Entrevistas |
Paróquia de Queijas
Atentos aos novos rostos de Deus
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A paróquia de Queijas está a celebrar 25 anos de dedicação da Igreja de São Miguel Arcanjo. Pároco desde há dez anos, o padre Alexandre Santos, Sacerdote do Coração de Jesus (SCJ), aposta na dimensão social, no ir ao encontro de quem precisa e na formação. “São as novas formas de evangelizar”, diz em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Está desde há dez anos na paróquia de Queijas. Quais são, nesta altura, os principais desafios desta comunidade cristã?

O grande desafio é sermos as ‘Pedras Vivas do Templo do Senhor’, como nos propunha o nosso Patriarca nas suas palavras, na celebração em que assinalávamos os 25 anos de dedicação da igreja paroquial. Esse é o primeiro grande desafio. Estamos a celebrar neste espírito de alegria, oração e acção de graças, mas outros desafios se abeiram: o estar junto das pessoas, apoiá-las naquilo que elas precisam; estar junto das crianças, na animação da fé, na transmissão dos valores de Jesus Cristo; estar junto da juventude, dos mais velhos...

Vivemos um momento difícil e a paróquia e o centro social têm as portas abertas e procuram ajudar todos. Por isso, o grande desafio é colaborar nesta consolidação do anúncio e do testemunho da Palavra do Senhor. Porque, se é verdade que o edifício está construído, mais difícil é construir o edifício espiritual, de fé, dos valores em que pautamos a nossa vida. E esse demora muito tempo a ser edificado. Mas não devemos baixar os braços e partir para a proposta... porque o Evangelho é uma proposta para todos! Temos de propor esses valores em que acreditamos, com alegria, com o nosso testemunho, com a nossa vivencia e não só com a Palavra. A Palavra move, mas as atitudes comovem e interagem.

 

Como podemos caracterizar a freguesia de Queijas e de que forma a paróquia vai respondendo às necessidades sociais?

A paróquia de Queijas situa-se num dos bairros periféricos de Lisboa. É um dormitório circunvizinho à grande Lisboa. E se é verdade que temos aqui várias empresas implantadas, pequenas empresas… se é verdade que a população residente se situa numa camada social média, nunca imaginei ver pessoas que se aproximam da nossa instituição a pedir apoio e ajuda, que num passado viviam de uma forma desafogada. É a tal ‘pobreza envergonhada’, e a paróquia procura colaborar e ajudar. Canalizamos o nosso apoio através de alimentos, de apoio psicológico, de parcerias e também através de voluntariado. Mas hoje estamos a viver momentos difíceis e surpreendentes. O que está a acontecer aqui acontece em todo o país. Mas a Igreja está receptiva e aberta a este apoio primeiro da dimensão humana e dimensão sócio-caritativa.

 

Tendo em conta as dificuldades que existem e que afectam também as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), como é que a paróquia consegue encontrar meios para responder a essas necessidades?

É o banco do Espírito Santo. Nós temos de ser homens e mulheres de esperança! Se falta a esperança aos homens da Igreja, então significa que está tudo em bancarrota e torna-se algo muito grave para todos. Deus nunca nos abandona e é bom que se perceba isso. E esta constante de Deus na vida dos homens, deve ser partilhada. É muito curioso que quando, por vezes, nos batem à porta a pedir, também nos batem à porta para oferecer. E eu tenho assistido a vários gestos desses, de pessoas atentas aos sinais e que querem também partilhar. No entanto, mais do que partilhar dinheiro, há a partilha dos bens de primeira necessidade. Na instituição temos cerca de 40 funcionários e muitos deles são os primeiros a pedir e a ter necessidades. E nós também temos de colaborar com eles. A caridade tem rostos e é necessário ir ao encontro deles. Para lá do pão e do alimento é preciso ir ao encontro destas situações que no passado não eram tão frequentes. Esta sensibilidade e atenção aos outros faz parte do nosso código genético de ser português e a dimensão cristã leva-nos a estar duplamente atentos a estes casos e ajudar. São os rostos de Deus, os novos Cristos que temos de acolher.

 

Para além desta dimensão social, quais são as outras prioridades pastorais na paróquia de Queijas?

É a formação, a formação e a formação! Por vezes sou interpelado por catequistas que me dizem: ‘Padre Alexandre, é preciso dar catequese aos adultos, porque lança-se a semente nas crianças mas depois não cresce porque os pais também são um terreno pedregoso, não propício a que a semente desabroche e cresça’. Infelizmente, isto é verdade! Por isso, a formação, o anúncio e o testemunho são as prioridades! Assim, de forma a ir ao encontro destas provocações arrancámos com a catequese de adultos, renovando-a. À segunda-feira temos lectio divina e formação bíblica para preparar e reflectir sobre a Palavra de Deus. Aproveitamos os Sacramentos, sobretudo o Baptismo, para dar formação àqueles que nos procuram para baptizar os filhos. A maior parte das vezes sabemos que é ‘apenas’ para a fotografia e a assinatura, mas essa é uma oportunidade para anunciar a Palavra e fomentar neles a fome de Deus. Nestes 25 anos que agora celebramos, louvamos Deus por tanta coisa boa que o Senhor fez germinar e crescer. É agradável ver que vale sempre a pena semear. Por isso, a formação e o anúncio são uma grande aposta!

Temos, também, na paróquia um número grande de crianças na catequese (cerca de 400 crianças) e desses meninos criou-se um grupo coral que anima a celebração eucarística quinzenalmente. Através deles, nós chegámos aos pais. Isso é uma aventura que valeu a pena e está a dar os seus frutos. Temos ainda um grupo de jovens, muito dinâmico, que veio muito inflamado pela alegria e pela mensagem do Papa em Madrid. É um grupo que marca a sua presença na catequese, no coro dos jovens, na animação da liturgia, na presença dominical. Não podemos, no entanto, dizer que estamos satisfeitos porque há sempre mais a fazer, mas sinto-me agraciado por Deus. A obra é d’Ele e nós somos meros intermediários. Por isso, sinto-me feliz nesta comunidade que procuro servir com o que sou e os dons que Deus me deu.

 

Daqui a um ano vamos ter o Sínodo sobre a Nova Evangelização. No seu entender, e da sua experiência pastoral, como se faz esta Nova Evangelização?

Eu não sei se a evangelização é nova nos métodos ou nas estratégias, porque ela é a Palavra do Senhor, é o anúncio! Mas temos de recriar formas de fazer chegar a sua Palavra às pessoas. Temos de ser novos nisso. Temos que ir às pessoas, ao encontro delas, e não ter medo de dizer o tesouro que temos. Não ter medo de lhe propor essa maravilha do anúncio. Não ter medo e ser directo nessa mesma proposta. Eu acho que enquanto ficarmos fechados e à espera que venham ter connosco, não estamos a colaborar nessa evangelização. A forma de evangelização do passado produziu os seus frutos e nós continuamos a viver dessa estratégia do passado.

 

Então, o que faz falta hoje?

A dificuldade é encontrar essas formas novas de anunciar e de trazer as pessoas. Parece-me que há um grande défice de formação religiosa nas pessoas. Enquanto não formarmos e não anunciarmos, esse défice permanece. Eu não posso dar um copo de água a beber a quem não tem sede. Se a pessoa não tem sede é inútil dar-lhe água. É necessário, por isso, provocar a sede nas pessoas que estão afastadas da comunidade, da Igreja. É preciso o testemunho, o viver o anúncio, o estar com eles, o ir ao encontro. Só assim a evangelização será nova! E a Igreja tem que repensar um bocadinho as formas desse mesmo anúncio. Por exemplo, o ICNE (Congresso Internacional para a Nova Evangelização) em Lisboa foi uma tarefa arrojada, que terá contagiado as comunidades paroquiais. Mas passados seis anos o que ficou do ICNE? Soubemos aproveitar a onda do ICNE para renovar e para evangelizar? As actividades que se fizeram terão ficado muito circunscritas ao momento e não teremos sabido aproveitar...

Por isso, a Nova Evangelização continua a ser uma provocação para todos nós, e todos fazemos parte desse projecto. "Temos que ir ao povo", dizia o padre Dehon no final do século XIX. E é curioso como passados tantos anos estas palavras ressoam como algo de novo. É preciso ir ao encontro do outro, sem ter medo, com a nossa alegria e o nosso testemunho. Porque Deus favorece as oportunidades e nós não devemos desperdiçá-las.

 

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Perfil: o milagre de um ‘Sim’

O padre Alexandre Francisco Ferreira dos Santos nasceu na freguesia do Olival, em Vila Nova de Gaia, em 1960. Quando tinha 10 anos, a esolca onde andava recebeu a visita do fundador da Província Portuguesa dos Padres Dehonianos, padre Angelo Colombo. Neste encontro, o pequeno Alexandre deu o seu nome para participar num estágio vocacional. Dos vinte rapazes inscritos para participar nesse estágio, apenas Alexandre compareceu. “Foi uma tristeza muito grande! Eu não conhecia ninguém. Mas depois tudo correu bem e aquele estágio de doze dias no Seminário Missionário Padre Dehon acabou por marcar muito o início do ‘Sim’ que disse a Deus”, refere, hoje, o padre Alexandre Santos.

Foi ordenado padre em 1989, tendo dedicado grande parte da sua vida à formação e ao ensino. No início do século XXI é desafiado a vir para Lisboa e assumir a comunidade paroquial de Queijas. “Foi um desafio muito grande e o voto de obediência faz milagres! Foi em nome do voto de obediência que eu disse ‘Sim’, como noutros momentos da minha vida o fiz”, revela.

 

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Bodas de Prata da Igreja Paroquial de Queijas

No dia 28 de Setembro de 1986, o Cardeal-Patriarca D. António Ribeiro presidiu à celebração de dedicação da Igreja de São Miguel Arcanjo. Vinte cinco anos depois, volta o Cardeal-Patriarca, hoje D. José Policarpo, para celebrar o que é considerado um momento de “dar graças a Deus, de repensar tudo o que foi feito e de olhar para o futuro confiando na grandeza do amor de Deus, disse o padre Alexandre Santos ao Jornal VOZ DA VERDADE. “Porque a obra é d’Ele”, sublinha. “E sem Ele nada podemos fazer”.

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