Entrevistas |
FITI, Federação das Instituições de Terceira Idade
"Com a relação inter-geracional ganhamos uma sociedade de rosto mais humano"
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O presidente da FITI, Federação das Instituições de Terceira Idade, aposta no relacionamento entre gerações para contrariar o problema fundamental da população idosa, a solidão. Em entrevista à VOZ DA VERDADE por ocasião do Dia Mundial do Idoso (1 de Outubro), José Carlos Batalha lamenta ainda que o Estado se vá “imiscuindo directamente e gradualmente na vida interna das instituições”, pondo em causa princípios fundamentais como o da autonomia.


Sendo a FITI, Federação das Instituições da Terceira Idade, um organismo de carácter canónico, as instituições que a integram são todas ligadas à Igreja?

Inicialmente eram, mas depois entendeu-se que era importante acolher neste seio outras instituições que trabalhem com idosos. De alguma maneira é também uma forma de passar alguns valores. Creio que nesta família de instituições é possível fazer passar a outras, que não têm qualquer relação com a Igreja, algumas mensagens importantes para que desempenhem bem a sua missão de solidariedade.

 

Qual é concretamente o papel da federação?

A federação actua como representante das instituições junto dos poderes instituídos, dos ministérios com quem as instituições se articulam directamente, como por exemplo o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, da Solidariedade Social, da Saúde, e depois com todas as outras entidades públicas e oficiais, com quem as instituições têm uma relação de trabalho no seu desempenho diário.

 

Tem portanto uma intervenção activa junto dessas entidades?

Pretendemos que seja sempre activa. A relação que neste momento as instituições têm com o Estado não é de todo uma relação pacífica porque nós achamos que o Estado, por via de algumas determinações, de alguns protocolos, se vai imiscuindo directamente e gradualmente na vida interna das instituições pondo, assim, em causa, princípios fundamentais como o da autonomia. O Estado tem o dever de cooperar com as instituições porque faz até com elas um pacto de cooperação. Mas segundo esse pacto, o Estado deve apoiar e não se deve substituir às instituições. Deve apoiá-las e permitir que a sociedade civil organizada desempenhe aquilo que cabe ao Estado, do ponto de vista constitucional, mas a que as instituições vão dando uma resposta de maior qualidade, profundamente marcada pela relação humana. Parece-me ser importante pôr em relevo esta situação: as IPSS estão ao serviço da comunidade, das comunidades onde nasceram, das comunidades que servem e estão ao serviço da pessoa. Temos que tornar isto visível. Nós queremos ter boa relação com o Estado, e na justa medida que pensamos que temos a nossa legitimidade para actuar e agir, precisamos que o Estado seja um parceiro de bem. Que por vezes não é!

 

Mas o que é que falta?

Falta, desde logo, o diálogo com as instituições. Que o Estado perceba que as IPSS, e neste caso concreto as instituições que trabalham com idosos, prestam um serviço com uma qualidade extraordinária às pessoas, às famílias, e seria importante que o Estado as acarinhasse, e não tivesse as atitudes de prepotência que às vezes evidencia. E por outro lado tivesse, ainda, uma atitude pedagógica quando é necessário. Ao Estado compete fiscalizar; as instituições trabalham com dinheiros públicos e, nessa medida têm de os aplicar correctamente. Nós temos defendido isto mesmo. Mas o Estado, pelo facto de fiscalizar, não deve intrometer-se na vida e na autonomia das instituições.

 

Se bem compreendi, estas instituições não deveriam substituir o que é o papel do Estado mas, acha que o Estado reconhece que a Igreja tem tido um papel bastante activo nesta dimensão? Isto, tendo em conta que a maior parte destas instituições são ligadas à Igreja…

Eu creio que o Estado nem sempre reconhece isso. Desde há algum tempo vimos a assistir a uma certa nacionalização da solidariedade, e uma certa ‘autarquização’ da acção social. Isto é uma forma de intromissão do Estado na vida concreta das instituições. É uma forma, também, de o Estado não reconhecer devidamente o papel delas. Ainda que no campo dos discursos não seja esse o panorama. Nos discursos é feito o apelo à participação da sociedade civil, mas para pôr isto em prática há todo um conjunto de problemas, de burocracias que dificultam a vida das instituições e de quem quer fazer o bem, quem ser solidário.

 

Actualmente, quais são os problemas mais prementes com os idosos?

Eu diria que neste momento o problema base da população idosa, a que eu chamar-lhe-ia o vírus ou a doença deste século, é a solidão. Ela resulta de um conjunto de situações e problemas da sociedade em que vivemos. Nós vivemos numa sociedade virada para os mercados, para as estatísticas; uma sociedade de cidadania invisível, que impõe limites à relação de proximidade, que impõe limites às redes sociais, aos relacionamentos; vivemos em sociedades urbanas onde as pessoas pertencem a vários lugares: ao lugar onde compram, onde se divertem, e portanto isto vai desfazendo as relações e vai criando situações de solidão para os idosos.

Eu entendo que o envelhecimento não é um problema. Nós temos de perceber que a sociedade hoje vive mais tempo, temos mais tempo de vida, mas as mudanças demográficas a que temos assistido e o consequente envelhecimento da sociedade são uma mudança fundamental a que temos de nos adaptar. Aqui entra, então, o problema da solidão: a nossa sociedade e as instituições não estão devidamente configuradas para lidar com este problema. Para o combate nós apostamos na via da inter-geracionalidade. Creio que é por aqui que nós temos de caminhar. É na relação inter-geracional que ganhamos a aposta de uma sociedade de rosto mais humano. Isto significa que os avós podem transmitir a confiança necessária que falta na sociedade. Podem transmitir os seus saberes e a memória, que é algo de fundamental. Quando se transmite memória estamos a fazer e a manter a história, e estamos a manter de pé o valores que hoje a sociedade não tem e que os nossos idosos têm. Por isso é importante que isto passe para as gerações.

Recentemente foi elaborado um estudo que procura ver como é que as crianças vêem os idosos, revelando que as crianças os vêem de forma muito negra. Portanto nós temos de mudar esta visão, porque é esta a sociedade do futuro. E será que eles vão ver no futuro os idosos desta maneira? Precisamos de dar um ‘encontrão’ nesta visão da sociedade, uma sociedade que vive sem valores, de apatia, indiferença, individualismo e, portanto, temos que tentar dar a volta. É esta a missão da FITI.

Sobretudo as instituições da Igreja têm aqui um papel importante porque têm que manter viva a sua raiz identitária e têm que a demonstrar. Temos que demonstrar qual é a nossa matriz, o nosso emblema e quais são os nossos valores. E as instituições podem ser pólos dinamizadores desta nova maneira de olhar a sociedade.

 

Como é que vê a questão do abandono dos idosos?

Com muita preocupação, porque hoje é a forma mais fácil. Esta é uma sociedade que descarta e olha para os idosos como um peso. Então se nos pesa nada melhor do que os deixar nos corredores dos hospitais... é preocupante! Temos que estar alerta para isto porque de facto não sei se a sociedade vai aguentar esta situação durante muito tempo. Temos de ser reactivos nas relações. Precisamos, hoje, de reflectir e debater estas questões. Precisamos de envolver as autarquias porque estas têm um papel importante. É importante fazer a ponte inter-geracional a que chamamos a «ponte dos afectos». Isto para contrariar esta questão da solidão. É preciso provocar, sensibilizar a sociedade para esta questão.

 

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O que é a FITI?

A FITI, Federação das Instituições de Terceira Idade, é um agrupamento de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) que tem, especificamente, por escopo, representar e assumir a defesa dos interesses das suas instituições filiadas. A Fiti congrega, actualmente, mais de trezentas instituições e fundações de solidariedade social disseminadas por todo o país. São instituições que têm como elo comum o trabalho com idosos.


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Actualmente existe a ideia de que o Lar é um depósito onde se deixa um idoso para o seu fim de vida. O Lar de idosos é isto?

Não deveria ser! A resposta “Lar” foi uma resposta que se encontrou porque a sociedade configurou-se de tal maneira, que esqueceu-se que é importante viver em família alargada e ter os seus idosos na família. Isso é importante, e nós queremos tornar esta mensagem o mais alargada possível, no sentido de que a família assuma os seus idosos e os tenha. Obviamente sabemos que as habitações não são propícias. Há todo um conjunto de limitações físicas, laborais, e por isso importa pensar em políticas de conjunto. Importa pensar uma política de família que seja facilitadora deste viver em comunhão e em família. Se isto acontecesse, seguramente os lares considerados como a situação possível, ou a última situação, não teriam este ar e esta imagem tão negativa. Muitos deles, infelizmente, são hoje depósitos onde a família já não vai, e se já nem os filhos vão, quanto mais os netos! Vivemos essa realidade amarga que vai acontecendo cada vez mais. Temos de reagir a isto!

 

Mas como é que se pode contrariar esta ideia?

Os lares têm de ter uma nova roupagem, têm de inspirar confiança ao idoso, têm de ser lugares de relação humana viva e não depósito. Têm que ter qualidade do ponto de vista técnico. Muitas das nossas instituições, senão a grande maioria, têm técnicos de alta qualidade, e nas nossas instituições há uma relação humana muito forte. Mas a questão que se coloca é que os lares já são equipamentos antigos, muitos deles sombrios, com cores que não são muito apelativas; e depois, os idosos sentem isso porque existe este paradigma de que «vou para o lar para morrer».

Hoje a resposta do serviço de apoio domiciliário é a resposta mais adequada porque o idoso deve estar na sua habitação. É ali que ele se sente bem, junto dos seus familiares. O Lar deve surgir só quando há situações complicadas, de um pós-operatório, de cuidados específicos que em casa as pessoas não têm. Essa resposta tem de ser sempre integrada numa política de família que privilegie esta relação.

Pe. Nuno Rosário Fernandes
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