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Cónego Francisco Crespo, director do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa: Diocese quer criar uma caridade inclusiva
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O Patriarcado de Lisboa deseja encontrar ‘olheiros’ em cada paróquia que detectem casos de pobreza e criar um responsável vicarial que seja dinamizador da pastoral social nas vigararias. À VOZ DA VERDADE, o director do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa, cónego Francisco Crespo, fala do desejo em envolver toda a comunidade cristã na pastoral da caridade.

O Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa organizou, no passado dia 1 de Abril, no Turcifal, um encontro sobre ‘A Lógica do Dom – Caminho Cristão para as Instituições Sociais’. Qual foi o objectivo desta reunião?

Este encontro já constava do Programa Diocesano, integrado no Ano Europeu do Voluntariado. Contudo, alterámos o programa do encontro porque começaram a surgir várias situações que nos preocupavam. Em primeiro lugar, a situação de crise que lançou algumas interrogações quanto à sustentabilidade das instituições. Alguns dirigentes começam a interrogar-se sobre se não deviam fechar as instituições. Para maior calma, maior tranquilidade. Outros, sabemos que conservam as instituições mas sem grande entusiasmo no trabalho e muitas vezes sentem-se até forçados a mantê-las. E depois há alguns, poucos, que ainda têm aquele sonho de grandes investimentos, extravagantes, de fazerem grandes obras impossíveis neste momento de efectuar. Em segundo lugar, há as dúvidas em relação ao contributo do Estado, que não aumenta os apoios há mais de dois anos: os protocolos que foram assinados não agradaram às instituições uma vez que vieram ofuscar ainda mais o panorama – em determinados apoios, sobretudo referentes aos idosos, os protocolos não são claros –; as excessivas intervenções estatais dentro das instituições, através de inspecções, fiscalizações; a dificuldade em rever os acordos de cooperação das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) sobretudo com o Centro Regional de Segurança Social. Em terceiro lugar, o senhor Patriarca pediu ao senhor D. Carlos Azevedo que reestruturasse o Departamento da Pastoral Social de Lisboa. É um esquema que em breve irá ser publicado. Ao mesmo tempo, foi lançado um inquérito às instituições, que foi respondido muito positivamente por 55%, e as respostas estão agora a ser analisadas. Por tudo isto, optámos por reflectir sobre o ‘Caminho Cristão para as Instituições Sociais’.

 

Perante o desânimo de alguns responsáveis das instituições, que mensagem deixou o Cardeal-Patriarca neste encontro?

O senhor Patriarca deu-nos um sinal de esperança! Não nos disse ‘Fechem as portas’, ‘Acabemos’, ‘Não vamos mais para a frente’. Não! Convidou-nos a não nos deixarmos subjugar pelo Estado, que tem a obrigação de ser parceiro e não dono, nem patrão. Em vista de uma previsão futura de uma demasiada estatização, disse-nos que se for necessário temos de fazer opções sobre as valências a manter. “As nossas instituições encontram-se numa posição sensível e na impossibilidade da Igreja praticar a caridade pelos seus próprios meios, temos de reequacionar esta articulação”, sublinhou o senhor D. José Policarpo. Acredito que temos de optar por aquelas valências que o Estado não pega nem nunca pegará, como é o caso dos deficientes e dos idosos, nas suas várias valências como o centro de dia ou o apoio domiciliário. Foi um discurso baseado nas palavras do Papa em Fátima durante o encontro com a Pastoral Social, mas aplicado à nossa Diocese de Lisboa.

 

‘Caminho de futuro para a acção social das comunidades cristãs’ foi o tema apresentado por D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social. Que palavras deixou às instituições?

O senhor D. Carlos Azevedo teve uma intervenção onde reforçou a identidade da pastoral da caridade: a caridade como gratuidade, como partilha de bens, transparência da verdade, acolhimento sem medida! Lembrou-nos que os centros sociais não esgotam toda a acção social da Igreja, apenas representam as respostas sociais em confluência com o Estado. Falou também da promoção dos direitos sociais dos cidadãos, na erradicação da pobreza, na promoção da inclusão social, no apoio a famílias, crianças e jovens, no apoio à integração social, na educação e formação profissional, na protecção na velhice.

Na sua intervenção, o senhor D. Carlos sublinhou de uma maneira particular a presença do padre como o animador espiritual junto dos seus colaboradores. No fundo, para não haver o que ainda existe na mentalidade de muitos padres: que a pastoral social não tem nada a ver com eles. Dizem que têm responsabilidades na liturgia, na evangelização, na catequese, mas que o resto é com os técnicos… esta é a grande ruptura e a grande problemática que existe e que é preciso cortar de uma vez por todas. Portanto, o padre é responsável, é pastor, é cabeça, é animador da acção sócio-caritativa na sua comunidade.

 

E em relação às paróquias?

Temos que olhar a realidade e o contexto grave em que nos encontramos. Cada paróquia deve fazer o seu diagnóstico e levantar os seus problemas sociais. Devem sentir as necessidades emergentes. Foi muito interessante o desafio que D. Carlos Azevedo nos lançou: ter pessoas nas várias regiões da paróquia que funcionem como que ‘antenas’ das situações para levar ao grupo coordenador da pastoral social aquilo que existe, sejam pessoas em solidão, idosos, doentes, crianças abandonadas. Fazer com que haja ‘olheiros’ dentro da própria paróquia, que ajudem a detectar esses casos, que depois serão discutidos, rezados e, na medida dos possíveis, ajudados. Para isto, a paróquia tem de ter meios humanos e materiais disponíveis, um grupo de acção social que integre os centros sociais paroquiais, a Cáritas, os vicentinos, a Legião de Maria e todos os outros grupos específicos dessa localidade. Na sua intervenção, o senhor D. Carlos convidou também a promover parcerias e a aumentar a entreajuda entre paróquias vizinhas, não só material mas também humana.

 

Mas como será possível desenvolver todo este trabalho? Qual a estratégia a empreender?

Para dar resposta à situação analisada, segundo D. Carlos Azevedo, a Igreja tem de implicar toda a comunidade cristã. As comunidades devem envolver os centros sociais paroquiais, que por sua vez são chamados a ser a expressão da diaconia da caridade. Os leigos devem também assumir com profissionalismo e competência a solidariedade cristã. As instituições devem pautar-se pela inovação e rever valências, privilegiar o empreendedorismo social, o desenvolvimento local e a reforma do conceito de empresa, privilegiar o apoio domiciliário, sinalizar as situações e criar grupos de visitadores de pessoas doentes. Dar assistência à vizinhança, como sinal de fraternidade, gerar apoio e criar planos estratégicos. Há ainda que proceder a uma gestão séria e eficaz dos poucos recursos que temos para servir a pessoa e a integridade do ser humano, sermos engenhosos e criativos na busca dos meios. As instituições devem também valorizar o voluntariado, como expressão de uma nova consciência social.

Toda esta acção tem de ser desenvolvida pelas vigararias do Patriarcado. É muito importante que nas vigararias haja encontros para partilha de boas práticas, mas também de pessoas e meios. O Patriarcado de Lisboa tem 15 Vigararias e o nosso objectivo é fazer com que cada vigararia tenha uma pessoa que seja o responsável e dinamizador da pastoral social, que congregue os outros. Na medida dos possíveis, o ideal é que seja um leigo, esteja ou não ligado a um centro. Certamente que em cada vigararia há pessoas com o perfil ideal para esta dinâmica, que sejam capazes de congregar todos aqueles que trabalham na área social da vigararia.

Finalmente, está prevista na reestruturação do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa criar um Conselho Consultivo que possa visitar in loco os centros sociais paroquiais. Ao nível da formação, o departamento propõe, em parceria com o Instituto Diocesano da Formação Cristã, mas também com a Universidade Católica, a Cáritas e a FITI (Federação das Instituições de Terceira Idade), formar não somente os trabalhadores, funcionários e dirigentes dos centros, mas também todos os que estão integrados no campo da caridade.

É desejo do senhor Patriarca, e foi também sublinhado por D. Carlos Azevedo, que as paróquias não descansem no centro social paroquial. É desejo da diocese que os centros sociais paroquiais integrem todas as forças vivas da comunidade e a comunidade esteja de facto integrada no centro. Posso dizer com alegria e orgulho que o meu centro social paroquial é essa expressão [o cónego Crespo é também pároco de São Vicente de Paulo, no Bairro da Serafina, em Lisboa]. As pessoas que trabalham no centro são as mesmas que estão na liturgia, na catequese, na animação dos jovens, etc.

 

O projecto ‘Igreja Solidária’ vai cumprir o segundo aniversário. Que balanço faz desta iniciativa?

O projecto da ‘Igreja Solidária’ tem sido bastante positivo. Acompanhámos 86 pedidos, dos quais o grupo coordenador aprovou 69. Mesmo sem grande propaganda – que não temos feito – temos uma boa entrada. Até agora, apoiámos pessoas e instituições com 121 mil euros e ainda temos mais de 50 mil euros em depósito. Ou seja, as pessoas têm feito a sua doação e nós temos ajudado sobretudo as famílias carenciadas. Acredito que é um projecto para continuar!

 

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Projecto ‘Igreja Solidária’

Av. Sidónio Pais, nº20 – 5º Dto.

1050-215 Lisboa

Telefone: 213573386

E-mail: info@igrejasolidaria.org

Site: www.igrejasolidaria.org

NIB: 0007 0000 0073 8184 5512 3

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