Entrevistas |
Juan Souto Coelho: É preciso conhecer a Doutrina Social da Igreja
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Dentro e fora do meio eclesial, a Doutrina Social da Igreja precisa de ser conhecida, alerta o sociólogo português Juan Souto Coelho. Doutorado em Sociologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca e licenciado em Ciências Políticas e Ciências Catequéticas, este leigo a residir em Espanha esteve em Lisboa a convite do Instituto Diocesano da Formação Cristã e falou à VOZ DA VERDADE.

O que é a Doutrina Social da Igreja?

A Doutrina Social da Igreja (DSI) é o ensinamento que a Igreja elabora como resposta histórica a problemas históricos concretos nos âmbitos económico, político, cultural, ecológico e social, e que dá a conhecer em Encíclicas e outros documentos sociais. Portanto, esta doutrina nasce do encontro e do diálogo do Evangelho e das exigências da fé cristã – o amor, a justiça, etc. – com as alegrias e as tristezas das pessoas e comunidades em cada época. Podemos dizer, então, que a Igreja com a sua doutrina social acompanha os homens e as mulheres no acontecer do Reino de Deus nos diversos âmbitos da vida. Assim, no âmbito económico, político, cultural, ecológico, no seu desenvolvimento integral, cuida que o progresso da humanidade se faça à altura da dignidade fundamental da pessoa, como centro de toda a iniciativa de verdadeiro desenvolvimento.

 

Nos dias de hoje é possível fazer a aplicação da DSI? Como?

Nos dias de hoje, tal como em todas as épocas, não só é possível aplicar a DSI a todas as realidades – e afirmamos claramente que já se aplicam –, como é necessário e urgente conhecê-la melhor para aplicá-la com mais eficácia e consistência. Com essa finalidade é elaborada segundo o método “ver, julgar e agir”. A DSI, como diz o Papa João Paulo II no nº 57 da Encíclica Centesimus annus, mais que uma teoria para conhecer, “é fundamento e estímulo para a acção”. Há alguns factos que provam isso. As organizações de acção social e de promoção do desenvolvimento entre os mais pobres são aplicações da DSI. Se nos fixarmos no âmbito político europeu, a solidariedade e a subsidiariedade, que são dois princípios irrenunciáveis da DSI, configuram a estratégia de desenvolvimento e coesão entre os membros da União Europeia, tal como consta em dois capítulos distintos dos Tratados da União. No entanto há algo mais: os princípios da dignidade e igualdade fundamental dos direitos e liberdade das pessoas, eixos de uma sociedade justa e solidária na DSI, nascem no cristianismo. Os conceitos de soberania dos povos, a autoridade como serviço ao bem comum e muitos outros princípios da DSI também encontram as suas raízes no cristianismo. E assim poderíamos seguir com outros exemplos.

 

Como é que a DSI dialoga com o mundo? Que diálogos existem, que monólogos?

O diálogo é sempre, pelos menos, realizado a dois. Com a sua doutrina social, a Igreja apresenta-se como parte do mundo, sensível e comprometida com todas as suas realidades. Em cada época, com encíclicas diferentes mas sempre com um fundo doutrinal comum, a Igreja quis acompanhar os católicos, e a todos aqueles que ficaram satisfeitos em ouvir e seguir os seus ensinamentos, na compreensão dos seus problemas e na busca de respostas. Bastaria repassar as encíclicas para nos apercebermos disso. Porém, o diálogo Igreja-Mundo nem sempre foi fácil e muitas vezes surgem obstáculos e resistências. Eu creio que um dos maiores obstáculos para o diálogo com o mundo é a nossa própria ignorância e a falta de interesse pela DSI, que muitas vezes é acompanhada por uma falta de consciência da própria identidade, para além de insegurança, desconfiança e medo.

Por outro lado, certos obstáculos e resistências podem ser recíprocos, tanto do interior como do exterior. A tendência para o relativismo e a falta de convicções, ou as inclinações opostas do fundamentalismo e o fanatismo, são hoje algumas das principais armadilhas para o diálogo porque precisam do mais importante: o amor à verdade, o respeito e a valorização da diferença, a integração e a complementaridade de todos os saberes; o desejo de buscar a verdade onde se encontra. Com a sua doutrina social, os católicos não estão fechados em si mesmos, mas pelo contrário, conscientes da nossa identidade e dispostos a oferecer a DSI na sua totalidade, embora nunca como palavra única e definitiva, queremos ser mais alento que lamento na solução dos problemas do nosso mundo; porque, para todos, este é o único mundo em que acontece o Reino de Deus.

 

Como é que a DSI pode ser aplicada na vida quotidiana?

A vida quotidiana está cheia de oportunidades para aplicar a DSI, desde a vida familiar, escolar, empresarial, política, etc. Viver a subsidiariedade no quotidiano é, por exemplo, ser co-responsável nas tarefas familiares. Não descarregar na mãe toda a responsabilidade da casa. Aquilo que posso fazer por mim mesmo, devo fazê-lo. Viver a solidariedade é, entre outras coisas, não só contribuir com um donativo para a Cáritas, mas fazer-se voluntário, ou seja, entregar-se de forma perseverante e comunitária ao serviço da caridade, que é a força da DSI. Contribuir para o bem comum, ou seja, interessar-se pelo bem de todos, sobretudo os mais vulneráveis e indefesos é, entre outras coisas, pagar correctamente os nossos impostos os nossos impostos, não desperdiçar bens públicos como o é a água e a energia eléctrica; não contaminar o ambiente com ruído e resíduos… ou seja, esses princípios permanentes que são verdades eternas da DSI (dignidade humana, bem comum, justiça, solidariedade, subsidiariedade, participação, destino universal dos bens, etc) não são apenas para aplicar nas grandes questões da economia e da política, o poder a autoridade dos Estados, a guerra e a paz, o mercado e a globalização… Portanto, cada pessoa e cada organização, no seu próprio âmbito e de acordo com os seus próprios dons, deve comunicar e aplicar a DSI.

 

A quem se aplica a DSI? Para dentro ou para fora da Igreja? Será que os de dentro conhecem a DSI?

A DSI é entregue, em primeiro lugar, aos bispos e a todos os membros da Igreja para que nos apropriemos dela e a façamos nossa, na mente, no coração e nas mãos, para que, como diz Bento XVI no ponto 31 da Deus caritas est, sejamos “corações que vêem e actuam em conformidade”. Isto deveria ser sempre assim! Mas a verdade é que a DSI é desconhecida por muitos sacerdotes, religiosos e leigos, e porque é desconhecida não é aplicada. No entanto, os Papas reiteram que a DSI é parte integrante da formação cristã e que é, sobretudo para os leigos, um instrumento indispensável para estar no mundo à altura das circunstâncias. Para além disso, a DSI é das melhores linguagens que temos para o entendimento com todos no âmbito da verdadeira laicidade.

Nos círculos mais conscientes das nossas comunidades pedem-se mais oportunidades de formação em DSI. Depois é necessário que sejamos facilitadores da recepção e da aplicação da DSI aos problemas da crise que hoje enfrentamos.

 

E os que estão fora da Igreja como podem aplicar a DSI?

Uma das características mais dinâmicas da DSI é que não é preciso pertencer à Igreja, nem ser crente para assumir, em grande medida, os pressupostos nas escolhas de vida, nos compromissos e no testemunho pelas obras. Todos, sem excepção temos inscrito na nossa natureza, como pessoas e cidadãos de um lugar, que somos iguais e livres, que nenhuma pessoa é mais digna do que outra, que ninguém tem direito de dispor arbitrariamente da vida dos outros. Por fim, que o melhor a fazer é comportar-se com os outros como gostaríamos que os outros se comportassem connosco. Não podemos chegar a um consenso com todos no que diz respeito aos fundamentos da “dignidade humana” e os princípios que são derivados dela. Mas com todos podemos estabelecer um vasto leque de acções de cooperação em função do bem comum.

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