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Irmã Ângela Coelho: ?Por detrás destas ?aparentes? cinzas, está a nascer uma nova geração de cristãos? (com vídeo)
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A irmã Ângela Coelho é vice-postuladora para a Causa de Canonização de Francisco e Jacinta Marto e seguiu de perto os passos de Bento XVI em Fátima. Teve inclusive um momento a sós com o Santo Padre. Para a religiosa, a visita do Papa a Portugal mostrou o rosto jovem da Igreja e a nova geração de cristãos, a que chama de ‘novos pastorinhos’.

Em Fátima, onde veio como peregrino, Bento XVI manifestou ter ‘inveja’ dos pastorinhos por terem visto Nossa Senhora. Com esta frase, o Papa mostrou toda a sua humildade, concorda?

Sim concordo! O Papa é uma pessoa profundamente humilde, como é típico das pessoas sábias e cultas. Ao reler a frase e ao voltar àquele dia 13 de Maio, penso que o Papa está a apontar para aquele espírito do Evangelho, a bem-aventurança de que Jesus falou: ‘Felizes aqueles que mesmo sem terem visto continuam a acreditar’. Penso que o Santo Padre se inclui nesse grupo e nos quer incluir a todos nós! Aliás, o Papa diz que Deus pode, de qualquer forma, tocar o coração do ser humano, assim que nós tenhamos a vigilância de coração. Teresa de Ávila, por exemplo, diz que a humildade é caminhar na verdade e nós sabemos o quanto Bento XVI é apaixonado pela verdade e tem a obsessão saudável de busca da verdade. O Papa disse várias coisas fantásticas em Portugal, inclusive no encontro com a Cultura, quando diz que ‘quando um povo perde a sua verdade então fica perdido nos meandros da história’. Ou quando diz que a ‘missão da Igreja é anunciar a verdade’ e que isso ‘é irrenunciável’.

 

Na Missa de dia 13, Bento XVI referiu-se a Jacinta como alguém “incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores”. Neste tempo de crise económica e de secularização, num mundo cada vez mais laicizado, que exemplo nos deixaram os pastorinhos para a vida contemporânea?

O grande exemplo dos pastorinhos é a partilha! A partilha do pouco que tinham, porque eles eram pobres, mas ainda assim partilhavam com os pobres que encontravam e que achavam mais pobres do que eles. É bonito verificar que, por exemplo, João Paulo II numa das suas encíclicas sobre a Doutrina Social da Igreja disse que a partilha não é só daquilo que nos sobra, é também ter a coragem de dar um pouco daquilo que nos faz falta. E os pastorinhos faziam isso: davam aos pobres o único alimento que tinham para o dia todo! Portanto, o grande testemunho dos pastorinhos passa pela solidariedade, que é no fundo o outro nome do mandamento do amor. Esse mandamento novo, que embora tenha dois mil anos continua a ser um mandamento novo. É esta solidariedade e ao mesmo tempo compromisso que os distingue os pastorinhos dos outros. O compromisso que está em dificuldade na nossa sociedade. Temos medo de nos comprometer, daí a grande crise de vocações na vida da Igreja, quer no ministério ordenado, que na vida consagrada, quer na vida matrimonial. Porque é que tudo isto se está a reduzir? Porque temos medo do compromisso, medo de assumir a nossa entrega a uma causa, a uma vocação! A algo do coração e para sempre. Os pastorinhos não tiveram esse medo! Nossa Senhora mostrou-lhes a Igreja no tempo – a Igreja a sofrer, o Papa a sofrer – e mostrou-lhes o inferno, o para lá do tempo… e eles assumiram isto como causa sua! Por isso destaco nos pastorinhos esta característica da solidariedade e da partilha, que a nós nos impelem.

 

Em Fátima, o Papa questionou: “Quem tem tempo para escutar a palavra de Deus e deixar-se fascinar pelo seu amor?” Diz ainda Bento XVI que os pastorinhos “fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus”. É preocupante para a Igreja a falta de mais ‘pastorinhos’ nos dias de hoje?

Eu acho que aquilo que a Igreja tem de mais bonito no seu seio é que hajam homens e mulheres, que mais visivelmente ou mais escondidos, se entregam e se doam! Claro que alguns podem ser inspirados pelos pastorinhos, outros não, mas todos são inspirados pelo modelo do Evangelho e pelo espírito de Jesus. Há falta? Claro que sim… mas já há dois mil anos Nosso Senhor dizia que a messe era grande mas os trabalhadores são poucos! Ou seja, esta disparidade entre a missão a fazer e a quantidade de gente empenhada a sério sempre houve e sempre haverá. E eu até acho que vivemos um momento muito bonito, porque com a vinda de Bento XVI surgiu gente de onde menos esperávamos, vimos o rosto jovem da Igreja em Portugal! Fiquei com muita esperança! Ainda há gente! Agora, é claro que podemos dar um pouco mais, podemos ir mais além, assumir um pouco mais a radicalidade do compromisso, ou seja, poderá ainda não haver gente suficiente como os pastorinhos. Por detrás destas ‘aparentes’ cinzas, está a nascer uma nova geração de cristãos! Jovens que surpreendem pela fantasia e pela fé criativa…

 

“Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé, fazendo resplandecer aos olhos dos vossos contemporâneos a luz de Cristo”. Quase contra tudo e contra todos, os pastorinhos não tiveram medo, nem nunca negaram terem visto Nossa Senhora. São um modelo para os “crentes envergonhados”, como referiu Bento XVI no encontro com os Bispos de Portugal?

Sim, são! São modelo também por essa dimensão de não ter medo, por serem fiéis à missão que receberam! Bento XVI na sua visita a Portugal apela que é preciso reforçar a qualidade do nosso testemunho, até à santidade se for preciso! A grande urgência é tornar Deus presente no mundo e cada cristão ser um espaço onde Deus se torne presente no mundo e para o mundo. É importante que se abra este caminho, para que o mundo tenha acesso a Deus. E só há uma forma de melhorar a nossa qualidade no seguimento de Jesus, que é passar tempo com Ele. Quer na Eucaristia – que Bento XVI chama de ‘escola de humildade e de serviço’ –, quer na meditação da palavra de Deus – que é a grande força de transformação da sociedade. Isso era a característica de vida dos pastorinhos. Porque é que eles não tinham medo? Onde é que eles foram buscar a força? À única força que nós temos: Nossa Senhora!

 

Ainda na Missa de dia 13, o Papa teve uma afirmação – “Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída” – que levou muitos vaticanistas a questionarem o alcance de tais palavras. Em seu entender, o que Bento XVI quis dizer à Igreja?

A dimensão profética de Fátima é apenas isto: Deus tem uma intervenção na história em ordem à salvação. E esse acontecimento ainda não se esgotou! Porque esta intervenção de Deus vai apelar para o núcleo essencial do Evangelho: a conversão permanente, a penitência, a oração e a vivência das virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Ora, isto ainda não se vive… por isso é que a missão profética de Fátima ainda não se esgotou e continua a ser uma interpelação de Deus para o nosso século XXI! Possivelmente, é até muito mais importante e necessária hoje do que em 1917 quando os pastorinhos receberam ‘em primeira mão’ a mensagem de Fátima.

Agora, muita gente levou as palavras do Papa para o segredo, para a profecia. Para uma dimensão mais restrita. E na minha opinião, o que Bento XVI estava a tentar fazer era apelar para a primeira parte da minha resposta, para uma significação maior e mais abrangente! Agora, se o segredo está cumprido ou não está cumprido… o que tem o segredo? Uma Igreja a caminhar em direcção à Cruz… e também isto não está cumprido! A Cruz vai continuar a ser o nosso sustento e onde são depositados todos os sofrimentos desse povo que caminha. Agora, se o Papa vai ser morto ou não… isso é um detalhe que, para mim, perde força neste contexto geral!

 

Na noite de dia 12, na bênção das velas, o Papa convidou a Igreja a imitar Maria. De que forma os cristãos podem hoje dizer como Nossa Senhora: ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’.

Essa é a dimensão fundamental do ser humano, enquanto cristão e filho de Deus: ser um espaço para a obediência de Deus! E Bento XVI explica isto quando fala na terra prometida, onde diz que o povo Hebreu foi percebendo ao longo do tempo que a terra prometida era um espaço onde se podia cumprir a obediência a Deus. Nossa Senhora aprendeu com o povo a dizer: ‘faça-se’. E como podemos nós fazer como Maria? Acreditando em Deus em todas as circunstâncias, aquelas onde Deus se esconde – os ‘desertos’ da nossa vida –, onde Deus resolve silenciar, continuar a acreditar nele! Sermos sinais de esperança onde neste mundo há tantos sinais de desespero… sermos portadores da luz, do sorriso num mundo cheio de trevas e cada vez mais triste. Só assim conseguiremos levar o ‘faça-se’ de Nossa Senhora e é através do nosso ‘faça-se’ que a história da salvação continua a realizar-se!

 

Perfil

A irmã Ângela de Fátima Coelho, de 39 anos, é religiosa, médica em ‘part-time’ no Hospital de Leiria e professora de ciências religiosas em Aveiro. Entrou para a Congregação da Aliança de Santa Maria em 1995, onde foi mestra de noviças. É vice-postuladora para a Causa de Canonização de Francisco e Jacinta Marto, dedicando-se à causa de canonização dos pastorinhos de Fátima.

 

“Falta apenas um milagre”

A sete anos da comemoração do centenário das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, a vice-postuladora para a Causa de Canonização de Francisco e Jacinta Marto diz que falta apenas um milagre para que Francisco e Jacinta Marto sejam canonizados. “A única coisa que é preciso é um novo milagre, mais nada! Em termos burocráticos já não há mais nada a fazer. Resta apelar à oração a Nossa Senhora por sua intercessão”. Segundo a irmã Ângela Coelho, todas as Causas dos Santos precisam de um milagre para a beatificação e um outro para a canonização. Por isso, lança um apelo: “É importante que comuniquem ao secretariado todas as graças e dons para que possamos canonizar o Francisco e a Jacinta”.

 

‘Coragem, deve andar em frente, em frente’

«Quando fui apresentada como a responsável pela causa da canonização dos pastorinhos, o Santo Padre disse: ‘Coraggio, devi andari in avanti davanti’, isto é, ‘Coragem, deve andar em frente, em frente!’. Eu respondi-lhe que todos os dias, com os pastorinhos, rezamos pelas suas intenções. Mas o mais especial foi ter podido rezar com ele, na presença física do Papa, junto aos pastorinhos. Senti-me unida ao Papa a rezar pelos pastorinhos, e depois, ao mesmo tempo, eu unida aos pastorinhos a rezar por ele! Não consigo explicar por palavras, mas ter sentido que estava com a Jacinta a rezar com ela pelo Papa foi um momento de graça e misericórdia! E sem dúvida que também guardo a bênção que ele me deu, a bênção do meu Papa! Levo-a como bênção para a minha missão! Foi uma graça extraordinária! Estes 3 minutos orantes foram as coisas mais bonitas que eu tive em toda a minha vida! Naquele momento, para mim, só o Papa existia! Mas senti que para o Papa também só eu existia! Ele olhava para mim com tanto carinho, com tanta ternura e só eu existia para ele, embora estivéssemos rodeados de fotógrafos, jornalistas…»

Irmã Ângela Coelho

 


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