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Solenidade de Todos os Santos e Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos: ?Ser santo é apenas ser feliz ao jeito de Deus!?
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Nas vésperas da Solenidade de Todos os Santos e da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, o padre Paulo Araújo, pároco de Arroios, convida os cristãos a abrirem-se à dimensão da vida eterna e a não terem medo de ser santos. Em entrevista à VOZ DA VERDADE, este sacerdote da Comunidade Emanuel sublinha que a morte não é o fim, mas uma passagem.

Há a tendência de muitos cristãos verem a Solenidade de Todos os Santos como a festa daqueles que foram elevados ao altar e a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos como o dia em que recordam os familiares que já partiram. No entanto, não é bem assim. Quer explicar?

De facto, nós vivemos ainda muito nessa perspectiva do sentido da santidade como uma coisa muita estranha, como algo que é estranho ao comum das pessoas e próprio apenas de algumas. Quando de facto a santidade é o apelo de todos os cristãos, é esta participação da vida em Deus, desta comunhão da vida em Deus. Ser santo é apenas ser feliz ao jeito de Deus! E viver esta plenitude da felicidade segundo o plano de Deus, segundo o desígnio de Deus.

Aquilo que celebramos no Dia de Todos os Santos são todos estes que já vivem desta plena felicidade, desta comunhão plena em Deus. E aí os santos não são apenas aqueles que temos nos altares – desde os nossos mais queridos Santo Expedito, ou Santo António ou mesmo os nossos santos milagreiros – mas é de facto esta imensidão de homens e mulheres, que tendo vivido aqui na Terra, agora vivem nesta plenitude de vida em Deus e que participam desta comunhão em plenitude. Na plenitude do amor de Deus e na comunhão com Deus.

Quando celebramos os Fiéis Defuntos, nós rezamos também por todos aqueles que tendo partido para Deus, precisam neste momento mais da nossa oração, daquilo que nós muitas vezes chamamos ‘o sufrágio’, o ‘pedir por’, para que eles possam participar desta plenitude da glória. E não se trata tanto de ficar apenas a rezar pelos nossos familiares, mas perceber que esta dimensão da nossa vida como passagem pela morte para esta dimensão de comunhão e de eternidade de vida em Deus. É a vida em Deus, nessa plenitude de vida em Deus e nesta comunhão plena que nós chamamos a santidade.

 

Sendo uma mesma festa celebrada em dois tempos, como é que a Igreja pode fazer face à ignorância dos cristãos sobre esta Solenidade?

Eu acho que uma das primeiras coisas a contrariar é a própria visão que nós temos da morte. Nós vemos a morte muito como o fim. Acabou-se. E a dimensão da esperança da vida eterna está muito esbatida, muito difusa da mente dos cristãos. Mesmo quando se pergunta se acredita na ressurreição, muitas vezes os próprios cristãos acreditam mais na reencarnação do que na própria ressurreição. Porque lhes faz muita confusão e porque também muitas vezes nós, padres, não explicamos o conveniente.

Depois, há todo o sentido da vida como criados para uma eternidade, para esta eternidade de comunhão e a experiência da própria morte. Agora, porque as pessoas vêem a morte como o termo e como o fixar a pessoa à terra, o estar ali enterrada, então há muito o culto da morte mas pouco o culto da vida eterna, pouco o culto da eternidade, pouco o culto da comunhão com Deus, pouco a consciência de que de facto a pessoa não morre. Nos funerais gosto muito de provocar as pessoas e dizer: 'Este irmão que está aqui não está morto. Ele não morreu. Ele entrou na Vida’. Temos de conseguir criar no coração das pessoas esta perspectiva de que a morte não é um termo, mas apenas uma passagem.

 

De facto, esta Solenidade tem como base teológica o dogma da comunhão dos santos. São por isso celebrações do mistério da vida para além da morte…

Eu gosto pouco da expressão "da vida para além da morte". A morte é uma passagem. É uma ruptura. Será que nós dizemos "a vida para além da infância"? Ou "a vida para além da adolescência"? "A vida para além do estado adulto"? "A vida para além do casamento"? "A vida para além da velhice"? Não dizemos isso... é um bocado absurdo. São apenas etapas da vida, de uma mesma vida. A morte, diz a Escritura, entrou no mundo pelo pecado. É uma aberração no desígnio de Deus, por isso é que Jesus venceu a morte com a sua morte, para nos dar esta plenitude de vida. Agora, é esta certeza de que esta vida que nos foi oferecida por criação e que nós perdemos pelo pecado, que nos é dada na ressurreição de Jesus e que nós somos chamados a entrar. Faz-me impressão a forma como as pessoas olham a própria morte. Eu entendo o pavor do sofrimento, entendo o medo da separação, entendo a dor do 'já não te vejo, já não te sinto, já não te toco'. Agora, causa-me estranheza o dizer que têm medo do que está para lá. Ter medo do que vem a seguir. Porque se de facto eu sei que Deus é meu Pai, que Jesus me amou ao ponto de dar a sua vida por mim, aquilo que me espera é o abraço do Pai! Se conseguíssemos passar para as pessoas este desejo de ver Deus, de contemplar a glória de Deus, então a própria morte, com aquilo que tem de ruptura, com aquilo que tem de separação, não nos leva para o desconhecido, mas para aquilo que nós conhecemos.

 

Defunctus, em latim, é aquele que deixou de exercer a sua função, mas que continuou a vida. Na Igreja, dever-se-ia falar mais em defuntos e não em mortos ou finados, concorda?

Santa Teresa do Menino Jesus tem uma expressão muito bonita: "Eu não morro, eu entro na Vida". E tem uma outra que diz: "Eu passarei o meu Céu a fazer o bem sobre a terra". Quando dizemos defunctus como aquele que deixa de exercer uma função, mas uma função apenas aqui nesta terra… o meu pai fará em Fevereiro três anos que faleceu. Numa situação da minha vida e na paróquia, em determinada altura pensava a quem é que havia de pedir ajuda para resolver um problema. E enquanto pensava nisso, veio-me à ideia dizer: 'Agora quem me poderia ajudar era o meu papá... o meu pai'. E de repente caí em mim e pensei 'Espera lá, celebraste o funeral, mas celebraste como ressurreição, como a entrada do teu pai na Vida'. E recordo-me perfeitamente que estava com aquele turbilhão todo e às 2 da manhã levantei-me, fui ao oratório e rezei a Deus: "Olha, Senhor, pela intercessão do meu pai, eu te peço que me ajudes. 'Papá, ajuda-me nesta circunstância'". Quando acordei de manhã, tinha uma mensagem no telemóvel e o problema estava resolvido! O meu pai deixou de exercer esta função aqui perto de mim, que me abraçava, com o seu carinho, mas continua a cuidar de mim e a estar presente em mim. Eu sei que o meu pai continua a interceder por mim e que agora, de certa forma, me pode ajudar ainda mais do que me ajudava quando estava aqui. E continuo a experimentar e a sentir esta presença quando às vezes lhe peço que interceda por mim junto de Jesus.

 

Mas entre os cristãos há ainda muito o culto dos mortos nos cemitérios. Como é que a Igreja vê as romarias aos cemitérios nestes dias?

Sempre houve romagens aos túmulos dos apóstolos, dos mártires. Mas aquilo que era interessante nessas romagens é que era uma romagem por alguém que eles sabiam que o corpo estava ali, mas ao mesmo tempo que os elevava. Creio que há ainda uma outra dimensão, que diria que é quase bem profana, que é quase um saudosismo mórbido, em que de repente é como se de facto eu não acreditasse que aquela pessoa vive. Pelo próprio ritual mórbido, é como se prendesse a pessoa à terra, àqueles restos mortais, quando o sentido aí é ajudar a perceber que não só eu posso pedir para que ela possa participar plenamente da glória de Deus, mas possa também fazer parte desta comunhão dos santos. Deixou de se falar das indulgências que podemos aplicar pelos nossos familiares e amigos que já partiram. O rezar para que eles participem desta vida plena. Mas ao mesmo tempo desligar deste culto da morte, porque não é disso que se trata... é abrir à Vida, à dimensão da vida eterna.

 

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Holywins – a santidade ganha

 

Em algumas paróquias, sobretudo nalguns centros sociais paroquais, começa a haver a tendência de celebrar o Halloween (dia das bruxas). Em França, a Comunidade Emanuel organiza desde o ano 2002 o Holywins (a santidade ganha). Que iniciativa é esta, que a diocese de Paris tomou agora para si?

No fundo, é passarmos da morte à vida! O Halloween desenvolveu-se por uma questão muito económica, muito comercial, em que se celebra a morte. E não faz sentido celebrar a morte. É a negação da própria vida. O Halloween veio das Américas e entrou na Europa com força. E na altura do Congresso para a Nova Evangelização em Paris, o que se quis criar foi um outro movimento, no sentido de dizer 'a santidade ganha'. Isto é, esta vida de felicidade, esta vida de comunhão ganha! Pretendeu celebrar a glória do Céu com festa. Há diversas iniciativas, com concertos, jovens que na rua se vestiam caracterizados de santos. Perceber que esta santidade, que esta felicidade ao jeito de Deus no comum da nossa vida, é algo que somos chamados a realizar e a viver. Não cultivar a morte, a degradação, o fim. Mas antes pelo contrário, esta plenitude de vida que somos chamados.

 

Sendo um padre da Comunidade Emanuel, para quando um Holywins em Portugal?

Costuma dizer-se 'são mais as marés que os marinheiros.' Nós temos que começar por aquilo que é importante. Mesmo se é urgente criar esse dinamismo, há outras coisas que são ainda mais importantes. Acho que há desejos que vão crescendo no nosso coração. No Patriarcado de Lisboa, durante o congresso e mesmo após o congresso, houve diversas iniciativas que se lançaram e acho que Deus Nosso Senhor vai fazendo caminho nos nossos corações e dará os meios necessários para que as coisas possam surgir. Que é um desejo que trago no coração há algum tempo, é. Ainda não consegui os meios, mas Deus providenciará...

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