Entrevistas |
Padre Joaquim Batalha, pároco de Ribamar (Lourinhã): ?Baptismo não é tradição ou acto social, é uma vida nova?
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A paróquia de Ribamar tem desde o passado mês de Fevereiro um baptistério primitivo. Em tempo de Quaresma, a nova fonte baptismal “recorda que este é um tempo de purificação e de renovação” e que pelo Baptismo o cristão se torna “imagem de Jesus”. Em entrevista à VOZ DA VERDADE, o padre Joaquim Batalha explica a simbologia deste novo baptistério.

A igreja paroquial de Ribamar (Lourinhã) tem desde o passado mês de Fevereiro uma nova fonte baptismal. Porque foi sentida a necessidade de construir este baptistério?

A pia baptismal que tínhamos naquele mesmo espaço tinha vindo da antiga igreja paroquial, em Santa Bárbara – uma vez que esta paróquia foi desmembrada de Santa Bárbara em 1986 –, e era uma pia simples, como vemos em tantas igrejas, mas que se estava a desfazer. A pedra estava a desmoronar-se. Havia por isso necessidade de a substituir. E como é que nasceu esta fonte baptismal? Nós temos na paróquia a Escola Paroquial e durante o Ano Paulino, em 2008-2009, ao estudarmos a Carta de São Paulo aos Romanos, o capuchinho frei Herculano apresentou-nos um baptistério primitivo. Eu fiquei encantado com o baptistério, porque a minha noção de Baptismo é exactamente uma fonte baptismal. Nós, na Igreja, dizemos ‘fonte baptismal’, mas depois aparece uma pia… havia sempre algum mal-estar em mim. Ao mesmo tempo, foram finalizadas as despesas da paróquia com o novo centro pastoral e sobrou-nos algum dinheiro. Por isso, lançámo-nos nesta obra! Tinha receio que a pessoas não aderissem muito a esta inovação, porque a imagem que as pessoas têm é a da pia baptismal e não de uma fonte baptismal. Entretanto, algumas pessoas da paróquia foram fazendo pesquisas sobre este tipo de baptistérios e decidimos avançar. E hoje creio que podemos dizer que é uma solução que surtiu bonita!

 

Esta é uma fonte baptismal que segue o modelo do baptistério primitivo. Que simbologia lhe está patente?

A simbologia tem a ver com a Igreja primitiva, em que o baptistério era uma piscina, relacionado com o que São Paulo nos diz no capítulo 6º da sua carta aos romanos: o cristão ao ser baptizado descia por umas escadas, mergulhava nas águas e saía por outras escadas. Foi essa a simbologia que me encantou! As escadas significam precisamente a descida ao abismo das águas e do túmulo, a sepultar o pecado, e uma vez vivificados, sobe-se por outras escadas para uma vida nova. Depois tem a simbologia dos degraus, que são sete, o número perfeito. O baptistério em forma de cruz corresponde à Cruz da Redenção, símbolo máximo do Mistério Pascal. A fonte foi instalada num dos braços da cruz e jorra do lado aberto do Coração de Cristo para os quatro cantos da Terra. À entrada da fonte tem uma palavra inscrita, PAX (paz), que é a primeira saudação de Cristo ressuscitado. O círio que está junto do baptistério é o símbolo de Cristo crucificado e ressuscitado, princípio e fim de todas as coisas, salvador do Homem e de todos os tempos.

 

Acredita que a inauguração e bênção desta nova fonte baptismal poderá levar a comunidade cristã a uma maior consciência de que “o Baptismo é o fundamento de toda a vida cristã”, como refere o Catecismo da Igreja Católica?

Eu tenho pregado sempre, mesmo sem a fonte baptismal, sobre a importância do Baptismo. Agora reforcei isso mesmo porque fiz várias catequeses à comunidade sobre o Baptismo. Até para compreenderem a mudança e não serem apanhados de surpresa com uma peça nova, sem explicação. Fui preparando a comunidade, por um lado para a inovação, por outro para o sentido da inovação e para a simbologia desta fonte baptismal. Fui falando muito em ‘fonte’ e pouco em pia baptismal. Acredito que a assembleia, hoje, tem uma maior compreensão do sentido baptismal. Acredito que aqueles que ouviram a explicação e vivenciaram a bênção baptismal – que foi feita com o Baptismo da pequena Beatriz – têm uma maior compreensão do Baptismo como uma fonte onde bebemos uma vida nova.

Muitas das pessoas que vêm baptizar os filhos fazem-no por tradição e como um acto social. A tradição em si é boa… o acto social já não é tão bom. Porquê? Porque fazem disso uma festa e condicionam muitas vezes o Baptismo à capacidade de poder fazer ou não fazer uma festa. E nesse sentido, é pena… porque estão a condicionar uma coisa que tem uma riqueza imensa, independentemente da festa ou não. E a festa pode ser menor, que não deixa de ser uma festa significativa. Eu entendo por tradição a entrega da fé de uma geração à outra. Nas preparações que faço percebo que as pessoas – apesar das suas ignorâncias – têm um sentimento de fé. Ou seja, aquilo que receberam como um dom da fé, devem transmiti-lo aos filhos.

 

Num texto por ocasião da bênção da nova fonte baptismal, o padre Batalha escreveu: “O baptismo é a entrada na Escola de Deus. Como não é a inscrição na Escola que nos garante o diploma, também não é a certidão do Baptismo que nos garante a Salvação”. Ou seja, o Baptismo é apenas o início de uma grande caminhada…

Nós temos na paróquia de Ribamar a Escola Paroquial e eu associei uma coisa à outra: ao receber o Baptismo, eu entro para um caminho, que é Jesus Cristo. E Ele é o meu mestre. Se Ele é o meu mestre, eu entro na escola d’Ele. E sou discípulo. O Baptismo insere-nos nesta Escola de Deus, de que Jesus é o mestre e nós os discípulos. Assim como a inscrição não garante um diploma, também o baptismo não dá direito à Salvação… por isso o Baptismo é o início de uma grande caminhada!

 

A Mensagem do Papa para a Quaresma centra-se precisamente no caminho de descoberta do Baptismo. De que forma isso poderá ser feito pelas comunidades cristãs? Que trabalho tem sido desenvolvido em Ribamar a este nível?

A caminhada pascal que se inicia com a Quarta-feira de Cinzas e termina no Pentecostes – ou seja, são 40 dias, mais 50 – tem uma dimensão catecumenal especialmente dedicada às pessoas que se preparam para receber o Baptismo na Vigília Pascal. Mas também tem uma caminhada de renovação cristã dos baptizados, que mesmo sendo baptizados não ganharam a plenitude da perfeição. Precisamos de permanente renovação! O tempo da Quaresma é exactamente um tempo penitencial, no sentido de mudança de vida, de limpeza da ‘ferrugem’ que fomos adquirindo com o nosso pecado. Portanto, é a purificação, é a renovação, é a preparação para renovarmos os nossos compromissos baptismais na Vigila Pascal e no Dia de Páscoa, especialmente.

Em Ribamar, em cada ano temos uma campanha especial. Este ano a campanha abrange a comunidade dominical, as crianças da catequese e os grupos da pastoral juvenil, e tem como lema ‘Firma os teus passos. Afirma a tua fé’. Baseado na liturgia, especialmente no Evangelho, em cada Domingo sublinho e apelo às pessoas para cultivarem na semana uma atitude especial que a liturgia nos acentua. A caminhada é esta, no sentido de nos purificarmos e de nos afeiçoarmos, cada vez mais, a Jesus. Pelo Baptismo, nós tornámo-nos imagens de Jesus. Esta imagem não é perfeita em nós, pelo que o tempo da Quaresma é para a purificar, para a renovar, para a embelezar, para a enobrecer, em cada um de nós. A Igreja celebra a Páscoa cristã, não é apenas a Páscoa de Jesus há dois mil anos. Sem dúvida que é um memorial, mas é um memorial que é actualizado e se torna presente em nós, hoje!

 

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Perfil

O padre Joaquim Batalha nasceu e foi baptizado em Mafra. Ordenado em 1964, esteve como coadjutor durante dois anos na paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, e depois pároco de Vila Chã de Ourique e Almoster, no Ribatejo, quando ainda pertencia à Diocese de Lisboa. Seis anos mais tarde, o Cardeal Cerejeira nomeia o padre Batalha assistente diocesano da Acção Católica Rural, onde se mantém até hoje, apenas com uma interrupção por cinco anos.

Juntamente com uma equipa sacerdotal, em meados da década de 70, o padre Joaquim Batalha vai para uma zona no alto do concelho de Alenquer, na Aldeia Galega da Merceana, onde fica 14 anos. Seguiu-se a Lourinhã, em 1989, onde ficou até 2005, ano em que chegou a Ribamar e Santa Bárbara da Marquiteira.

A caminho de fazer 74 anos, o padre Batalha é ainda responsável pela Fundação João XXIII – Casa do Oeste.

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