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Religiosa de Lisboa vai ser beata: Da nobreza aos altares
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A irmã Maria Clara do Menino Jesus, nascida na Amadora e baptizada em Benfica, é a fundadora das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC) e vai ser proclamada beata. Quem foi, como viveu e o que fez para chegar aos altares foi o que contou à VOZ DA VERDADE a vice-postuladora da causa de beatificação, irmã Maria Lucília de Carvalho.

O nome de Baptismo da irmã Maria Clara do Menino Jesus é Libânia do Carmo. Quem era esta mulher?

Provém de uma família antiquíssima, os Mexia, que vêm de Espanha. Faziam parte da corte do rei de Espanha. Uma vez substituído o rei a quem essa família muito agradava, caiem em desagrado do sucessor e entram em Portugal pelo Alentejo. Essa família nobre estabelece-se sobretudo no Alentejo e depois em Lisboa. Alguns foram educadores dos infantes. Entre essa descendência nobre, encontram-se também historiadores, escritores…

 

Deduzo que para a realização de um processo destes seja importante conhecer as origens da família?

A ascendência de Libânia foi uma pergunta que nos fizeram neste processo porque dizem que para determinar uma vocação, que é dom de Deus, é preciso também saber as circunstâncias em que ela acontece. Por isso, a sua ascendência foi uma das perguntas que o postulador nos fez.

 

Então significa que o seu percurso de vida é de nobreza?

Esta menina nasce em 1843, num ambiente de nobreza, na Amadora, na Quinta do Bosque, que hoje já não existe. Vem, ainda adolescente, para Lisboa. Depois da morte dos pais, aos 14 anos Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura de Teles e Albuquerque é órfã, e é internada no asilo real da Ajuda, precisamente no palácio velho da Ajuda que ainda hoje se vê em ruínas, porque sofreu um incêndio aquando a sua estadia nesse estabelecimento.

 

E quem dirigia esse asilo?

Eram educadoras as irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, chamadas pelo Rei D. Pedro V. Precisamente numa altura em que as outras congregações e ordens religiosas são proibidas em Portugal. 

 

Então essas irmãs são também expulsas… e o que acontece a Libânia do Carmo?

Em 1862 elas são expulsas e remetidas para França. Nessa altura, Libânia do Carmo em vez de ir para a família escolhe o convite dos Marqueses de Valada e vai morar no Palácio dos Marqueses. Esteve aí cinco anos. A marquesa estimava-a muito e, dizem os documentos, que elas eram mesmo confidentes. Libânia do Carmo chegava mesmo a presenciar a instabilidade do seu casamento e ouvia a própria marquesa, até à resolução que ela tomou de se enclausurar no convento de São José em Paris.

 

E voltou a ficar sozinha?

Com a saída da marquesa ela vai para o pensionato de São Patrício que era muito perto da Sé de Lisboa. Viviam aí as Capuchinhas de Nossa Senhora da Conceição, trazidas pelo padre Beirão. Aí observa a vida dessas religiosas, que eram uma ordem terceira de São Francisco, e acaba por professar, apenas com votos particulares, dado que naquele período era proibido professar em Portugal. Em 1869 recebeu o hábito e são seus padrinhos de profissão os Marqueses de Fronteira.

 

Falou do padre Beirão. Foi um elemento fundamental na vida e na obra da irmã Maria Clara?

Sim, o padre Beirão, que tinha observado directamente a pobreza deste país, da cidade de Lisboa e das crianças abandonadas, depois de ter observado a expulsão das religiosas estrangeiras e o vazio que se criou com a extinção das obras religiosas, sonhava uma congregação. Mas tinha de ser uma congregação válida, com licenças, com autorização sobretudo da Santa Sé. E como aqui em Portugal não se podia professar ele resolveu, então, enviar a irmã Maria Clara do Menino Jesus, com algumas companheiras, para França, para o noviciado das irmãs Hospitaleiras e Mestras que hoje são as Missionária de Nossa Senhora. Foi aí que a irmã Maria Clara fez a sua preparação para a vida religiosa, e passado quinze meses fez então a sua profissão. Era o dia 14 de Abril de 1871. Feita a profissão regressa a Portugal. Chega no dia 1 de Maio desse mesmo ano. No dia 3 de Maio de 1871, em celebração presidida pelo padre Beirão, toma posse como superiora e como mestra de noviças. A intenção do padre Beirão foi fundar uma congregação genuinamente portuguesa.

 

As vocações começaram a aparecer?

As vocações afluíram ao pensionato de São Patrício e a comunidade cresceu. As Capuchinhas que já existiam desde 1700 quiseram assumir a mesma regra e as mesmas constituições que a irmã Maria Clara trouxe de França. No dia 11 de Julho de 1871 são já cerca de doze ou treze irmãs que tomam também o hábito e passam a regular-se pelas normas que a irmã Maria Clara tinha trazido.

 

As obras realizadas pela irmã nascem nessa altura?

A partir daí, dada a afluência das vocações, começam as obras a florescer. Eram obras polivalentes. Ao olhar para o serviço das irmãs Pobres pelo Amor de Deus começa a haver pedidos de vários pontos do país, sobretudo do norte. Mas depois começam a proliferar pelo país inteiro. Na hora em que a madre Maria Clara falece nós temos mais de 500 irmãs e 148 obras: 55 instituições para crianças, desde colégios, creches… 48 hospitais! Foi uma obra vastíssima que ela deixou! Diz a nossa cronista que só por uma grande força e amor a Deus é que uma pessoa e uma mulher naquele século conseguiu uma obra como esta.

 

Entretanto começam a expandir-se mundo fora…

Sim, ela foi pioneira das missões femininas. Foram das primeiras missionárias a partir para Angola, em 1883, depois para a Índia em 1886, Guiné e Cabo Verde em 1893. Em 1894 são chamadas para São Tomé.

 

Perante toda esta obra e pela sua própria vida, como é que caracteriza a irmã Maria Clara?

Ela foi uma pessoa preponderante, não pelo brilhantismo da sua pessoa, nem da sua oratória nem dos seus escritos, mas pela sua postura. Era uma pessoa extremamente educada. Uma pessoa extremamente humana, suave. De um temperamento firme, mas suave. E assim, conseguia conduzir as irmãs para Deus e para a sua missão, e para o futuro da missão, fazendo-as ver mais longe.

 

E o processo de beatificação como é que nasce?

Eu tinha perguntado ao postulador da causa, o padre Romualdo Rodrigo, da Ordem dos Agostinianos Recolectos, o que era preciso para iniciar um processo de beatificação. Ele respondeu-me: ser pecador, ter inimigos e ser perseguido. Eu fiquei desapontada porque a ideia que temos é sempre outra. Mas, de facto, a mãe Clara sofreu isso tudo. Todos somos pecadores; inimigos teve-os e basta falar da perseguição da maçonaria a ela e à própria congregação. O alvo era a Igreja mas a perseguição era feita a ela.

 

Em 1995, quando iniciaram este processo, que perspectivas tinham?

Nós já sabíamos, pela perspectiva do postulador, que um processo histórico é sempre muito demorado. Nunca menos de 30 anos! Fiquei surpreendida com isso, pensando inclusive que já não iria assistir à beatificação da mãe Clara. Por outro lado, não tínhamos ainda documentos necessários que provassem a sua santidade de vida. Era preciso fazer uma pesquisa não só circunscrita a Lisboa, mas a muitos outros lugares por onde ela passou neste país, e até fora dele. Porque nos lugares para onde a irmã Maria Clara enviou irmãs, poderia eventualmente existir documentos. Foi difícil a pesquisa mas em dois anos nós conseguimos documentos que provassem a sua vida de santidade. Entretanto pedem à congregação uma irmã para fazer a positio, que foi entregue em Dezembro de 2003. Veja-se que o processo entrou em Roma em 1997; foi nomeado o relator, monsenhor José Gutierrez, e em Maio de 2004 é entregue à apreciação dos peritos históricos. Essa apreciação fica depois à espera do milagre.

 

Que surge em 2003…

Sim, em Novembro de 2003. E os teólogos, no dia 1 de Fevereiro de 2004, aprovam também a positio, que só em Outubro de 2008 vai ser aprovada pelos cardeais. Foi então declarada venerável no dia 6 de Dezembro de 2008. Mas só depois de declarada venerável é que é começou o processo do milagre. Foi rápido, foram exactamente dois anos, porque no passado dia 7 de Dezembro os cardeais deram o seu parecer positivo sobre o processo do milagre. Consideramos nós e também o afirmou a Santa Sé, que este foi dos mais rápidos processos históricos.

 

A que se deveu esta ‘rapidez’?

O postulador disse que a mãe Clara “avança por mérito próprio”. Não houve aquilo que por vezes se ouve dizer de interferências a favor. E é verdade! Não sentimos interferência nenhuma. Quando o processo entrou tinha o numero 2062, o que significa que estavam à sua frente mais de 2000 processos.

 

O que sentiu ao ver aprovado pelo Santo Padre o milagre que vai conduzir a mãe Clara aos altares?

Uma alegria enorme. Um dever cumprido, ainda por acabar, mas peço a Deus que, já que me trouxe até este momento, que me deixe chegar até ao fim!

 

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O milagre

O milagre atribuído a intercessão da irmã Maria Clara do Menino Jesus foi a cura repentina de pioderma gangrenoso de Giorgina Troncoso Monteagudo, uma cidadã espanhola que desde há 34 anos padecia desta doença.

 

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Patriarca afirma que beatificação desafia diocese à santidade

“A santidade não é só para alguns mas é a vocação de todos os cristãos”. Foi desta forma que o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, reagiu a propósito da notícia da beatificação da irmã Maria Clara do Menino Jesus, fundadora das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC).

Sobre a celebração de beatificação a realizar no próximo ano em Lisboa, em data ainda desconhecida no fecho deste jornal, D. José Policarpo disse à VOZ DA VERDADE que “na linha da Carta Pastoral sobre a Nova Evangelização”, esta será “uma ocasião para que toda a comunidade diocesana tome a sério que a vocação de santidade não é uma vocação para alguns mas a vocação de todos os cristãos”.

O Cardeal-Patriarca sublinha, ainda, a importância deste exemplo de santidade na diocese de Lisboa, manifestando a sua “alegria pela confirmação oficial pela Santa Sé, das virtudes heróicas e experiência de santidade” da irmã Maria Clara. “É certo que a madre Clara viveu a sua vida toda quase ao ritmo da congregação que fundou e que está espalhada por todo o mundo, mas não deixa de ser uma interpelação para a nossa diocese, para ver que a santidade é possível e que é um desafio permanente da vida cristã”, garante.

 

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Paróquia de Benfica dá a conhecer futura beata

A paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, onde foi baptizada a irmã Maria Clara do Menino Jesus, vai promover no próximo dia 14 de Janeiro, pelas 21h00, um encontro para jovens com o objectivo de dar a conhecer a irmã que vai ser beatificada no próximo ano em Lisboa. O encontro vai ser dinamizado pela irmã Maria Amélia Costa, da congregação Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

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