Entrevistas |
D. Ildo Fortes, recém-nomeado Bispo de Mindelo: ?É urgente uma Nova Evangelização em Cabo Verde?
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Embora ainda não tenha escolhido o seu lema episcopal, o padre Ildo Fortes, nomeado recentemente pelo Papa Bento XVI para Bispo de Mindelo, em Cabo Verde, apresenta-se nas “mãos de Deus” nesta missão que recebeu e acolheu com surpresa. Em entrevista à VOZ DA VERDADE o novo bispo, escolhido de entre o clero de Lisboa, fala-nos das prioridades e das necessidades de uma jovem diocese em África.

Como acolheu esta nomeação do Santo Padre?

Logo que me chegou a decisão do Santo Padre fiquei muito perturbado. Passei dias de muito sofrimento, dúvidas, medos e intranquilidade, porque eu não desejava nem queria isso. Não foi fácil gerir esse discernimento e tentar sentir mais profundamente qual a vontade de Deus a meu respeito. Somente o sentido de obediência a Deus, através da Igreja, a fidelidade e o amor incondicional a Jesus Cristo, que se traduzem na disponibilidade para servir a Igreja como e onde Ele quiser, me fizeram aceitar esta nomeação. Eu tinha para comigo que este assunto já estaria encaminhado, mas não para o meu lado. Muitos meses atrás, pressentindo que tal hipótese poderia recair sobre mim (porque se falava muito, etc), escrevi a quem de direito (o Núncio Apostólico) dizendo que eu não estava disponível para essa função; explicando as muitas razões que eu sentia porque não: pessoais, humanas, eclesiais… Mas ao que parece a minha carta não chegou atempadamente onde devia chegar e não surtiu efeito. Assim, acolho esta nomeação com profunda humildade e em atitude de oblação, ao mesmo tempo que manifesto a minha gratidão à Igreja pela confiança que deposita em mim.

 

O que espera deste novo ministério?

Que posso esperar? Que seja o Senhor, o Bom Pastor, a conduzir a Igreja de Mindelo através deste seu servo que Ele escolheu, numa colaboração muito estreita com todo o presbitério e com o povo de Deus para o qual está ordenado e se orienta este ministério.

 

D. Ildo está destacado em Cabo Verde desde há alguns anos….

Sim, desde Dezembro de 2005 com o interregno de um ano pastoral (2007-2008) em que estive como pároco de Carcavelos.

 

Este tempo foi uma boa preparação para agora assumir esta missão?

Sim, obviamente! Não é a mesma coisa servir pastoralmente uma realidade desconhecida ou servir num meio que já conhecemos. Estes anos em Cabo Verde, permitiram-me conhecer de perto, trabalhar e criar uma amizade muito grande com os padres; conheço as congregações religiosas que estão na diocese e os anos como pároco permitiu-me estar mais por dentro do que é a vida e a fé desta gente.

 

Como se encontra a Igreja em Cabo Verde? E a diocese para onde foi nomeado?

A diocese de Mindelo vive uma graça muito grande que é o facto de ser uma diocese recém criada. Tem apenas 7 anos de existência, e isso resultou num grande despertar da fé e num grande dinamismo na vida pastoral das paróquias, grupos e movimentos. A diocese é jovem no tempo e nos seus membros. A falta de sacerdotes é uma dificuldade com que se debate ainda a diocese. Padres incardinados na Diocese são apenas dois, outros três que aqui trabalham, pertencem à diocese vizinha (Santiago), e outros dois são de fora (não se sabe qual será a sua situação futura). Quatros paróquias estão sob o cuidado pastoral dos Capuchinhos e temos alguns sacerdotes religiosos mas que não estão afectos à pastoral paroquial. A nossa esperança está num grupo de seminaristas que já encontra nos estudos de teologia em Lisboa e Évora. Daqui a dois anos, se perseverarem, começam a ser ordenados se Deus quiser.

Um desafio para a Igreja em Cabo Verde é fazer face ao fenómeno do secularismo que é crescente. Precisamos urgentemente de nos lançarmos numa Nova Evangelização e apresentar Jesus Cristo e a Igreja como Caminho, Verdade e Vida. As novas gerações já não comungam tanto dos valores tradicionais que radicavam no Evangelho e como tal perdeu-se muito o sentido da família, do respeito e da responsabilidade social, da justiça e da fraternidade. Muitos jovens sem o sentido do transcendente, vivem na ilusão e na evasão, o que os deixa ainda mais vazios e desorientados.

O índice de desemprego é muito elevado entre nós. Nas grandes cidades, como o Mindelo, onde a falta de ocupação é enorme (entre eles contam-se muitos jovens), muitas pessoas metem-se no álcool, na droga, envolvem-se em actividades inúteis e pouco edificantes, desestruturando as suas famílias, etc. A violência e a insegurança têm crescido sobremaneira nos últimos tempos. Tais questões sociais não podem deixar a Igreja ficar indiferente. Temos de encontrar maneira, junto com as outras forças da sociedade, de dar resposta a estas situações. Por outro lado, as seitas têm-se vindo a alastrar muito por estes lados; fazendo falsas e precárias promessas sobretudo junto das camadas mais pobres.

 

Quais vão ser as prioridades pastorais?

Ainda não parei para reflectir o suficiente. Mas uma prioridade das prioridades é ouvir o que os padres e os leigos mais empenhados na vida pastoral têm para dizer. Sinto-me chamado antes de mais a fomentar a comunhão entre todos aqueles que são os principais agentes da pastoral. Diria que o trabalho começa em casa. Também é sabido que não estamos a iniciar do zero. Nestes poucos anos da história da Diocese temos, juntamente com o Senhor Bispo D. Arlindo (Actualmente o Administrador Apostólico), reunido com os diversos organismos e secretariados diocesanos para reflectir sobre as prioridades, e têm saído sempre programas e projectos pastorais, aos quais vamos dar continuidade. Mas não será difícil concluir que as prioridades vão para o sector da pastoral da Evangelização, da família, da juventude e social.

 

Já escolheu o seu lema episcopal? E quanto à ordenação, já sabe quem o vai sagrar no 3º grau da ordem? Onde vai ser?

Lema?! Não tive tempo para pensar nisso, outras preocupações me ocupam de momento. Mas perante esta situação inesperada da minha nomeação fica-me a ecoar cá dentro algo como isto: «Nas mãos de Deus». A ordenação deverá ser no primeiro ou segundo domingo de Abril. Dada a minha história e ligação com o Patriarcado de Lisboa, convidei o Senhor Patriarca para a sagração, o que ele aceitou com muito gosto. Quanto ao lugar, ainda não é certo; Talvez para o bem deste povo ao qual fico ligado agora de uma maneira nova, poderá acontecer aqui no Mindelo. 

 

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O novo Bispo de Mindelo

D. Ildo Augusto dos Santos Lopes Fortes, nasceu a 13 de Dezembro de 1964 na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aos 11 anos, após completar o ensino primário naquela ilha veio para o arquipélago dos Açores, onde frequentou o Ciclo Preparatório e a Escola Secundária, até ao ano de 1980. Em Outubro de 1984, aos 19 anos, ingressa no Seminário de S. José de Caparide, do Patriarcado de Lisboa, onde vai permanecer apenas por um ano. Em 1985 segue para o Seminário de Almada, iniciando um ano depois os estudos teológicos na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, cuja licenciatura viria a concluir já no Seminário dos Olivais em 1991. A 29 de Junho de 1992 foi ordenado padre no Mosteiro dos Jerónimos.

Mestrado em Teologia Sistemática e com licenciatura canónica em Teologia Pastoral, D. Ildo Fortes apresentou no ano 2000 a tese sobre o tema «O Espírito Santo e a Igreja em S. Ireneu de Lião». Foi Assistente do então Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, pároco de S. João da Talha, Bobadela e Carcavelos, a sua última missão pastoral no continente português.

À Diocese do Mindelo chegou em 2005 com a responsabilidade da paróquia de S. Vicente até 2007, e depois de 2008 até ao presente ano. Foi membro do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, Assistente do Secretariado Diocesano da Catequese, Chanceler da Cúria Diocesana e membro do Conselho de Consultores da Diocese de Mindelo.

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