Entrevistas |
Padre Ricardo Neves: ?Cristãos procuram a vida de oração?
<<
1/
>>
Imagem

Cada vez mais é maior a sede de oração. O mundo gira em ‘roda-viva’ e, apesar dos ritmos acelerados, ainda há pausas para rezar. Em entrevista à VOZ DA VERDADE, o director da Escola de Oração São José, padre Ricardo Neves, ajuda-nos a saber o que é, e como se faz hoje oração.

O que é a oração?

A oração, no sentido genérico, é toda a relação com Deus. No sentido cristão, específico, é a experiência de entrar na mesma relação que Jesus teve com o seu Pai, no Espírito Santo. É um caminho de penetrar essa intimidade que tem umas tonalidades muito fortes, de escuta: a escuta de Jesus para perceber o que é a escuta da vida que vem do Pai; a procura da vontade do Pai que realiza a missão que Ele nos confia; o desejo da comunhão e o alimento da comunhão com o Pai, com Jesus e, com Jesus no Espírito. É importante distinguir sempre, sobretudo na actualidade, a diferença entre a oração no sentido genérico, que é um movimento religioso quase conatural ao homem, e a oração cristã que é esta entrada no mistério de Cristo.

 

E como é que se faz essa relação ou essa entrada?

A Igreja consagrou algumas formas que são as fundamentais. A primeira é a oração da Igreja em si própria, com a Eucaristia à cabeça, onde a oração passa por níveis sucessivos de comunhão. Como sabemos, a missa vai de um início que é uma espécie de apresentação mútua; depois há a escuta da Palavra, o louvor e o silêncio de quem se comunga mutuamente. Portanto, a Liturgia da Igreja, os Sacramentos e a Eucaristia são o máximo da escola da oração. Depois, associado a isto, a pedagogia da Palavra de Deus, a escuta crente da Palavra de Deus, é o grande itinerário. E esse é um mundo inesgotável. A Palavra de Deus, primeiro que tudo, na sua simplicidade: abordá-la, confrontar-se com ela. E depois a Palavra de Deus como ela vai sendo rezada, meditada, discernida quer pelo magistério da Igreja quer pelos grandes orantes da história da Igreja. E graças a Deus temos muitos!

Este ano o programa pastoral acentua muito esta tonalidade da escuta da Palavra e da pedagogia da Palavra, que é um trabalho que nunca se esgota quer na vida dos especialistas, que são quem nos orienta nessas coisas, quer na vida do crente. Quantos de nós não experimentámos já isso mesmo! Revisitámos o mesmo texto tantas vezes e tantas vezes o Espírito de Deus trabalhou em nós de maneira diferente, com aquela mesma gramática.

 

Isso significa que há metodologias diversas de fazer oração?

A Palavra e a Liturgia da Igreja, mais do que uma metodologia, são os grandes canais da oração. São os grandes alimentos da oração. Depois, para a oração particular e para a entrada na Palavra de Deus, há metodologias que têm sido trabalhadas ao longo da vida da Igreja. Desde o método Inaciano, de rezar, de discernir e até de olhar para a Palavra de Deus, até à Lectio Divina, no sentido mais estrito que as comunidades monacais trouxeram. São formas mais espontâneas de oração, mas há outras que estimulam formas mais reflectidas de oração. Há, por isso, muitos caminhos…

 

Quais?

Primeiro que tudo cada pessoa deve colocar-se com inteira verdade. Sem isso nenhum método funciona, a relação não funciona. Em segundo lugar é preciso uma enorme persistência que na linguagem espiritual se chama fidelidade. Porque, se a oração é o entrar no mistério de Cristo, ela precisa desta pedagogia do Espírito que nos vai ‘limpando’, vai fazendo ir mais fundo, e para isso é preciso fidelidade. Depois, em terceiro lugar, é muito importante socorrer-se de bons conteúdos. Porque às vezes, mesmo sem má intenção, rezamos textos ou até elementos visuais que são muito interessantes mas que não ajudam a centrar na oração cristã. Graças a Deus na vida da Igreja houve sempre a preocupação de se rezar a Palavra de Deus.

 

Podemos dizer que a oração traz benefícios?

A oração traz este benefício extraordinário que é o de alimentar a comunhão viva com Cristo e, por Ele, com tudo o resto. Mas toda a boa oração traz um outro benefício que é a conversão. Quem entra no mistério de Cristo adquire as atitudes, os sentimentos, as formas de ser e de decidir de Cristo. E essa é a forma de aferir a oração ou seja, se ela me está a levar a uma sintonia maior com a totalidade da pessoa de Cristo.

Li há algum tempo um livro de um autor que falava da oração como “problema político”, isto é a oração para a transformação da vida pessoal e da vida dos outros. Portanto, se eu não rezo e não olho para a vida concreta, a minha oração é pobre. Mas quando ela entra na pessoa de Cristo, ela faz-me partir para a vida concreta.

 

Considera que, na sociedade de hoje, o ritmo de vida que as pessoas levam facilita de alguma forma a oração?

Da experiência que faço, de acompanhamento em direcção espiritual e até mesmo na Escola de Oração São José, vejo que este ritmo traz duas dificuldades muito grandes. A primeira é o facto de as pessoas terem tempo objectivo. Muita gente mais nova ou mais velhos têm desejo sincero de rezar, saem de casa muito cedo, chegam ao fim do dia, tarde, têm empregos muito intensos e, depois, com a sua vida familiar e o mínimo de atenção que lhe queiram dar é difícil arranjar um tempo objectivo. Neste aspecto testemunho muita gente que mantém uma fidelidade à oração, à missa diária, sem faltar a nada disto, mas com muito sacrifício. Uma segunda dificuldade, e essa é a maior, é que o registo habitual da vida das pessoas é exterior e prático. As pessoas fazem muitas coisas de tipo prático, de efeito imediato, onde não precisam de olhar com profundidade para o interno. Por isso, passar para o mundo da oração, que implica parar, olhar com outros olhos, mais simples e profundos, e que por vezes não traz nada de imediatamente resolvido ou até de fruto psicológico, ou outro imediatamente saboroso para as pessoas, é difícil. Também aí tem-me impressionado o testemunho dos leigos. São gente que por saber desta dificuldade persiste, com etapas muito grandes de aridez, mas percebendo que a pedagogia do mergulhar na oração também inclui esse tempo que vai purificando e dando um olhar mais puro para o mistério de Cristo e da vida pessoa.

 

Já há algum tempo que a Diocese de Lisboa oferece como proposta a Escola de Oração São José. Que balanço pode fazer desta experiência?

O balanço é muito positivo porque foi uma surpresa muito grande a adesão verificada. Principalmente o perceber que as pessoas procuram a vida de oração, procuram quer conteúdos quer formas para progredir na vida de oração. E depois, quando isso lhes é dado, elas fazem a sua parte do trabalho.

 

Mas no fundo o que é que se pretende com esta Escola?

Pretende-se, por um lado, dar conteúdos de oração. Que a pessoa tenha um tempo em que pode ir buscar elementos concretos para a sua oração individual. Depois, um outro objectivo, é o dar conhecimento e ferramentas quanto aos principais métodos de oração.

 

Ultimamente tem-se criado diversos subsídios para ajudar à oração pessoal. A própria tecnologia tem permitido novas ideias, como é o caso do ‘Passo a Rezar’. Considera que as pessoas estão abertas a estas propostas?

Sobre o exemplo do ‘Passo a Rezar’ conheço várias pessoas que passaram a usar esse sistema e, no caminho para o trabalho, ouvem e aproveitam o tempo. Nós temos também a experiência no site da Escola de Oração, onde estão disponíveis as conferências ou apenas os tópicos usados, a que as pessoas recorrem muito. As pessoas com estas dificuldades objectivas de tempo têm procurado formas mais ágeis de poder aceder a estes formatos, e nós precisamos de ajudar e facilitar isso.

 

Isso significa então que há sede de oração?

Isso claramente que há. Há sede de três coisas: de interioridade, intimidade, no sentido mais genuíno da comunhão com o Deus vivo, e depois há sede de coerência que vai sendo alimentada e estruturada no confronto da oração. E nós precisamos de responder a isso.

 

------------------------------------

 

Escola de Oração São José

A Escola de Oração São José está integrada no Instituto Diocesano da Formação Cristã e é dirigida para todos os leigos da Diocese de Lisboa. Está organizada por módulos temáticos independentes uns dos outros.

 

Oração Dia a Dia – Os Grandes Orantes da Bíblia (1 sessão por mês)

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa – P. Jorge Anselmo e P. Paulo Malícia

17Out/7Nov/5Dez/9Jan/6Fev/6Mar/3Abr/1Maio/5Jun, das 21h às 22h30

Retiro em etapas – Advento (3 sessões) “Eu sou a luz do mundo”(Jo9,5)

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa – P. Luís Alberto (29Nov, 6 e 13 Dez, das 21h30 às 23h)

Igreja de Cascais – P. Carlos Gonçalves (29 Nov, 6 e 13 Dez, das 21h30h às 23h)

Igreja de Oeiras Cón. Nuno Brás (30 Nov, 7 e 14 Dez, das 21h30 às 23h)

 

Cantar é Rezar a dobrar a música para a oração (3 sessões)

Seminário de São José – P. Pedro Lourenço

4, 18 e 29 Nov, das 21h30 às 23h

 

Informações: 910957253 ou escolaoracao@gmail.com

 

------------------------------------

 

Escola de Oração

A Escola de Oração, iniciativa da Associação Cor Jesu – Associação do Sagrado Coração de Jesus, propõe para este ano lectivo 2010-2011 um conjunto de conferências, subordinadas ao tema “A identidade cristã: porque somos cristãos? Como somos cristãos?”. Os encontros de formação realizam-se no grande auditório da antiga Escola de Enfermagem das Irmãs Vicentinas (Av. Marechal Craveiro Lopes 10, 1749-011 Lisboa).

 

18.10.2010 – ‘A genealogia do cristão: numa Igreja dos gentios, designado a partir do nome de Cristo, o Messias, o Ungido’, Pe. Tolentino Mendonça

15.11.2010 – ‘Quando “cair do cavalo” abre os olhos da felicidade. A questão da conversão’, Pe. Robert Faricy SJ

29.11.2010 – ‘Cristãos, membros de que espécie de Igreja? Que comunidade propõe Jesus? Ou com que comunidade sonhava Jesus?’, Ma. Armanda de Saint-Maurice

13.12.2010 – ‘A decisão de “seguir Jesus”. Discipulado e seguimento’, Pe. José Manuel Pereira de Almeida

Nuno Rosário Fernandes
A OPINIÃO DE
Isilda Pegado
1. O Parlamento prepara-se para legalizar a morte a pedido – Eutanásia. Foram apresentados 4...
ver [+]

P. Duarte da Cunha
O Papa João Paulo II, em 1995, ou seja, há 25 anos, alertou para o mal que a cultura a que chamou de morte estava a difundir.
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES