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Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo: ?João Paulo II era um padre a sério!?
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João Paulo II vai ser beatificado em Roma, no próximo dia 1 de Maio. À VOZ DA VERDADE, o Cardeal-Patriarca de Lisboa diz que a beatificação “é uma alegria para toda a Igreja” e sublinha que o antigo Papa polaco “merece esta exaltação”. Nesta entrevista, D. José Policarpo reconhece em Karol Wojtyla “um padre a sério”, “lutador”, “optimista” e com “um fino sentido de humor”.

O Papa Bento XVI aprovou o milagre que permite a beatificação do Papa João Paulo II, marcada para o próximo dia 1 de Maio. Qual o significado desta beatificação?

É uma alegria para todos nós. Lembro-me que, nas reuniões prévias ao Conclave que nomeou o Santo Padre actual, estávamos ainda a celebrar o funeral de João Paulo II e surgiu um slogan em Roma, naquela multidão imensa, que dizia ‘Santo subito’, ou seja, declarem-no rapidamente santo. Isso chegou a ter impacto dentro do Colégio Cardinalício, onde passou uma declaração a recolher as nossas assinaturas, alinhando com esse desejo da população para que se declarasse imediatamente a santidade de João Paulo II. No entanto, não era assim tão simples… havia um pormenor que era decisivo: é que a dispensa dos trâmites normais só o Papa o pode dar e naquela altura não havia Papa. Portanto, essa declaração ficou reduzida a um desejo de que não se atrasasse o processo. O Santo Padre Bento XVI dispensou desse timing – que segundo as regras actualmente em vigor, só apenas cinco anos após a morte da pessoa é que se pode introduzir um processo – e portanto não nos surpreende esta notícia.

Hoje mesmo recebemos um comunicado da Congregação para as Causas dos Santos, explicando em pormenor que todos os trâmites normais foram percorridos, quase a tranquilizar a Igreja de que não houve nenhuma excepção, não houve nenhum caminho, digamos assim, facilitado por ele ser quem era. Houve, portanto, a aprovação do milagre, mas parece que podiam haver muitos mais.

Eu não tenho dúvidas que se há personalidade que mereça esta exaltação e esta apresentação ao povo de Deus como modelo de fidelidade e de virtude é, sem dúvida nenhuma, o Santo Padre João Paulo II que nós – entre os quais eu – tivemos a felicidade de contactar pessoalmente, de poder tocar quase ao vivo o que agora vamos celebrar. Portanto, é uma festa da Igreja. Em si mesma, ela insere-se num ritmo normal da Igreja, que é proclamar a virtude heróica e a santidade de alguns dos seus filhos. O próprio João Paulo II está ainda muito no nosso coração e na nossa memória para que a gente não viva esta data com uma alegria muito particular.

 

Que características destaca do Papa João Paulo II?

Um lutador, optimista, com uma vontade implacável na defesa daquilo que ele achava que era o caminho. Com uma fé como eu nunca encontrei ninguém! Aquilo que nós em português costumamos dizer a brincar ‘uma fé de carvoeiro’. Enfim, foi um homem muito marcado pela sua vida pessoal, pelo sofrimento, pela ocupação nazi, pela fuga, por ter tido de trabalhar numa pedreira, de fazer um curso de seminário quase clandestino… mas, ao mesmo tempo, sendo capaz de fazer, durante esse período, coisas apostolicamente muito interessantes como os acampamentos para jovens, o acompanhamento de jovens namorados e de jovens casais. Era um padre a sério!

Intelectualmente era um homem formado pela filosofia, portanto era um filósofo. A primeira vez que o conheci pessoalmente foi exactamente numa conferência filosófica no centenário de São Tomás de Aquino. Na altura, ele era ainda um jovem cardeal. João Paulo II era um homem que tinha a atitude fundamental de pastor, que é o gosto e a paixão de se encontrar com as pessoas. O Papa só estava bem sozinho quando estava em oração, quando estava com Deus. De resto, de preferência estava sempre com as pessoas.

Comi à mesa do Papa umas quatro ou cinco vezes… e eu era um modesto bispo auxiliar. O Papa nunca comia sozinho, convidava sempre pessoas para a sua mesa, quebrando aliás o que eram os protocolos e a tradição da Casa Pontifícia. Era um homem que tinha um gosto pelas multidões, um gosto pelas pessoas e pelo diálogo pessoal.

Gostava de sublinhar em João Paulo II uma coisa que sempre apreciei muito, que era um fino sentido do humor. O humor de vez em quando ajuda a relativizar a dramaticidade dos problemas. E muitas vezes, quase inesperadamente, quando menos esperávamos, ele tinha sobre um problema uma battuta – como se diz em italiano, portanto uma expressão de um humor muito diferente do nosso humor latino, mas de grande finura e que lhe dava uma graça muito grande.

João Paulo II era um homem com muita coragem. A coragem dele nos últimos anos da vida, de aparecer em público com os limites que tinha… é preciso ter muito amor e muita fé no seu ministério para se sujeitar à humilhação humana a que ele se sujeitava aparecendo diante das multidões, já com os limites que a saúde lhe impunha.

 

A beatificação foi marcada para dia 1 de Maio, Domingo da Divina Misericórdia. É uma data que tem muito a ver com João Paulo II.

Tem a ver com uma coisa que ele tinha muito no coração, que é aquele santuário da Polónia, nos arredores de Cracóvia, chamado Santuário da Divina Misericórdia, a que está ligado uma santa particularmente querida dos polacos, Santa Faustina. É um santuário onde o Papa foi muitas vezes, como peregrino.

Nos lugares onde João Paulo II passou a sua vida, em Cracóvia, há três lugares principais: um deles é um convento de religiosas, com uma imagem muito venerada e onde se cruzam continuamente centenas e centenas de pessoas, que vão lá para rezar; outro era precisamente o Santuário da Divina Misericórdia, uma grande basílica, com construções modernas e grande capacidade de acolhimento; e finalmente a Casa Episcopal e a Catedral de Cracóvia.

Não me espantou nada que escolhessem essa data: não por ser o primeiro de Maio, mas por ser o II Domingo da Páscoa. O ser no primeiro de Maio até podia parecer que foi uma convergência com o Dia do Trabalhador – o que até era justo para ele, porque se houve pessoa que sentiu na carne o que era ser um proletário foi ele! – mas não foi por isso. É por ser o II Domingo da Páscoa, que foi exactamente proclamado por João Paulo II o dia da Divina Misericórdia.

 

Conta estar presente em Roma na beatificação de João Paulo II?

Penso que sim! Ainda não organizei a minha agenda, até porque essa vai ser uma semana complicada, mas gostava muito de estar presente.


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Reacções

“A data escolhida é muito significativa: será no II Domingo de Páscoa que ele mesmo dedicou à Divina Misericórdia, cuja vigília terminou a sua vida terrena. Todos os que o conheceram, todos os que o estimaram e amaram não podem deixar de se alegrar com a Igreja por este evento. Estamos felizes.”

Papa Bento XVI

 

“João Paulo II parecia santo ainda em vida. Os santos ou já são assim em vida ou nunca o serão. Manteve ao longo dos anos, e apesar das doenças e preocupações que o atingiam, uma frescura interior que o fazia dar resposta permanente a tudo quanto lhe era exigido.”

Joaquín Navarro-Valls, antigo porta-voz do Papa

 

“João Paulo II vai iluminar todo o mundo. Será um acontecimento extraordinário para a Igreja universal e para todo o mundo. Ele era muito amado não só pelos crentes mas pelo mundo inteiro. Vai-se cumprir o que queriam os fiéis que gritaram ‘Santo subito’.”

D. José Saraiva Martins, prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos

 

“Foi um homem de espírito aberto, colocou a Igreja mais em contacto com o mundo. O facto da existência do milagre é como que Deus a confirmar aquilo que a vida dele testemunhou durante tantos anos ao serviço da Igreja.”

D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

 

“Considero que é uma proposta de exemplo para a Igreja actual, de santidade e de determinação pelas grandes causas da humanidade. A forma como viveu e como morreu testemunham perante todos como é uma vida pautada por Deus.”

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa


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O milagre

O milagre reconhecido por Bento XVI como atribuído à intercessão de João Paulo II é a cura de uma religiosa francesa que sofria da doença de Parkinson. É o caso da irmã Marie Simon Pierre (na foto), cujo nome de baptismo é Marie-Pierre, da Congregação das Irmãzinhas das Maternidades Católicas, nascida em 1961, em Rumilly-en-Cambrésis.

Segundo o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato, “a doença foi diagnosticada em 2001, pelo médico que a atendia e por outros especialistas”. A religiosa recebeu os cuidados paliativos que, mais do que curá-la, apenas atenuavam parcialmente as dores. “Com a notícia do falecimento do Papa Karol Wojtyla, que sofria da mesma doença, a irmã Marie e as religiosas da congregação começaram a invocar o Pontífice para pedir a cura”, acrescentou o cardeal Amato.

“A 2 de Junho de 2005, cansada e oprimida pelas dores, a religiosa manifestou à superiora a sua intenção de renunciar ao trabalho profissional”, numa maternidade de Paris. “No entanto, a superiora convidou-a a confiar na intercessão de João Paulo II. Ao retirar-se, a irmã religiosa passou uma noite tranquila. Quando acordou, no dia seguinte, sentiu-se curada. As dores desapareceram e ela deixou de sentir a rigidez nas articulações. Era 3 de Junho de 2005, festa do Sagrado Coração de Jesus. A irmã Marie Simon Pierre “interrompeu imediatamente o tratamento e procurou o médico que a atendia, que não teve outra possibilidade a não ser constatar a cura”, conta o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

O postulador da causa de beatificação de Karol Wojtyla, o sacerdote polaco Slawomir Oder, explicou que o caso da irmã Marie Simon Pierre foi escolhido, entre muitos outros, por dois motivos: foi curada da doença sofrida pelo próprio Papa João Paulo II e, após a sua recuperação, foi capaz de continuar a entregar a sua vida, nas maternidades, à “batalha pela dignidade da vida”.

 

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Corpo de João Paulo II será trasladado

O corpo do Papa João Paulo II será trasladado da cripta vaticana para a Basílica de São Pedro. De acordo com a Santa Sé, o lugar escolhido é a capela de São Sebastião, sob o altar do Papa Inocêncio XI, situado à direita da basílica, entre a capela da Pietà, de Michelangelo, e a do Santíssimo Sacramento.

A trasladação da urna acontecerá sem exumação, pelo que o corpo de Karol Wojtyla não será exposto: ficará fechado pela lápide de mármore, onde se poderá ler ‘Beatus Ioannes Paulus II’.

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