo que me parece ser a grande força desta igreja, não tanto no ponto de vista estilístico ou arquitectónico, mas diria que do ponto de vista espiritual e teológico. Aqui há uma acentuação do mistério da encarnação e da epifania de Cristo e de Deus feito homem. Nos primeiros passos que dei ao lado do Santo Padre tive a oportunidade de acentuar esta dimensão que me parece patente em cada canto e nos grandes momentos estéticos e artísticos desta igreja. A começar pelo alto da porta principal desta igreja, por onde passámos, que tem uma representação do nascimento de Jesus. E depois, não tive oportunidade de mostrar a porta sul, com uma admirável representação de Nossa Senhora com o Menino ao colo e na outra mão um dos presentes dos magos. Falei-lhe nisso, mas o Santo Padre não teve a oportunidade de a ver. Creio que todo o espaço da igreja o sensibilizou profundamente, sobretudo quando, depois deste momento de oração, o Papa Bento XVI se levantou e olhou para o fundo da igreja e viu aquela imensa profundidade que estava disponível ao seu olhar. Talvez até mais do que quando entrámos porque os projectores ao serviço das transmissões televisivas não deixavam ver toda a dimensão porque incidiam naturalmente nos olhos e de algum modo limitavam um pouco o campo de visão. Mas quando o Papa olhou para o fundo da igreja senti-lhe um olhar de admiração que não fora contido ao ver o espaço dos Jerónimos e isso, naturalmente, me alegrou também profundamente.

 

Qual terá sido o sentimento do Papa ao rezar no Mosteiro dos Jerónimos?

Senti-o tocado pela grandeza do espaço e pelo mistério que aqui se celebra. Mas também pela mensagem que aqui transparece em toda a grandeza deste monumento e senti-o, enfim, como em qualquer fiel fascinado pela presença de Cristo na Eucaristia. Na sua genuflexão, no modo como se ajoelhou, e como ficou, por breves momentos, ajoelhado diante do sacrário, Bento XVI era um fiel, um fiel como qualquer um de nós a adorar Cristo na Eucaristia e não se privou do encanto de poder estar por uns momentos diante do sacrário.

 

Um dos motivos de interesse desta visita de Bento XVI aos Jerónimos eram os 12 confessionários situados na parede norte da igreja, onde os monges dos Jerónimos ouviam os penitentes em confissão. O Papa tem defendido que o sacramento da reconciliação deve ser utilizado “frequentemente, de forma a evitar o pecado”. A visita do Papa a Portugal poderá trazer uma maior abertura para o mistério da reconciliação?

Na verdade, na passagem pelo Claustro, o Santo Padre pôde ver em pormenor esses confessionários e reconheço que o Papa ficou tocado por essa prova, por esse testemunho da atenção pastoral que aqui os monges da ordem de São Jerónimo davam aos navegadores que antes de partirem procuravam a reconciliação com Deus e a paz da Igreja no sacramento da penitência. Acredito que ao recordarmos a importância que este sacramento teve em cada um dos momentos da história da Igreja, hoje saibamos dar-lhe todo o seu valor, toda a sua importância e perceber que é indispensável que os fiéis possam continuar a ter esse encontro directo com Cristo mediante o sinal sacramental da reconciliação. É este o caminho que devemos também hoje percorrer.

 

O Papa foi acolhido nos Jerónimos por um coro de 80 crianças que cantaram Mozart e um cântico tradicional da Baviera, que Bento XVI prontamente cantou também. No final da visita do Papa aos Jerónimos, com que imagem é que fica de Bento XVI?

Eu sempre tive do Santo Padre uma imagem de uma pessoa muito profunda, um grande pensador, uma pessoa com uma erudição espantosa e ao mesmo tempo uma pessoa de grande simplicidade. Por isso não me espantou esse sinal de simplicidade e de naturalidade que se reflectiu no facto de ter começado a cantar, assim sem mais nem menos, aquele cântico. Eu imagino que o cantaria todo se entretanto não tivessem surgido pessoas para o cumprimentar e outros momentos que ali aconteceram.

Devo dizer sinceramente que não fiquei espantado, fiquei sim sensibilizado. No fundo corresponde à grandeza e à simplicidade desta pessoa que ocupa o sólido pontifício. Sei que muitas pessoas se surpreenderam com tantas características tão calorosas da personalidade de Bento XVI, mas não fui das que se surpreenderam, mas das que se confirmaram.

 

Algumas horas depois da visita do Santo Padre ao mosteiro, disse que ainda saboreava aqueles “quinze minutos inesquecíveis”. Qual foi para si o momento mais marcante da passagem de Bento XVI pelos Jerónimos?

Antes de mais, a forma como próprio Santo Padre me cumprimentou depois de ter sido apresentado pelo senhor Cardeal-Patriarca, invocando os monges Jerónimos, dizendo que eu era o sucessor dos monges Jerónimos. É verdade que em rigor canónico isso não é assim, mas, seja como for, foi muito tocante por parte do Papa ter invocado todo o passado e acentuar a sua continuidade nos dias de hoje. A igreja dos Jerónimos continua aberta ao público e ao serviço da Igreja, não foi transformada num museu, é um espaço religioso onde se celebra o culto e é muito bonito saber que essa continuidade é reconhecida pelo Santo Padre.

Também me tocou muito a simplicidade com que olhou para a grandeza da igreja quando se levantou do seu genuflexório, já que o Papa teve como que um sobressalto interior e tocou-me efectivamente toda a cordialidade e a pausa espontânea de fascínio que fez para escutar as crianças que o receberam. Sinto que só não ficou mais tempo com elas porque não podia.

PERFIL

O cónego José Manuel dos Santos Ferreira, pároco de Santa Maria de Belém, recebeu no Mosteiro dos Jerónimos o Papa. Ao longo de quinze minutos, este sacerdote acompanhou Bento XVI numa visita guiada.

Professor e capelão do Instituto Superior de Educação e Ciências, capelão do Colégio Pina Manique, capelão chefe da Casa Pia de Lisboa, assistente diocesano da ACI e consultor eclesiástico, o cónego José Manuel dos Santos Ferreira, de 57 anos, conta que o Santo Padre ficou admirado com a beleza dos Jerónimos.

João Carita
A OPINIÃO DE
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Depois de tudo, ou quase, ter sido dito sobre a eutanásia, é preciso regressar ao essencial: a eutanásia é uma licença para matar.
ver [+]

Guilherme d'Oliveira Martins
Em 1965, quando a revista Brotéria passou a assumir-se como uma revista de cultura, inspirada na “grande...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES