Entrevistas |
Cardeal Walter Kasper: ?A Europa Ocidental precisa de nova evangelização?
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O presidente emérito do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, cardeal Walter Kasper, esteve em Portugal para receber o doutoramentohonoris causa da Universidade Católica Portuguesa. Na sua passagem pelo nosso país falou à Rádio Renascença sobre o Egipto, o Médio Oriente, o cristianismo no Ocidente, o ecumenismo e a relação com a Igreja Anglicana.

Qual é o panorama actual do ecumenismo?

O ecumenismo está uma situação mais difícil que no início. Temos boas relações com os ortodoxos e com os ortodoxos orientais, que estão muito próximos de nós. Eles têm episcopado e sacramentos, mas há também problemas com os protestantes que estão agora mais divididos do que dantes, sobretudo por causa das questões éticas. Mas nós vamos avançando e penso que mesmo com os protestantes há muitas comunidades pequenas que praticam o ecumenismo espiritual e, para mim, isto é o coração, o fulcro do ecumenismo porque, como nós não podemos fazer a unidade da Igreja, a oração é central.

 

Como avalia o que se passa neste momento com os anglicanos?

Isso é desastroso. Tivemos grandes esperanças com os anglicanos, estivemos muito próximos, mas agora a ordenação das mulheres é um problema, a par dos problemas éticos. Eles mesmos estão divididos entre si. Eu tenho boas relações pessoais com o Arcebispo de Cantuária e com muitos outros mas, neste momento, não se vê como é que eles podem sair desta problemática. E isto afecta, também, o nosso diálogo com eles. Esperamos que possam encontrar uma solução, para depois podermos avançar no nosso diálogo.

 

Não será que alguns se podem sentir zangados com o facto de muitos anglicanos estarem a passar para a Igreja Católica?

Eu falei com o Arcebispo de Cantuária sobre este problema. Há cerca de duas semanas estive em Londres e ele disse-me que aceita estas decisões. No início sim, zangaram-se, mas acabaram por aceitar a liberdade de consciência. Porém, não serão assim tantos os que se tornam católicos, mas há alguns que não estão muito satisfeitos com a situação interna do anglicanismo.

 

Podemos considerar que há avanços positivos na relação com os ortodoxos, de modo a podermos ver, em breve, um encontro entre o Papa Bento XVI e o Patriarca de Moscovo?

Não consigo responder a essa pergunta, mas esperamos que haja um encontro! Nós queremo-lo, mas há certas hesitações do outro lado. Melhorámos muito as nossas relações, mas nas Igrejas Ortodoxas ainda há resistências internas daqueles que têm receio deste diálogo. Por isso, temos de ser pacientes.

 

Mas qual é a sua esperança?

Eu com os ortodoxos tenho enfrentado um pouco a esperança porque temos quase uma comunhão plena. Mas, na questão do primado do Papa, é que está o núcleo do problema para o qual se deve encontrar uma solução. Tal como o disse o Papa João Paulo II, é preciso perceber como exercitar o primado do Papa na relação com os ortodoxos. Não pode ser do mesmo modo como o Papa o faz na Igreja latina. É preciso encontrar um modo de conciliar o primado e a sinodalidade.

 

Conhece bem a situação na Terra Santa e também os problemas dos cristãos na zona do Médio Oriente. Não é por acaso que o Papa Bento XVI fala em cristianofobia...

Sim, este é um grande problema, sobretudo porque os jovens cristãos vão-se embora ao não verem um futuro para eles mesmos. Isto gera uma grande tristeza para todos nós porque, se vamos à Terra Santa em peregrinação não queremos ver apenas pedras mortas, queremos ver pedras vivas, queremos visitar também comunidades. Ao longo dos séculos, os cristãos sempre estiveram presentes na Terra Santa; agora, tornaram-se numa pequena minoria e isto é um problema, não apenas em Israel, mas também noutros países: é um problema de todo o Médio Oriente. Resta saber agora como se movem os muçulmanos, porque o que se tem passado por estes dias é um grande problema.

 

Como é que vê, neste momento, a situação no Egipto?

O povo quer a liberdade. No Egipto são muito pobres, por isso, percebe-se os seus problemas. Mas esperamos que não se instale a confusão e sobretudo que os extremistas islâmicos não tomem o poder. Se vier mais democracia, então estamos a favor e queremos ajudar, mas de momento a situação é muito difícil. Devemos sim encorajar os movimentos positivos e democráticos.

 

Muitos cristãos no Ocidente também se sentem marginalizados, mas de uma forma mais velada. O que tem a dizer aos cristãos do Ocidente?

Deve-se dizer aos cristãos que sejam mais corajosos! Dizer-lhes que a fé deve ser mais forte, também publicamente. Penso que existe um certo cansaço entre os cristãos do Ocidente. Devem despertar! Por isso precisamos de uma nova evangelização em toda a Europa Ocidental! É preciso haver um novo impulso!


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UCP atribui douramento honoris causa ao cardeal Kasper

O cardeal Walter Kasper recebeu das mãos do Magno Chanceler da Universidade Católica Portuguesa (UCP), D. José Policarpo, o doutoramento honoris causa, tendo como padrinho José Eduardo Borges de Pinho, docente da Faculdade de Teologia daquela universidade. O cardeal alemão, que já recebeu vários honoris causa, é professor honorário da Universidade alemã de Tubinga, membro de diversas academias científicas, congregações e conselhos pontifícios. Da sua obra escrita foram já publicados 12 dos 17 volumes previstos, intitulados ‘Colectânea de Escritos de Walter Kasper’.

Na mesma cerimónia foi ainda entregue o doutoramento honoris causa a António Barbosa de Melo, antigo presidente da Assembleia da República (1991-1995) e presidente da direcção da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa (2007-2010).

 

NRF 


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O ecumenismo não é político

“O ecumenismo não é uma invenção humana, não é uma questão ou um interesse político. O ecumenismo funda-se nas palavras do próprio Senhor”, afirmou o cardeal Walter Kasper na passada quinta-feira, 3 de Fevereiro, em Lisboa, numa conferência que proferiu na Universidade Católica Portuguesa. Nesta sua ‘Visão da unidade cristã para a próxima geração’, o presidente emérito do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos lembrou que ao longo dos séculos a Igreja tem procurado fazer “esforços para restaurar a unidade”, e que o Papa João Paulo II foi “o primeiro Papa da história da Igreja a escrever (em 1995) uma encíclica sobre o compromisso ecuménico, em que disse que toda a Igreja se empenhava irrevogavelmente em seguir o desafio ecuménico”.

“Não pode haver razão para duvidar da sua importância e da sua obrigatoriedade”, frisou o cardeal alemão aos presentes. Ao longo dos tempos a Igreja tem dado passos com as Igrejas do Oriente e do Ocidente, passos esses que “têm tido consequências concretas”, acentua, referindo outros casos de progresso na relação entre as Igrejas que o levam a concluir que “a paisagem ecuménica está a mudar muito depressa”.


NRF

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