Entrevistas |
José Victor Adragão, do Evangelho Quotidiano: Os missionários em frente do computador
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Gostaria de receber diariamente no seu e-mail o Evangelho do dia? O Evangelho Quotidiano (www.evangelhoquotidiano.org), que este ano cumpre o décimo aniversário, oferece essa possibilidade. À VOZ DA VERDADE, José Victor Adragão, o responsável português pelo projecto, conta como a Igreja vai apostando nas novas tecnologias para difundir a Palavra de Deus.

 

Como surge o projecto Evangelho Quotidiano (EQ)?

O projecto nasce a partir da ideia de dois jovens que mal se conheciam. Na altura, um tinha 26 e o outro 28 anos. Ambos tinham em comum o facto de serem chefes de escuteiros e, embora um residisse em Paris e outro em Estrasburgo, tinham a ideia de enviar aos seus amigos, por correio electrónico, o Evangelho do dia. Foi assim que começou, para um universo de cerca 50 pessoas. Neste momento estamos a trabalhar com 10 línguas, com cerca de 500 mil inscritos e com uma série de pessoas que não temos a possibilidade de controlar, porque provêm de páginas de muitas instituições que nos pediram para colocar o acesso directo (link) no site. Recentemente introduzimos o acesso por telemóvel e por isso também não temos o controlo de quantos acedem por este meio. Além dos que recebem o Evangelho do dia por correio electrónico, há também os utilizadores que acedem ao site (www.evangelizo.org).

 

Como é que aparece a versão portuguesa do Evangelho Quotidiano?

(risos) Eu comecei por receber o correio em francês, o que aconteceu durante alguns meses. Mas não foi por muito tempo, porque a versão portuguesa é das mais antigas. Aliás, a versão portuguesa e a espanhola são as mais antigas, imediatamente a seguir à versão original em francês.

Mas, certo dia, recebi uma informação que dava conta da intenção de passar a publicar o EQ em português. Manifestei-me interessado e comecei a receber em língua portuguesa. Mas era tão mau, tão mau, que eu disse: ‘Desistam! Mais vale enviar em francês do que nesta língua que não é nada’. Foi então que me fizeram a proposta de entrar na equipa, responsabilizando-me pela versão portuguesa. O correio em português começou, então, de uma forma muito gradual, apenas com o Evangelho. A seguir entraram as leituras e só depois começaram a aparecer os comentários e os santos. Durante cinco anos o Evangelho Quotidiano em português era assegurado apenas por mim! Neste momento tenho uma equipa que trabalha comigo: desde os tradutores, aos que trabalham o tema da vida dos santos. No entanto, sou eu que respondo às mensagens de pessoas que pedem informações, conselhos, orações, sugestões e até fazem críticas.

 

Dessa forma vão tendo ecos de quem recebe o EQ?

Sim, vamos sabendo que temos leitores da versão portuguesa não só em Portugal mas também na Austrália, na Califórnia… No Brasil são muitos e há também muitos espalhados pela Europa. Há, inclusive, gente que usa o Evangelho Quotidiano para aprender línguas. Depois, entre os que nos escrevem, há alguns que nos dão um prazer especial. Penso concretamente em missionários que estão em lugares onde não tem acessos fáceis e, por isso, utilizam o Evangelho Quotidiano para o seu alimento espiritual. Temos bispos que nos dizem utilizar os comentários como instrumento de preparação de homilias, e até pessoas que fazem teses de doutoramento e nos pedem informações sobre determinados santos.

 

Sente que esta possibilidade de receber, no correio electrónico, o Evangelho de cada dia vem ajudar a uma maior aproximação da Palavra de Deus?

Estou convencido que sim porque é esse o nosso objectivo. E percebo muitas vezes, pela correspondência que nos chega, que as pessoa utilizam a Palavra de Deus como verdadeiro alimento e comunicam isso de forma muito simpática, o que nos dá força para continuar.

 

De que forma se procede este envio de correio?

Neste momento estamos a enviar correio em cinco ondas horárias. Não se envia ao mesmo tempo para o mundo inteiro. Começamos pela Ásia, depois a Europa com África, depois a América de Leste e por fim América de Oeste. É assim devido aos fusos horários, para que chegue a todos por volta da meia-noite. Mas temos aquelas pessoas que pedem para receber mais cedo e para isso trocamos os fusos horários.

 

Ultimamente têm surgido novas plataformas tecnológicas. Tem havido a preocupação de ir acompanhando esse desenvolvimento?

Sim, neste momento já possível aceder ao Evangelho Quotidiano pelo telemóvel, temos também uma modalidade para amblíopes, em que aparecem as letras muito grandes nos ecrãs, e estamos a trabalhar o som, por causa dos cegos, para que tenham acesso ao som do Evangelho e não apenas ao texto.

 

Quantos são os leitores de língua portuguesa do EQ?

Neste momento, está muito próximo dos 100 mil leitores. E é curioso que temos andado sempre muito próximo dos vinte por cento da totalidade de utilizadores do EQ no mundo inteiro.

 

Recentemente, e a propósito dos 10 anos deste projecto, a equipa do EQ esteve reunida em Roma. Como foi este encontro?

Normalmente reunimo-nos de 18 em 18 meses, num mosteiro, e durante três dias partilhamos tempo de trabalho técnico e tempo de oração e meditação em torno do tema da Palavra de Deus. Os encontros têm acontecido em França: já estivemos em dois mosteiros da Normandia e em Estrasburgo. Desta vez estivemos em Roma para um encontro de festa. Levámos as equipas inteiras, não apenas os coordenadores linguísticos, e fomos inclusivamente recebidos pelo Papa, que nos acolheu muito bem!

 

Após estes 10 anos de serviço, que balanço faz do trabalho realizado?

Por um lado, o EQ tem-nos dado a noção de que estamos ao serviço da Palavra utilizando métodos que há 20 anos eram impensáveis. Há 10 anos atrás, não pensávamos que o projecto se desenvolvesse tanto! Para nós, é importante porque, no fundo, o apelo ‘ide anunciar a Boa Nova’ é aqui posto em prática. Sentimos que somos missionários em frente do computador. Por outro lado, isso gera, entre nós, uma fraternidade crescente muito interessante. Ainda quando estivemos em Roma percebemos que nós, os arménios, os libaneses, os alemães, estamos todos metidos na mesma ‘empresa’ a trabalhar com o mesmo objectivo, numa grande unidade. Mesmo quando não concordamos uns com os outros. Depois verificamos que da parte dos nossos leitores, mais do que uma receptividade, há quase uma interlocução real. Há também uma colaboração dos nossos leitores na construção deste serviço.

 

Disse que foram recebidos pelo Santo Padre. O EQ tem tido sido acompanhado pela Santa Sé?

Sim, desde que começámos temos tido uma relação muito próxima com o Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais. Porque nós temos uma penetração importante no espaço das igrejas orientais e, em relação aos comentários que publicamos, temos o cuidado em apresentar comentários que sejam intocáveis. Por vezes temos propostas de introduzir algum pensador ou santo canonizado pelos orientais mas normalmente só o fazemos depois de autorização do Vaticano. Normalmente autorizam-nos mas aconselham-nos a não referir como ‘santo’. Por outro lado, temos também a preocupação de que a Igreja institucional de cada país nos conheça e saiba que nós existimos.

 

Há projectos ainda para o Evangelho Quotidiano?

Há projectos para mais línguas. Neste momento estamos a preparar o coreano e o vietnamita. Gostaríamos muito de entrar na Rússia mas ainda não foi possível. Na Europa há uma proposta, que vem do Vaticano, de escolher uma língua escandinava e de tentar entrar por essa zona. Provavelmente será o sueco, porque tem mais habitantes e acaba por ser uma língua mais veiculada. O esperanto também é uma possibilidade porque, por esta língua, conseguiríamos entrar na Rússia, onde pouca gente sabe inglês, mas muitos sabem esperanto. Quanto a técnicas, queremos continuar a desenvolver as novas tecnologias que vão aparecendo.

 

Está previsto uma versão para o Ipad?

Sim está, e estamos a pensar, também, nas redes sociais. Estamos a ver até que ponto podemos tirar algum partido das redes sociais. Em Outubro vamos ter uma reunião e vamos reflectir sobre isso. Tentar ver quais as potencialidades que vão surgindo.

 

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Perfil

Responsável português pelo Evangelho Quotidiano, José Victor Adragão foi docente de Linguística no Ensino Superior e coordenador de vários projectos de cooperação e formação de professores. Actualmente, é responsável pela Fidesco-Portugal, uma ONG católica que recruta, forma e envia profissionais como missionários para países pobres, e é também membro da Comunidade Emanuel.

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