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Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo: ?Visita do Papa a Portugal vai certamente dar-nos entusiasmo e rasgar horizontes?
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O Cardeal-Patriarca de Lisboa considera que a visita de Bento XVI a Portugal foi um “grande acontecimento, muito bonito e muito marcante”, que vai entusiasmar a Igreja e “rasgar horizontes”. Fazendo à Rádio Renascença um balanço da viagem papal ao nosso país, D. José Policarpo salienta que a visita “abriu uma espiral de nova aceitação” da Igreja.

Há uma agenda de mudança que o Papa Bento XVI deixa à Igreja portuguesa, depois da visita?

É preciso distinguir duas coisas na vinda do Papa a Portugal e, de modo particular, a Lisboa: o acontecimento em si mesmo, um acontecimento eclesial muito forte, e o magistério do Papa. Deixemos o acontecimento, certamente, para outra pergunta, mas o magistério não tem novidades. O Santo Padre retoma, sucintamente, aqui em Lisboa, no Terreiro do Paço e no Centro Cultural de Belém, uma doutrina que já está, até, mais desenvolvida noutros documentos. Por exemplo, nas suas encíclicas e em alguns dos seus discursos ao mundo da cultura. Portanto, não se vê que tenha sido preocupação de Bento XVI trazer coisas novas. De qualquer maneira, o facto de serem ditas – e voltamos ao acontecimento – no contexto de um grande entusiasmo, de um grande acolhimento por parte do público, faz-nos relê-las de novo. Penso que essa é uma das consequências muito bonitas de um facto destes: é que o magistério é formalmente o mesmo – não sei se se deu por isso, mas, em muitos casos, há mesmo a citação das encíclicas –, mas aconteceu-nos aquilo que deveria acontecer habitualmente na Igreja, que é, ao ritmo de circunstâncias particularmente interpelantes, nós relermos e ouvirmos de novo aquilo que já nos foi dito.

 

Estamos num momento de renovação das cúpulas da Igreja portuguesa, com mudanças em vários bispados. Estou a lembrar-me de Coimbra, Lamego, Viana, Bragança... Esta mudança, que ocorre conjunturalmente na Igreja portuguesa, pode também facilitar uma nova dinâmica, partindo da base daquilo que Bento XVI nos deixou aqui?

Em princípio, sim. Esperemos que sim, mas tenho dificuldade em responder, porque não sei quais são as pessoas que vão ser nomeadas para as dioceses que estão mais perto de uma substituição, as quatro que referiu. Três dos senhores Bispos já pediram a resignação e já foi aceite. Portanto, dentro de um ano, essa substituição dar-se-á. Em Lamego, o senhor D. Jacinto também está a completar os 75 anos. Depende muito das pessoas que vierem. Há muito tempo que não acontecia um número tão grande de prelados ser substituído ao mesmo tempo. Penso que todos eles terão a preocupação de garantir uma coisa que na Igreja é muito importante, que é a conciliação entre continuidade e renovação. Na Igreja nunca pode haver uma renovação que seja ruptura, porque provoca efeitos que não se coadunam bem com a renovação, nem pode haver uma simples continuidade sem renovação, porque a missão da Igreja, num mundo que evolui todos os dias, que muda todos os dias, exige essa renovação. Em Portugal, o ambiente dos Bispos está, neste momento, muito marcado por um certo sentido de esperança, de conseguir pôr em comum algumas perspectivas, não apenas sob o ponto de vista teórico, porque essas são fáceis, mas na concretização, no terreno pastoral. Portanto, inevitavelmente, as pessoas que forem nomeadas não virão da lua, ou seja, estarão dentro do próprio processo. Independentemente disso, penso que, a seu tempo, ver-se-á que este grande acontecimento, muito bonito e muito marcante, vai certamente dar-nos entusiasmo e rasgar horizontes. Aponto-lhe um, pois não há dúvida de que este grande acontecimento abriu uma espiral de nova aceitação, de uma população que até tem andado um bocado hesitante ou não entusiasmada com a Igreja.

 

O Papa falou muito de um laicado maduro, capaz de dar testemunho das razões da sua esperança. O que é que está pensado para reforçar essa formação do laicado adulto?

Eu considero que, em Lisboa – do resto do país não me posso pronunciar, não conheço com o detalhe que conheço Lisboa – temos um laicado conscientizado e empenhado na vida concreta da Igreja. Aí, mais uma vez, trata-se de continuidade e renovação.

 

O Papa falou, aliás, na necessidade de acolher novos carismas...

Aí está, o Papa pôs o dedo, não digo na ferida, mas no ponto quente. Porque, por um lado, a criatividade carismática é justa e sempre existiu na Igreja e, neste, últimos anos, temos vivido ao ritmo de uma grande pujança daquilo a que se chamaram novos movimentos ou novos carismas, mas isto tem que ser vivido no realismo da unidade da Igreja.

 

Há, de qualquer forma, nalgumas destas novas formas eclesiais, uma certa postura quase de provocação, de desafio a uma nova postura da hierarquia. Sente isso?

A provocação e o desafio têm lugar na missão da Igreja, quando se trata de quebrar o marasmo das coisas adquiridas, a incapacidade de responder às necessidades da evangelização no mundo contemporâneo. A provocação é boa.

 

Vê isso como positivo?

Vejo como positivo. Agora, o problema do desafio é o da unidade. Há um autor que diz, poeticamente, que é preciso que esses movimentos não façam a confusão da ostra, que confunde o oceano com a água que tem dentro da sua concha. Este é um grande desafio, de parte a parte.

 

O Papa sente a falta de crentes nos meios políticos, nos meios intelectuais, nos próprios media. O que é que se pode fazer para formar um laicado mais interveniente nesses meios? Parece haver agora uma espécie de vazio...

Não é igual em todos os sectores da sociedade, esse vazio. Dou-lhe um exemplo, o dos empresários e gestores. Temos em Portugal das associações mais vivas de toda a Europa de empresários e gestores católicos, que se reúnem e tem um trabalho regular, para reflectirem, exactamente, a sua fé e os desafios que o ser católico traz.

 

E os meios da cultura?...

O Santo Padre, aí, pôs a tónica numa debilidade nossa, que é a de encontrar formas novas de penetrar em certos meios, que foram penetrados de outra maneira, num passado recente, de 40 ou 50 anos. Dou-lhe um exemplo: as associações profissionais tiveram uma pujança muito grande. Hoje, os médicos católicos existem, mas têm muita dificuldade em penetrar no meio. Os professores católicos, quase todos, estão reformados… Há novas formas que é preciso inventar e tem que haver a ousadia da nossa parte, dos pastores da Igreja, e capacidade de luta dos leigos. Por exemplo, no caso concreto, na política. Eu ando há tempos a ver se consigo perceber onde é que podia haver um dinamismo que tem de ser muito informal, no princípio. Penso num caso como o da Itália, que até tem uma capelania no parlamento. Entre nós, isso é completamente impensável e não sei se seria o caminho. Agora, que haja uma reflexão cristã no âmbito da política, da politica sensus estricto, isso era importante.

 

Precisamos de nos corrigir e de exigir mais uns aos outros?

Precisamos de nos motivar mais uns aos outros. Penso que o que falta hoje na Igreja é a força mobilizadora de testemunhos. Mais do que estar a ralhar com o parceiro, importa mostrar-lhe que é apaixonante estar empenhado com Jesus Cristo e viver o Evangelho no concreto da vida de hoje. Portanto, penso que mais do que, usando a expressão, admoestar ou corrigir, que tem sempre lugar, e repito, não abandono essa perspectiva, hoje, o que verdadeiramente falta são testemunhas. Não são discursos. Se há qualquer coisa que ressalta muito desta visita do Papa é a importância do testemunho sobre o discurso. A Igreja não é discurso, mas vida, em que os testemunhos são arrebatadores, que arrastam outros atrás deles.

 

Apesar disso, no que se refere aos sacerdotes, o Papa apontou o caminho de uma maior partilha comunitária da própria vida. Há reformas em curso, que façam antever que os novos seminaristas, quando forem padres vão ficar menos sozinhos, do que aconteceu, por exemplo, aos da sua geração?

Há desejos em curso. Curiosamente, eu posso dar-lhe o meu testemunho, aqui de Lisboa, onde essa é uma das causas do meu combate contínuo. Penso que, na nossa vida de padres, temos de conciliar positivamente a experiência da solidão com a experiência da comunhão, fazendo com que a solidão não quebre a comunhão, porque a solidão também é boa. Agora, o problema que se põe é que ainda não encontrámos formas viáveis e adequadas de uma nova forma de convivência dos sacerdotes. Digamos, de uma forma muito clara, que a grande experiência de comunhão de um sacerdote não é uns com os outros, é com o povo de Deus. Nós somos pastores de uma comunidade e, se formos capazes de tomar isto a sério, nós não sofremos a solidão, antes pelo contrário.

 

Como é que numa sociedade urbanizada, como é o caso de Lisboa, se encontram formas de acolher os sacerdotes na família cristã, digamos, paroquial, tão diferentes daquelas que eram formas de acolhimento nas aldeias?

Depende muito da maneira como o sacerdote, no seu dia-a-dia, no exercício do seu ministério se insere na comunidade. Se ele é simplesmente um prestador de serviços, dificilmente o fará. Se ele é um pastor, não tem solidão, porque as pessoas querem-no com ele, as famílias querem-no com elas, os jovens querem-no com eles. Não têm solidão. Há uma outra coisa que o Papa também disse: que não bastam as boas organizações administrativas, na pastoral. Um quadro organizativo muito perfeito é algo que não chega, pois o que é preciso é o ardor de pastor. Esse é um dos grandes desafios para o sacerdote actual e para o do futuro. É retomar, em termos actuais, a figura do pastor. Nós temos, por exemplo, um parque social enorme, tremendo para as nossas capacidades de gestão. Ora, os párocos ainda são estatutariamente os presidentes dessas instituições...

 

Devem deixar de ser?

Temos que evoluir. Temos de criar uma nova mentalidade, pois há leigos preparados. Temos alguns casos em que os leigos podem, com vantagem, gerir a instituição.

 

Como define as relações da Igreja com o actual poder político?

As relações com o poder político, da nossa parte, Igreja, são de uma grande independência e de uma grande lealdade. Há uma certa tendência, mesmo no poder político, de confundir Igreja e hierarquia. Acho que nós devemos respeitar e cooperar na medida possível com todo o poder legítimo. O contrário seria não aceitar o sistema democrático, os seus valores e também as suas dificuldades.

 

Em relação à família, quando, o Papa Bento XVI mostrou o seu agrado pela presença de católicos em associações que defendem a família e a vida, fê-lo de forma aliás muito positiva. Não condenou o aborto, mas, no fundo, congratulou-se pelo facto de haver católicos que promovem a reconciliação e a cura. Foram as palavras utilizadas. Houve uma explosão de palmas na sala. Surpreendeu-o aquela manifestação?

Não, porque esse é um sentir muito espalhado. Nós ainda não fomos capazes de suscitar pela positiva a defesa da vida, num contexto de lei abortiva. Isso é um desafio para nós, Igreja. O nosso papel em relação à vida, como em relação à família, não é só o de lutar para que leis injustas não se façam. Mas quando elas se fazem o incentivo é maior ainda para lutar pelos valores maiores que defendemos. Esta lei que acaba de ser promulgada choca muito toda a compreensão cultural e civilizacional de milhares de anos, não é só do povo português. Há um dado que eu ainda não tenho, tenho a sensibilidade para ele, mas ainda não percebi em que medida é que os casais heterossexuais, sobretudo os jovens, são atingidos por esta lei que torna o casamento entre pessoas do mesmo sexo igual ao deles. Tenho tido um eco ou outro, mas, positivamente, penso que é um desafio muito grande, e eu penso fazê-lo. A discussão sobre esta lei, mesmo pelo público católico não se fez com clareza. È que não estava em discussão a homossexualidade, isso é outro discurso. Portanto, a homossexualidade existe, sempre existiu, há explicações várias, as pessoas homossexuais têm o direito a ser respeitadas na sua privacidade. Eu sou contra todas as espécies de homofobia, mas não era isso que estava em discussão. O que estava em questão era um direito ao casamento. E eu acho que esse direito não existe.

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