Entrevistas |
Paulo Campino, membro da direcção do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa: ?Transformar a sociedade a partir dos valores do Evangelho?
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Ficou em terceiro lugar no ranking nacional das escolas e em primeiro na cidade de Lisboa. O Colégio do Sagrado Coração de Maria é uma escola católica que tem uma proposta transformadora da sociedade a partir dos valores do Evangelho. Em entrevista à VOZ DA VERDADE, Paulo Campino, membro da direcção do colégio, sublinha o projecto educativo da instituição e salienta que “cada aluno é único”.

No ideário da escola é salientado que o Colégio do Sagrado Coração de Maria “têm por opção fundamental despertar nas crianças, adolescentes e jovens a visão cristã da pessoa, da História e do Universo”. De que forma procuram cumprir esta missão?

Nós acreditamos que Deus continua a intervir na história, na história do mundo, na história de cada pessoa. E é esta descoberta da presença de Deus na vida de cada uma das crianças e de cada um dos jovens deste colégio que vamos procurando desenvolver. Costumamos dizer que a nossa função é ajudar a apresentar Jesus Cristo como o modelo de homem que torna felizes todas as pessoas. Claro que depois gostaríamos que deste conhecimento, desta relação com Cristo, viesse a intimidade. Apresentamos Jesus Cristo como a grande referência, que é capaz de dar uma nova razão, uma nova forma de ser ao mundo actual. No entanto, não é nossa intenção obrigar as pessoas a aderir a Jesus Cristo. Temos muitos alunos que não são cristãos e temos consciência que há um universo de pais que nos procuram não por sermos um colégio católico mas por termos um colégio cientificamente bom.

 

Mas aquando da entrevista aos pais para admissão de um aluno, previnem-nos que são um colégio católico…

Nós não enganamos ninguém. Nós somos um colégio católico – aliás, o nosso nome diz tudo! –, acreditamos que há uma intervenção de Deus na história e no mundo e guiamo-nos por essa presença. A nossa proposta é uma proposta transformadora do mundo, da sociedade, a partir dos valores do Evangelho. Isso é claro e tem expressões concretas.

 

Como por exemplo?

Diariamente, temos oração na capela. Mensalmente, temos uma oração relacionada com o tempo litúrgico. Estas duas orações não são obrigatórias, mas temos um grupo grande de alunos e professores que participam. Anualmente, há cinco Eucaristias onde os alunos têm que participar obrigatoriamente: a de início do ano, no Natal, na Páscoa, no final do ano e no fim dos encontros de formação. Depois, há ainda diversos projectos onde procuramos concretizar esta visão cristã no mundo. Nomeadamente com a paróquia das Galinheiras, através do Centro Jean Gailhac, fundador das Irmãs do Sagrado Coração de Maria.

 

Neste ano lectivo de 2010/2011, o Colégio tomou como tema ‘Lançar Pontes’, sobretudo ao nível do Conhecimento, mas também da Solidariedade, Esperança, Cultura e Fé. Que pontes são estas?

‘Lançar Pontes’ é fazermos encontro, é estabelecermos diálogo. Num mundo tão fragmentado e tão dividido, é sermos uma proposta de união. Ao lançar pontes, cada pessoa transforma e transforma-se. E é neste sentido que gostávamos de abordar o tema do ano: de sentir que os nossos alunos e os nossos funcionários, ao lançarem vários tipos de pontes para os outros, eles próprios também se transformam. Como é que concretizamos? Ao nível da solidariedade, enquanto escola católica, temos a responsabilidade de ajudar no bem comum, de não transformar estas crianças apenas em bons alunos, mas sobretudo transformá-los em boas pessoas, atentos aos outros e às necessidades. Acreditamos numa formação integral, que passa pelo conhecimento científico, mas também pelo crescimento humano e pelo conhecimento dos valores cristãos.

 

O Colégio do Sagrado Coração de Maria é uma escola católica onde Jesus Cristo está presente. A propósito da retirada dos símbolos religiosos, acredita que Deus deveria também ter lugar nas escolas públicas?

Acho isso da retirada dos símbolos religiosos das escolas um disparate. Nós somos de uma matriz judaico-cristã. A forma como a nossa sociedade se organiza está profundamente enraizada nos valores do cristianismo, da justiça social, do desenvolvimento, da promoção da mulher, da promoção do mais desfavorecido. Isso não nasceu apenas com a Declaração dos Direitos Humanos. Nasceu com Jesus Cristo, que foi o primeiro grande Homem que se preocupou com o outro! Neste sentido, acredito que a presença de Deus na escola é uma presença valorizadora do próprio ser. Nós, enquanto pessoas, temos uma relação com o transcendente. É um disparate tirar Deus das escolas. E isto não quer dizer que as escolas tenham que estar organizadas de forma a que haja um proselitismo e em que se ande a falar de Deus em todas as aulas. Mas retirá-l’O é um disparate!

 

A disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) é obrigatória nesta escola católica. Qual a importância desta cadeira na formação dos alunos?

Retirar a EMRC das escolas públicas é um profundo erro, que mostra um desconhecimento da realidade e do valor da disciplina. A EMRC tem um valor enquanto promoção de paz, de diálogo inter-religioso, ecuménico. Quando nós conhecemos melhor os outros, respeitamo-lo. Portanto, é um disparate acabar com a Educação Moral e Religiosa Católica. Aqui no Colégio, cada turma tem duas horas por semana de EMRC, sendo que do 5º ao 9º ano é uma disciplina dada por dois professores. É curioso que temos alunos que ‘refilam’ porque o bar não funciona bem, porque não os deixam sair, mas não temos muitos alunos que não gostem desta disciplina.

 

Na sua recente visita ao Reino Unido, o Papa sublinhou que uma garantia das escolas católicas deve ser o ambiente de “respeito e a confiança”. Cada aluno deve-se sentir acolhido e acarinhado na sua escola, concorda?

Cada aluno é único! Aliás, o fundador do nosso instituto, padre Jean Gailhac, diz: ‘Temos de acolher cada criança na sua singularidade. Cada criança, cada jovem, traz consigo uma vida. E cada vida é em si única’. É isso que procuramos fazer no nosso colégio. Acreditamos que acontece em muitas outras escolas – não me atreveria a dizer que isto do acolhimento, da atenção, não acontece nas escolas públicas. A diferença é que no colégio isso é uma prioridade e em muitas escolas públicas isso acontece do trabalho excepcional que alguns professores fazem. Acolher faz parte da nossa matriz!

 

Que novos projectos e desafios se colocam não só à educação em Portugal como também ao Colégio do Sagrado Coração de Maria?

O grande desafio que se coloca à educação em Portugal é recentrar a educação nas escolas. É indispensável acabar com a máquina burocrática do Ministério da Educação, que para tudo quer ser ela a decidir. Dar autonomia às escolas, deixá-las funcionar e depois exigir e avaliá-las. No fundo, dar liberdade às escolas para que elas possam desenvolver o seu projecto educativo. Outro desafio fundamental à educação em Portugal é o repensar o desenho curricular, sobretudo do 3º ciclo (7º, 8 e 9º ano). Hoje temos um conjunto de alunos na fase da adolescência que anda de disciplina em disciplina sem poder fazer sínteses e ver como a sua vida vai evoluindo. Finalmente, um outro desafio passa pela co-responsabilidade dos alunos, mas também pela autoridade da parte do professor.

Ao nível do Colégio do Sagrado Coração de Maria, o grande desafio passa pela inovação tecnológica. Hoje temos um conjunto muito grande de tecnologias da comunicação e da informação. Portanto, há um grande desafio não só de dotar a escola de novos instrumentos, mas também de dar formação aos professores, ajudando-os a evoluir e a crescer nesta dinâmica.

 

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Perfil

Paulo Campino é professor no Colégio do Sagrado Coração de Maria há mais de vinte anos. Licenciado em Química, dá aulas de Química aos alunos do 12º ano e desde há dez anos é responsável pelo ensino secundário do colégio. Paulo Campino é também licenciado em Teologia Pastoral e tem a particularidade de ser o primeiro leigo não consagrado a estar à frente de um secretariado diocesano da catequese, no caso na Diocese de Santarém, onde está há cinco anos.

 

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Colégio do Sagrado Coração de Maria

O Colégio do Sagrado Coração de Maria pertence ao Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, que além deste colégio tem outro em Fátima e um terceiro no Porto, o Colégio de Nossa Senhora do Rosário, que este ano ficou no 1º lugar do ranking das escolas nacionais.

Em Lisboa, o Colégio do Sagrado Coração de Maria tem 1392 alunos, desde os 3 anos de idade até ao 12º ano, sendo que grande parte dos alunos faz o percurso de 15 anos no colégio. Funcionários e professores são cerca de 250.

 

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“O nosso ranking é ajudar os jovens a descobrir o seu lugar na sociedade”

 

Que significado tem para o Colégio do Sagrado Coração de Maria figurar no terceiro lugar do ranking nacional das escolas (e primeiro lugar nas escolas de Lisboa) do jornal Público?

Nós acreditamos que o trabalho que vamos fazendo no Colégio não se mede exclusivamente pelo ranking. Há muita vida para lá do ranking! Por outro lado, era hipócrita dizer que não gostamos de estar nos primeiros lugares do ranking. Habitualmente, estamos sempre nos primeiros lugares – este ano somos a melhor escola da cidade de Lisboa – e isso alegra-nos.

Nós somos um colégio católico e esse facto influencia os nossos resultados, na medida em que temos um projecto educativo que passa pela formação integral das nossas crianças e jovens e por um crescimento harmonioso de todas as dimensões. Naturalmente, também, há um grande enfoque na formação científica, que depois se traduz no nosso ranking. Mas o nosso principal ranking é sermos capazes de ir ajudando cada um destes jovens a descobrir qual é o seu lugar na sociedade! E de que forma eles podem ser úteis na transformação do mundo.

 

Como é que a direcção, os docentes, alunos e funcionários receberam esta notícia?

É sempre com alegria, embora o ranking já tenha dado o que tinha a dar… Nota-se que os alunos ficam felizes, nós, direcção, ficámos felizes, mas acredito que a esmagadora maioria das pessoas que aqui trabalham – desde as senhoras da limpeza, que tornam as salas acolhedoras, até à directora pedagógica – sente que deu um contributo para que isto pudesse acontecer. É uma alegria de quem sabe que o trabalho não está todo feito…

 

E o Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria?

Penso que é também uma alegria para as irmãs. A educação é algo que vem do projecto das irmãs desde o princípio. Não se pode dizer que as irmãs tenham como carisma a educação – uma vez que o carisma está centrado no lema ‘Para que todos tenham vida e vida em abundância’ –, mas as irmãs procuram estar onde é preciso estar. É ter resposta à sociedade onde ela é necessária. Desde sempre as irmãs perceberam que uma das respostas era a educação.

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