Entrevistas |
D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e coordenador-geral da visita: ?Visita de Bento XVI a Portugal foi muito marcante para o pontificado e para cada um dos cristãos?
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O coordenador-geral da visita de Bento XVI a Portugal revela que o porta-voz do Vaticano lhe confidenciou que a visita do Papa ao nosso país foi uma das melhores do pontificado. A terminar o ciclo de entrevistas da VOZ DA VERDADE sobre a visita de Bento XVI, D. Carlos Azevedo diz que não foi surpreendido pela adesão dos jovens e deixa desafios à Igreja.

D. Carlos Azevedo foi o coordenador-geral da visita de Bento XVI a Portugal. Agora que se passaram dois meses após a visita, que balanço faz da presença de Bento XVI no nosso país?

O balanço é extremamente positivo! Quer pela experiência em si, como experiência espiritual forte e apostólica, já que foi assim que o Santo Padre definiu a viagem; mas também ao mesmo tempo pelos ‘ecos’ que ao longo destes dois meses, e pelo contacto com as pessoas, vamos tendo sobre o impacto que a visita teve. Sem contar com o impacto internacional, uma vez que tivemos um ‘batalhão’ de 2500 profissionais da comunicação social a acompanhar a visita! Além disso, temos tido também ecos muito positivos quer de bispos espanhóis, quer italianos. Todos aproveitaram esta visita: aqueles que experimentaram a visita e a viveram de perto, aqueles que a acompanharam a partir de casa e até mesmo aqueles mais longe, no estrangeiro! Foi uma visita muito marcante para o pontificado e marcante para cada um dos cristãos.

 

Acompanhou de perto todos os momentos da visita. Qual gostaria de destacar e porquê?

É difícil escolher só um momento… mas há um momento no CCB, quando o Santo Padre desce da sua cátedra e vai ao encontro do Manoel de Oliveira. É um gesto simbólico de tudo o que o Papa tinha dito. No fundo, Bento XVI seguiu uma atitude de Jesus que foi fazer aquilo que diz: ir ao encontro das pessoas, dialogar com elas, não ficar à espera que venham ter com ele, mas ser ele a ir ter com elas! Esse gesto exprimiu uma atitude pastoral, uma atitude que a Igreja é chamada a ter!

Outra atitude, esta de maior intensidade, é em Fátima, quando o Santo Padre fica quase extasiado a olhar para a imagem de Nossa Senhora depois de lhe ter oferecido a Rosa de Ouro. Aí há um novo momento ‘não-discursivo’ mas de um gesto que manifesta a sua intensidade de peregrino, de alguém que vem a um centro espiritual da Europa e do mundo e assume uma atitude orante, de quem confia ao olhar e à protecção materna de Maria as aflições do mundo e da Igreja. Penso também que muito do seu alívio e da sua atitude de consolação vem de uma intensidade espiritual que Bento XVI viveu em Fátima.

 

Ao nível pessoal, em que momento se sentiu mais surpreendido e qual guarda de forma mais especial?

Houve um momento de especial beleza que foi aquele silêncio no Terreiro do Paço. Aí começaram a ver-se as consequências de uma mensagem próxima, de uma mensagem clara que o Santo Padre foi lançando desde o Aeroporto de Lisboa até ao Porto. Logo desde o início da visita se percebeu o essencial da visita: as pessoas irem ao encontro de si mesmas para aí encontrarem a profundidade de Deus! É isso que o Santo Padre mais pede: o encontro com Deus, que centremos a nossa vida em Deus! Para quem organiza uma coisa e prevê muito, nunca preveria algo assim: um silêncio tão denso! Foi fantástico!

Outro momento mais pessoal, mas também surpreendente, foi quando o Santo Padre, na Missa de dia 13, em Fátima, ao caminhar para o altar, de repente olha para mim, desvia-se e vem-me cumprimentar. Pessoalmente foi um momento muito especial: o Papa a olhar-me com aqueles ‘olhitos’ – ele que tem uns ‘olhinhos’ muito engraçados de pessoa tímida mas muito vivos. Essa foi a prova de uma pessoa que está atenta, que tenta saber quem é quem; portanto, não é alguém que olha para a multidão como um todo… é alguém que tem gestos de amabilidade. Isto diz-nos que temos um Papa que é capaz de conhecer os seus colaboradores e de os estimar!

 

Qual foi a reacção dos responsáveis da Santa Sé – sobretudo daqueles com quem trabalhou nos últimos meses na preparação da visita – perante as constantes manifestações de fé e de carinho do povo português para com o Papa?

Eles ficaram muito surpreendidos desde a primeira hora! Chegou a colocar-se a hipótese de o percurso entre o Aeroporto de Lisboa e a Nunciatura ser feito em carro fechado, em vez de ‘Papamóvel’, porque àquela hora, onze da manhã, sem tolerância de ponto, não se sabia se estaria gente nas rua… mas, ao ver aqueles grupos, aquele calor das pessoas, começou-se logo a verificar que havia alguma mobilização. Até mesmo os colaboradores mais próximos do Papa estavam surpreendidos.

Ainda a semana passada recebi uma carta do porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, a manifestar a capacidade que houve de corresponder, com qualidade, a tudo o que havia sido pedido e considerando esta visita como uma das melhores visitas do pontificado de Bento XVI. No fundo, o Vaticano considerou que correspondemos ao que era pedido e até os surpreendemos! Sobretudo graças ao profissionalismo e à competência do pessoal do Estado, às forças de segurança e ao protocolo, que colaboraram de uma forma extremamente competente e profissional.

Até do ponto de vista da participação dos fiéis notou-se perfeitamente que desde a chegada o Santo Padre começou a distender-se… e esse carácter distendido deve-se ao facto de também o Papa ter percebido que naquele momento se estava a quebrar uma barreira que se estava a adensar muito sobre a figura do Santo Padre e mesmo sobre toda a Igreja. Esta foi uma hora de desanuviamento…!

 

Mais de 300 mil pessoas em Lisboa, 500 mil em Fátima e 200 mil no Porto! De facto, foi quase um milhão de pessoas que se sentiram tocadas por Bento XVI e quiseram expressar publicamente a fé…

Nós estávamos sempre com receio da participação das pessoas, não só pelo ambiente que existia ‘em cima da mesa’, mas também porque a afluência das pessoas aos actos de culto e às igrejas não tem sido muito airosa nos últimos tempos! Por tudo isto, não se sabia como seria… não estávamos em 1980 ou aquando de anteriores visitas. Era imprevisível saber como as pessoas iriam responder. Mas sinto que havia vontade de alguma coisa que elevasse a alma das pessoas e do povo português! Era a questão da falta de esperança! Por isso, penso que os bispos portugueses acertaram bem quando escolheram como tema ‘Caminhamos na esperança’. Porque esse ‘na esperança’ era alguma coisa que se ansiava muito. E o Papa respondeu e foi falando ao longo das suas intervenções. Curiosamente, não houve nenhuma frase do Papa em que a comunicação social pegasse. Todas as suas mensagens foram de concórdia, de ânimo… nada que criasse polémica e por isso, tudo elevou a alma das pessoas. Isto só quer dizer que a Igreja acerta bem quando ajuda as pessoas a elevar-se!

 

A visita mostrou ao mundo como Bento XVI também é um Papa que sorri. Ao ter convivido de perto com o Santo Padre, o que considera que despoletou o sorriso no rosto do Papa?

Ele é assim! Nós é que não o conhecíamos e fomos muito conduzidos por uma comunicação social que, comparando com o Papa João Paulo II, sublinhou e rebateu que era um Papa que não tinha capacidade de envolvência com as multidões, que era frio, que era racional… Todas essas ‘etiquetas’ que se foram pondo desde o início do seu pontificado, de há cinco anos para cá, vão-se quebrando com as pessoas que já o conheciam e iam dizendo que ele não era nada disso.

Todas as reuniões que fizemos, durante um mês, com diversos agentes da comunicação social – primeiro com 180 jornalistas num dia inteiro em Fátima, depois com os directores de informação, com os bloggers e com os colunistas – foram sucessivas reuniões do grupo de comunicação para preparar e dizer: ‘Deixem-se surpreender pelo Papa… o Papa não é esse preconceito que já têm’. Nessas reuniões passávamos um filme sobre o Papa para que as pessoas vissem como era de facto Bento XVI. Com estas acções, houve um desfazer de um preconceito e a abertura para ir ao encontro de quem é verdadeiramente este Papa.

É claro que depois o afecto com afecto se paga… e o povo português também o provocou com o seu calor e a sua boa disposição, para que o Santo Padre estivesse mais à vontade no seu afecto. A amabilidade de Bento XVI não é espectacular, é muito tímida, mas ele é assim mesmo: é fiel a si próprio e consegue ser mais amável no encontro de pessoa a pessoa do que podíamos imaginar.

Não há nada melhor do que nos encontrarmos com as pessoas tal e qual elas são para fazer cair ideias pré-concebidas.

 

“Os jovens de hoje são ovelhas sem pastor!”

 

Apesar de não ter havido um encontro específico com a juventude, 11 mil jovens disseram ‘Eu Acredito’ e muitos outros participaram nas celebrações e nas vigílias de oração… Surpreendeu-o esta manifestação do rosto jovem da Igreja?

Não, de todo! Eu confio muito nesta nova geração! Tenho-o dito várias vezes: acho que está a aparecer uma nova geração de cristãos que só não tem quem os mobilize! Uma das grandes carências da Igreja neste momento é não ter gente que mobilize os jovens… porque eles andam com fome de Deus e com fome do sentido profundo para a vida! Quando alguém lhes aponta esse caminho para a vida e aponta com a fé e com afecto eles aderem… e a prova está aqui! Falta é mobilizar! É preciso gastarmos mais energia, mais tempo e talvez mais meios para mobilizar uma juventude que está um pouco à espera de alguém que a leve, de alguém que a conduza. Os jovens de hoje são ovelhas sem pastor! Então, é preciso que haja padres, jovens mais empenhados… porque vemos que quando isso existe há, de facto, adesão por parte dos jovens à Igreja!

 

 

Além dos jovens, também as paroquias se mobilizaram para a visita.

Sim, aliás esse é outro ponto interessante: as paróquias que prepararam a visita, do ponto de vista espiritual, com orações e momentos de silêncio, tiveram uma adesão e uma participação muito mais forte do que outras que apenas deixaram o apelo ‘Olhem que o Santo Padre vem aí, vamos lá todos’. Nota-se também aqui que há uma ‘eficácia’ pastoral quando há uma intensidade espiritual. Ou seja, quando nasce de dentro e vai a partir de dentro! E assim os problemas, os sacrifícios e as dificuldades são ultrapassadas porque há uma paixão que vem de dentro! Quando isso é preparado de modo sério, como foi agora pelos movimentos e pelas paróquias, as consequências são outras.

 

Visita envolveu 5 mil voluntários

 

Porque foi escolhido como coordenador-geral da visita de Bento XVI a Portugal?

Fui escolhido porque necessariamente tinha de ser alguém de Lisboa – por estar perto das entidades oficiais – e depois de ter sido nomeado, pelo senhor Patriarca, coordenador diocesano da visita, o Vaticano pediu que houvesse apenas um interlocutor para toda a visita, um coordenador-geral. Isto aliado ao facto de ter algum gosto e experiência em coordenação de eventos. O falar italiano também deu ‘jeito’…

 

Como decorreu toda a preparação da visita?

Foram reuniões a vários níveis, com as entidades oficiais, com as várias dioceses, com a comunicação social. Era necessário articular todas as dimensões. E tudo isto só foi possível com uma adesão surpreendente, com milhares de pessoas que colaboraram voluntariamente quer no serviço de secretariado quer nos dias em si! Houve uma envolvência de cerca de 5 mil voluntários em todo o país!


7 desafios à Igreja

 

Os bispos portugueses publicaram a Carta Pastoral ‘Para um rosto missionário da Igreja em Portugal' com base nos discursos de Bento XVI no nosso país. O que a Igreja portuguesa poderá fazer de modo a que a visita do Papa não se torne ‘apenas’ num acontecimento passageiro?

Julgo que há muito a fazer, porque o Santo Padre, ao visitar o centro espiritual de Portugal, como ele o chamou, deixou algo que eu condensaria em sete ideias – já que sete é o número da perfeição – daquilo que foram as suas mensagens, que nós devemos reler e aprofundar.

 

1º desafio: discernimento criativo do contexto da crise económica ética e espiritual

Não basta que façamos uma análise à crise actual, temos de fazer um discernimento cristão, de crentes! Este é o primeiro desafio que a Igreja é chamada a enfrentar.

 

2º desafio: saber estar no mundo

É preciso ter uma atitude de diálogo, de ir ao encontro, de não se ter medo de debater todos os temas, sejam eles quais forem, e com qualquer pessoa! É preciso encontrar ‘as conversas do adro’… uma espécie de átrio dos gentios mas nos adros das igrejas, que é cá fora, com a igreja ao fundo. E não termos medo de conversar com pessoas que não estão na Igreja, mas que são capazes de ir ao adro conversar connosco. É preciso não ter medo da cultura contemporânea, porque se estamos conscientes de que temos uma Boa Nova para anunciar, e que é mesmo Boa Nova, não podemos deixar de a anunciar! Como disse Bento XVI no Porto, ‘não impomos, mas propomos’… mas nós não podemos deixar de fazer a proposta! E com isto lembro-me sempre da história de um universitário do Porto, do terceiro ano de Engenharia, que convidou um colega para ir a uma reunião de um grupo. Foi à primeira e no fim do segundo encontro o convidado diz-lhe: ‘Tu és um invejoso!’. E o rapaz não percebia o porquê… ‘Só me convidaste no terceiro ano, eu podia ter aproveitado desde o primeiro’. Nós às vezes não temos coragem de propor, de convidar as pessoas: vinde! Porque as pessoas andam à procura de um rumo.

 

3º desafio: tornar Deus presente no mundo

Este é o testemunho prioritário! É uma insistência de todo o pontificado de Bento XVI e também no nosso país o Papa deixou-nos isso mesmo. Dizia o Papa: ‘Há um vasto esforço capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima’. Todas estas palavras têm um enorme peso… este testemunho vasto, capilar, a todos e sempre é o grande desafio para a Igreja!

 

4º desafio: ser testemunha de Cristo com vigor e alegria

A luz para o futuro está aqui! Com algo que seja forte, de quem vive e está apaixonado! Há um sublinhar de renovar a Terra sempre e só a partir de Deus.

 

5º desafio: a missão profética de Fátima

O Papa disse que a missão profética de Fátima ainda não acabou. Não acabou com a revelação da terceira parte do segredo, mas que Deus anda à procura de justos para renovar a sociedade.

 

6º desafio: a identidade e a independência da Pastoral Social

Num momento em que os centros sociais paroquiais e as instituições de solidariedade social se debatem com dificuldades devido ao aumento da procura pela sua ajuda, é fundamental que as instituições sejam muito fiéis à sua identidade. Que continuem a dar respostas concretas e de forma cristã, mas com independência do Estado… pedindo a sua colaboração – porque o Estado tem obrigações sociais – mas sempre com autonomia, para que as instituições da Igreja o possam fazer com a qualidade cristã: a marca ao estilo do bom samaritano!

 

7º desafio: os caminhos pastorais para um ardor de santidade

Esta é outra marca que tem a ver com a perspectiva missionária que a Conferência Episcopal Portuguesa estava a preparar. E o Papa não deixou de concretizar algumas indicações pastorais para enquadrar esta renovação. Uma renovação que se quer nacional e de onde saiam pistas para todas as dioceses. Oferecer a todos uma iniciação cristã exigente e atractiva. Algo que seja capaz de mobilizar as pessoas, mas que não perca a exigência pelo marketing. Porque às vezes para atrair diminui-se a qualidade. Esse não é o espírito de Jesus e não podemos ser infiéis a Jesus. É necessário, com isto, oferecer um novo vigor missionário aos cristãos para que se tornem num laicado maduro e identificado com a Igreja! Nota-se que muitos cristãos não têm entusiasmo na sua fé! Vivem um cristianismo amorfo! E há também uma mensagem para os padres, já que o Santo Padre se encontrou com eles e lhes pediu para que deixem as actividades que não concordem com o que é próprio do ministro de Jesus Cristo. No fundo, como disse o Santo Padre, é preciso manter ‘viva a dimensão profética sem mordaças’.

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