Entrevistas |
Cónego Manuel Alves Lourenço
“Só há nova evangelização com conversão”
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Foi durante 43 anos o Chanceler da Cúria Patriarcal de Lisboa. Aos 82 anos, o cónego Manuel Alves Lourenço partilha com o Jornal VOZ DA VERDADE as histórias vividas ao longo de quase 60 anos de sacerdócio e apela à conversão interior constante.

 

Nasceu em Lisboa, a 11 de Outubro de 1929. Como recorda a sua educação cristã?

Por graça de Deus, nasci numa família profundamente cristã. Jesus Cristo era uma pessoa lá de casa. Era uma pessoa com quem eu sempre rezei, que eu sempre ouvi falar.

Os meus pais eram muito novos. A minha mãe tinha apenas mais 18 anos do que eu e ficou viúva quando ainda não tinha 24 anos. Mas nunca a ouvi lastimar-se de o meu irmão e eu não termos pai. Fomos viver para casa dos meus avós maternos, onde aliás eu já passava muito tempo por ser o neto mais velho e, digamos, de estimação. Tive a graça de os meus avós sempre falarem muito connosco, o que não era muito comum na altura. Ao mesmo tempo, fui educado a ter muito respeito pelo meu irmão, que era 17 meses mais novo! Acho muito curioso também que, em minha casa, nunca ouvi gritar. Falava-se baixo e tinha-se como princípio que para ouvir chegava dizer uma vez! Por outro lado, desde pequeno que me disseram: ‘O menino não tem cabeça para pensar? Então pense primeiro e pergunte depois para não fazer perguntas tontas’. Éramos sobretudo uma família que conversava muito… excepto quando tínhamos visitas!

Cresci na paróquia de Santo Estêvão, de Alfama, e fui habituado a rezar, como uma coisa natural. Uma das coisas que me marcou é que eu tive sempre um grande sentido de liberdade; mas nunca ninguém me perguntou se queria ir à Missa ao Domingo. Íamos e ponto final.

 

Entrou no seminário em 1939. Tinha, portanto, apenas 10 anos. Já se poderia falar em vocação?

Não sei quando nasceu a minha vocação, mas quando tinha 8, 9 anos, o pároco dizia à minha mãe que gostava que eu fosse para o seminário. Nunca fui pressionado por isso, mas a verdade é que nunca pensei senão em ser padre! Nunca me lembrei de querer ser bombeiro ou outra coisa assim… e entrei no seminário tinha eu feito 10 anos há quatro dias!

 

Mas era uma vocação consciente?

O problema da consciência é uma coisa que, com a vida, nós aprendemos. A consciência é um crescimento. O que é que pensava uma pessoa com 9 anos? Ser padre era a imagem do meu prior ou de alguns santos que eu ia lendo. Mas isso foi amadurecendo com a vida.

Hoje, algo que me aflige na educação, é o condicionamento que as pessoas fazem às crianças para arranjarem um emprego que dê muito dinheiro, independentemente do gosto que a pessoa possa ter. Em relação a mim, não tenho outra ideia senão o gostar de querer ser padre!

Neste 4º Domingo do Advento vimos como Nossa Senhora teve de mudar todo o seu projecto de vida. Tem-me sucedido isso ao longo destes anos. Eu não projecto nada. A minha experiência é aceitar o que vier, mesmo que muitas vezes não estivesse programado.

 

Nos anos 50, foi dos primeiros seminaristas de Lisboa a ser enviado para Roma para prosseguir os estudos. Como surgiu o ‘convite’?

Estive 12 anos no seminário, sempre com a consciência de que fui crescendo. Após dois anos no Seminário de Santarém e quatro no de Almada, fui para o Seminário dos Olivais e verifiquei que há 12 anos que ninguém do Patriarcado ia para Roma fazer qualquer curso superior.

Certo dia, o Senhor Patriarca manda-me chamar e diz: ‘Já és diácono, estás dedicado ao serviço da Igreja, eu tenho confiança em ti e penso que devemos fazer render os dons que Deus nos dá…’ Eu ia ouvindo, mas sempre a pensar: ‘Onde é que isto irá acabar?’. O Cardeal Cerejeira diz-me então que esteve a reflectir e que entendeu que o melhor para a Diocese era que eu fizesse o curso de Direito Canónico! Eu devo ter feito uma cara de grande espanto, mas hoje dou graças a Deus por ter feito esse curso. Porque o curso de Direito Canónico permitiu-me aprofundar tudo aquilo que eu gostava imenso!

 

Foi ordenado sacerdote a 13 de Julho de 1952. O que recorda desse dia?

O meu curso foi todo ordenado em 1951, excepto eu, porque era muito novo! Éramos um curso muito bom e isso vê-se porque três de nós fomos para Roma prosseguir estudos e dois chegaram a bispo! Fui ordenado diácono na Capela do Paço Patriarcal – porque o Senhor Patriarca quis-me ordenar antes de eu ir para Roma – e fui ordenado presbítero também nessa capela. Na ordenação estava apenas o Senhor Patriarca, dois cónegos e o cerimoniário. Fui ordenado com outro padre e um diácono, e a assembleia era a minha mãe e o meu irmão e os pais desse outro jovem. Mais ninguém! Porque nessa altura, a grande festa era a Missa Nova, não a ordenação.

 

Como foram os primeiros anos de sacerdote?

Nessa altura, durante os três primeiros dias após a ordenação tínhamos de ser acompanhados por um padre quando celebrávamos Missa. E o meu prior acompanhou-me; simplesmente, no fim da semana foi de férias e deixou-me ficar com as paróquias de Alfama! E tive uma primeira experiência que me marcou pela vida. No final da Missa chamaram-me para ir visitar uma pessoa que estava doente. Eu lá fui, mas a verdade é que nunca a tinha visto na Missa! Qual não é o meu espanto quando ela se lastima que naquela paróquia quase ninguém ia à Missa… ‘Na minha terra, toda a gente vai. Aqui é uma vergonha’, dizia-me a senhora. Foi nesse momento que descobri qual o problema da estrutura e da atitude interior correspondente ou não. Ou seja, a conversão é absolutamente fundamental. Ainda hoje temos pessoas que na cidade não vão à Missa, mas quando vão à terra levam inclusivamente o pálio! Um dos problemas ao longo dos séculos tem sido o de não chamarmos a atenção para a conversão interior. Hoje, quando falamos de nova evangelização – e o Santo Padre tem alertado para isso – temos de ter isso em conta! Nós precisamos continuamente de exercer essa mudança pela fé, pela esperança e pela caridade! Isto é, exercer a mudança no pensar – tendo os critérios que são da Palavra de Deus e da sua confiança –, no sentir – na linha da esperança, que é hoje um dos grandes desafios – e do agir, em relação à caridade.

Após o Concílio, as pessoas passaram a falar de uma Igreja como Povo de Deus. O que é exacto. Mas a Igreja como Povo de Deus é o segundo capítulo da constituição dogmática! O primeiro é a Igreja como mistério! E isto tem condicionado a minha vida!

 

A Igreja está a comemorar os 50 anos do Concílio Vaticano II, que foi convocado a 25 de Dezembro de 1961. Fala-se muita da necessidade de um novo Concílio. Acredita que estas comemorações podem revitalizar o que foi o Concílio Vaticano II?

Pode parecer escandaloso, mas para mim o Concílio – que deu uma perspectiva extraordinária – não foi uma novidade. Porquê? Eu conhecia muito bem a doutrinação do Papa Pio XII, que deu uma base que permitiu e garantiu desenvolver o que veio depois. Portanto, todas as perspectivas do corpo místico, da liturgia, vinham na linha do Papa Pio XII.

Falar num novo Concílio – sem ofensa para as pessoas que o dizem – é uma maneira de se fugir aos problemas. Quando verificamos que não pusemos em prática, ainda, determinações do Concílio de Trento [realizado de 1545 a 1563] da maior importância… Dou um exemplo: o Concílio de Trento fundou os seminários por causa da cura de almas. Porque padres havia com fartura, mas cura de almas… Devíamos pensar nisso: será que estamos a formar, em relação aos padres, gente que tem sentido de serviço?

Agora, nos 50 anos do Concílio Vaticano II, o Santo Padre falou expressamente sobre o rever os documentos do Concílio e o Catecismo da Igreja Católica. Nós, com muita facilidade, fugimos aos assuntos para termos uma justificação para não fazermos aquilo que devíamos…

 

Em 1968 foi nomeado, pelo Cardeal Cerejeira, Chanceler da Cúria Patriarcal. Que missão é esta na Igreja?

O Chanceler é alguém que garante e procura ajudar a que aquilo que é dito tenha garantia. A Chancelaria não é um órgão de governo, é um órgão administrativo. Um órgão de governo é a Vigararia Geral. O Chanceler é alguém que ajuda a garantir que o governo da Diocese seja adaptado àquilo que se faz.

 

Ainda não tinha sequer 40 anos quando foi nomeado Chanceler. Recorda-se de como acolheu esta nomeação?

Eu estava muito satisfeito no Seminário dos Olivais, a dar aulas de Direito Canónico e de Missiologia, quando fui nomeado Chanceler. Mas sempre tive como princípio que o que importa é fazer o que é preciso! Há um ano que tinha morrido o Chanceler anterior e até brinquei dizendo ao Senhor Patriarca que só me estavam a nomear porque não tinham outro! Porque a verdade é que eu não era uma pessoa fácil, no sentido que digo sempre o que tenho a dizer!

Ao longo destes 43 anos, procurei mudar o problema do relacionamento da Chancelaria com a Diocese, que era absolutamente formal e burocrático. Procurei sempre que as pessoas fossem bem acolhidas!

 

Entre 1969 e o ano 2000, foi também assistente religioso prisional. É importante a presença da Igreja nas prisões?

Essa foi outra das experiências muito curiosas e que não estava à espera! Aceitei essa missão por um princípio que a Igreja tem como obrigação, que é ‘Estava preso e foste-me visitar’. Foi para mim um mundo novo!

É muito importante a presença da Igreja nas prisões, porque dá uma dimensão de liberdade da pessoa! Eu estava ali para que as pessoas não se perdessem como pessoas. Graças a Deus, houve gente que se modificou!

 

Para o ano, celebra 60 anos de sacerdócio. Que diferenças encontra no ser padre hoje e o que era ser padre há 60 anos?

As diferenças que encontro não são em relação ao sacerdócio. A grande diferença é o mundo que nos envolve! Nestes mais de 50 anos, as coisas mudaram de uma forma impressionante, com grande velocidade. Os padres não têm de mudar, têm de dar a mesma doutrina para as pessoas que nos ouvem!

 

Como é que a Igreja deverá formar os sacerdotes do século XXI?

Antes de tudo, temos de formar padres que sejam bons cristãos! O cânone 208 do Código de Direito Canónico é fundamental e diz que todos nós temos a mesma dignidade e a exigência de trabalho. Não temos é a mesma função. Nós criámos uma ideia triste na nossa sociedade, que a dignidade da pessoa está ligada à função que exerce. Não, a dignidade da pessoa é por ser pessoa! Quando estava a dar aulas no seminário dizia aos meus alunos: ‘Muitos de vós sois menos cristãos do que os vossos pais. Sabeis mais teologia, mas o que é que isso significa no empenho da vida cristã, do serviço?’.

Hoje estamos a atravessar um momento extraordinário na história da Igreja. Por uma razão muito simples: porque a Igreja hoje é chamada a dar conta do que é a Igreja!

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