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Peter Seewald, autor de ?Luz do Mundo?: ?Conhecer o Papa no original?
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Peter Seewald, autor do livro-entrevista com Bento XVI ‘Luz do Mundo’, quer que as pessoas “conheçam o Papa no original, não de forma encurtada, modificada ou alterada”. Em conversa com os seminaristas do Seminário dos Olivais e jornalistas da VOZ DA VERDADE e Agência Ecclesia, o jornalista alemão diz que ainda tinha “mais mil perguntas para fazer” e sublinha que não haverá novo livro a partir das seis horas de conversa, porque “não se pode abdicar de nenhuma palavra do Papa”.

As perguntas que surgem no livro ‘Luz do Mundo’ são exclusivamente da sua autoria ou foram questões conversadas antecipadamente com o Papa?

A ideia do livro e as perguntas são exclusivamente minhas. Sendo jornalista, é natural que eu procure fazer as perguntas que têm interesse para o mundo em que vivemos hoje. A primeira pergunta para este livro já tem cinco anos, mas com Roma é preciso ter paciência! Tem de se ir sempre tentando, sem nunca enervar ninguém. Inicialmente este livro estava pensado como um balanço intercalar do Pontificado. Com a divulgação de casos de abusos sexuais na Igreja este livro ganhou uma outra importância. A minha tarefa neste livro foi abordar os temas actuais, mas também escrever um livro que fosse para além da actualidade e falasse sobre a fé. Tratou-se não só de falar da situação de crise na Igreja mas também da crise do secularismo.

O que é bonito no Papa Bento XVI é que se trata de uma pessoa que não tem medo. E que não teme perguntas difíceis. Não é alguém que tenta fugir, por isso, como jornalista, foi-me dada a possibilidade de fazer todo o tipo de perguntas. Em consequência, o Papa também não alterou quase nada na revisão do livro, excepto em alguns casos onde Bento XVI quis fazer precisões factuais. Aliás, fico sempre um pouco envergonhado e pouco à vontade quando constato que o Papa não altera quase nada… porque eu próprio estou sempre a reescrever aquilo que escrevo. Nesta obra a pessoa vive e experimenta o Papa no original, não de uma forma encurtada, modificada ou alterada, como normalmente acontece nos meios de comunicação social.

 

Como viveu os momentos antes das entrevistas?

Uma das vantagens deste livro é que nós já nos conhecíamos de dois projectos anteriores [‘Sal da Terra’ e ‘Deus e o Mundo’]. Para um jornalista, é um prazer muito grande falar com Joseph Ratzinger. É claro que antes do encontro ficamos com as pernas a tremer. Há duas soluções para o caso: na noite anterior tomar um bom vinho tinto; e um meio ainda mais eficiente é um pouco antes do encontro rezar o Terço. Com isso, ficamos imunes a qualquer coisa! Há sempre muito nervosismo à volta destes projectos. As noite que não se dorme, as dores de barriga, as dúvidas que se tem de si próprio – a pessoa quer-se atirar da janela abaixo! Mas o Papa põe-nos totalmente à vontade e a sensação que se tem pouco minutos depois é que nos tínhamos encontrado de véspera!

Conhecem a grande doença dos clérigos? É a vaidade! Mas este Papa libertou-se disso. É uma pessoa extremamente humilde, ternurenta. Não é aquele príncipe da Igreja perante a qual a pessoa tem de tremer ou ter medo. É um servidor da Igreja, que se entrega totalmente ao seu serviço. Mas com uma limitação: o esgotar-se na missão está sempre subordinado à disciplina germânica. Se o combinado foi uma hora, é uma hora e não mais! Mas numa hora, Bento XVI ao nível de conteúdo e substância diz mais do que alguns em cinco anos! Tem a grande capacidade de conseguir explicar coisas muito complicadas de forma simples. E essa simplicidade de expressão é hoje maior do que antes. Quando lerem o livro vão ver que a simplicidade de expressão é tão grande que podemos pensar que falta qualquer coisa… mas depois, numa segunda leitura, percebemos que nessa forma simples, resumida, está tudo dito.

Uma das coisas boas na expressão de Ratzinger é que ele tem uma veia poética. Conforme ele fala, parece que há uma música própria. Os livros de Ratzinger elevam o homem e transportam-no para outra dimensão.

 

Que diferenças descobriu no Papa?

Falei com Ratzinger quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e na altura ele estava pronto para ir para a reforma. Estava cansado do peso da função e da luta constante entre o mundo da fé e da descrença. Ratzinger é uma pessoa a quem nada é dado. Nem mesmo a reforma! O sonho da vida dele era ser professor. Teve de se tornar bispo, depois prefeito da congregação e com a morte de João Paulo II quis ir embora mas teve de ficar como Papa! Percebe-se perfeitamente que ele sinta que essas decisões tenham tido nele a sensação de uma guilhotina a cair! Quando lerem o livro vão ler muito sobre o sacerdócio. Algo que sempre me entusiasmou foi a determinação, a força e a entrega com as quais ele vive o sacerdócio. Lembrou-me sempre um revolucionário. Os revolucionários também são assim: entregam-se totalmente à sua missão, e no caso do Papa, por excelência, com uma vocação. Ratzinger esteve sempre disponível para colocar a sua vontade para trás e dispor todos os seus dons ao serviço de Jesus Cristo e da Igreja. Esse é o fio condutor da sua vida. Trata-se de uma pessoa autêntica, não porque permaneceu fiel a si próprio mas porque permaneceu fiel à sua vocação e ao seu chamamento. Nesse sentido, não há qualquer diferença entre Ratzinger antes de Papa e Ratzinger depois de Papa.

 

O livro ‘Luz do Mundo’ ficará para a história porque, como diz no prefácio, “nunca antes na história da Igreja um Pontífice tinha dialogado sob a forma de uma entrevista pessoal e directa”. Sente-se um privilegiado por ter tido esta oportunidade?

Foi a primeira vez que o Papa falou de uma forma tão pessoal numa entrevista directa. Um colega italiano, Vittorio Messori, publicou um livro com uma entrevista ao Papa João Paulo II, mas a diferença é que as perguntas foram enviadas e respondidas por escrito. Não tem a vivacidade de uma entrevista.

Sem dúvida que é um privilégio extraordinário para um jornalista entrevistar o Papa. É o ponto máximo de uma carreira profissional! E é claro que há imensos colegas meus em todo o mundo que invejam a oportunidade que eu tive. Mais ainda porque pensam que agora fiquei milionário! Mas desconhecem o peso e a responsabilidade que esta entrevista representa. Quanto ao privilégio, é preciso ver num contexto mais alargado e num sentido espiritual. Quando penso na minha vida, acho que ainda não percebi totalmente o que se passou! As coisas acontecem de uma forma em que a pessoa percebe que há um destino. Algo que tem a ver com a Providência! Há Alguém lá em cima que procura alguém que não é especialmente esperto, nem especialmente formado para questionar uma pessoa – o Papa – que é extremamente inteligente e culta. Quando sinto que não sei muito, tem sido um grande consolo para mim o que diz o Evangelho: o Senhor diz aos pequenos o que não disse aos grandes.

O que é também significativo é que houve um livro com João Paulo II de André Frossard – não um livro-entrevista, mas uma obra com muitas citações do Papa – e nós os três (Frossard, Messori e eu) temos um passado comunista: o pai de Frossard foi co-fundador do Partido Comunista, o Messori vem de uma família não crente e eu estive no Partido Comunista e durante 25 anos fora da Igreja. É uma curiosidade. Ao mesmo tempo, isso faz sentido porque com o nosso passado colocamos as perguntas com outra perspectiva do que se elas fossem feitas a partir do meio da Igreja. A nossa tarefa, no fundo, é funcionar como tradutores entre o mundo secular e o mundo da fé.

 

Diz ainda no prefácio que por falta de tempo algumas questões não puderam ser aprofundadas. O que é que ficou por perguntar? Que pergunta gostaria de ter feito e não fez?

Ainda me lembro de mil perguntas! É claro que depois da história acabada, a pessoa sofre como um cão por não ter conseguido tudo. Lembro-me por exemplo que gostaria de ter explorado o tema da perseguição dos cristãos em todo o mundo, que é dramático. Em todos os pontos gostaria de ter ido mais ao pormenor mas não é possível. O Santo Padre também não podia prolongar a conversa por mais uma semana.

 

Uma das questões que envolveu a publicação deste livro foi o preservativo. Como encara a polémica que se gerou?

Como jornalista, eu sabia que era uma questão quente e que iria, provavelmente, gerar muitas notícias de primeira página. O mundo dos meios de comunicação é assim: Igreja e sexo são sempre temas quentes. Por vezes durante semanas os media não falam de nada importante que acontece em Roma; mas logo que sabem que um padre algures numa aldeia está sob suspeita de algo isso gera muitas notícias! Sabia que a questão era quente, mas também sabia que era importante fazer a pergunta e para o Papa era importante esclarecer e dizer qual a posição da Igreja em relação à questão do preservativo no combate à sida. Esclareceu que não se trata de a Igreja ter uma posição negativa em relação ao sexo, mas trata-se de uma sexualidade humana relacionada com o amor e a fidelidade. Não se pode acusar a Igreja de não lutar contra a sida e de não tratar dos doentes com sida – 25% dos doentes com sida em todo o mundo são tratados em instituições católicas. Por exemplo, em África, nos locais em que a população é maioritariamente católica a taxa de sida é proporcionalmente menor.

 

Fátima é um dos temas abordados no livro. O que nos pode dizer acerca da relação do Papa com Portugal?

Na verdade, nada! As homilias e os textos que o Papa escreveu para a visita a Portugal ‘electrificaram-me’. No fundo, temos de admitir que Ratzinger veio relativamente tarde a Fátima. Não como Papa, mas como cardeal. Havia como que a sensação que não era propriamente o seu mundo. É uma pessoa que é muito racional, ele próprio diz que não é um místico. Mas tenho também a sensação que nestes últimos dez anos, em especial depois de se ter tornado Papa, há algo que aconteceu nele em Fátima. A sua espiritualidade mudou. Aqui ele concretizou algo: pegou na mensagem de Fátima, trabalhou-a e disse que não era uma mensagem do passado, mas uma mensagem que ainda hoje é actual. Este pequeno capítulo entusiasma-me muito porque o Papa resume num ponto a nossa situação de crentes, da sociedade e do mundo. A mensagem de Fátima resume-se na fé, no amor, na esperança e na conversão. Sem isso, não há caminho. Bento XVI fala dos perigos que rodeiam a Igreja, que são as forças do mal e que para nós constituem um desafio. Tem de haver sempre um conjunto de justos para este mundo. Mas ainda é mais importante e mais forte a esperança que temos para o futuro deste mundo. Foi o que eu pessoalmente pude aprender ao longo desta conversa.

 

Porquê o título ‘Luz do Mundo’? Quem escolheu o título para o livro?

Este tipo de títulos tem sempre uma história. Na construção do título, nunca estamos sós. Num projecto desta natureza é importante levar o trabalho para a oração e a pessoa perceber que está acompanhada. Em termos editoriais, tinha sugerido este título há dez anos atrás e foi-me dito que era impossível publicar qualquer coisa com esse título, porque soava a algo de muito conservador, muito tradicional, com muito mofo. Mas nisto também se vê a mudança do tempo, porque agora quando propus disseram-me ‘fantástico’. As coisas ganham uma nova luz e a luz do mundo pode ser identificada de forma nova!

 

Para terminar, poderemos esperar um novo livro com base nas seis horas de entrevista?

Das seis horas ainda há material confidencial… que está no meu tesouro! Irei vender talvez por dois milhões de marcos! Estou a brincar! Quando só se tem seis horas, não se pode abdicar de nenhuma palavra, de nenhuma frase do Papa. Nesse sentido, não há mais material nenhum. 

 

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Peter Seewald pede a seminaristas para se tornarem lutadores por Cristo

Presente em Portugal para a apresentação do livro ‘Luz do Mundo’, o jornalista alemão Peter Seewald encontrou-se com os seminaristas no Seminário dos Olivais, em Lisboa. Aos futuros padres deixou um pedido: “Permaneçam féis. Permaneçam no caminho. Tornem-se lutadores por Cristo! Diz-se que as crianças são o nosso futuro, mas tenho também de dizer que os padres são o nosso futuro!”. Em encontro realizado no auditório do seminário, Seewald manifestou-se “contentíssimo” por estar em Lisboa. “Estou encantado com a cidade, mas constatei que ainda não se descobriu o que é o aquecimento em Portugal!”.

O reitor do Seminário dos Olivais, cónego Nuno Brás, agradeceu a presença e a disponibilidade de Peter Seewald para se encontrar com os seminaristas. “Agradecemos sobretudo o magnífico livro que nos ofereceu a todos!”, sublinhou, a terminar o encontro.

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