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Entrevista a Rui Agostinho, nos 200 anos de nascimento de Charles Darwin: ?Deus vai esperando que a criação dê um ser humano que ele ama muito?
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Rui Agostinho é Professor de Física e Astrofísica do departamento de Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. No ano em que se celebram os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da publicação da sua obra “A Origem das Espécies”, e quando se inaugura uma exposição sobre este tema na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, importa saber como se faz o diálogo ciência-fé.

A ciência e a fé, a partir de Darwin, tiveram de encontrar um relacionamento diferente. Como é, passados estes 200 anos, o diálogo – ou a oposição – entre a ciência e a fé?

É um diálogo que vai acompanhar a humanidade durante muitos milénios. Porque uma coisa é a revelação divina e outra coisa é o entendimento e a aceitação que a humanidade faz da revelação divina. Podemos olhar a história da humanidade e a atitude humana perante a natureza e perante Deus em largos passos. Vemos que há etapas. Quando o conhecimento humano conhecia pouco sobre a natureza, a atitude de conhecimento da natureza era filosófica, introspectiva e de análise, não experimental. Hoje sabemos que o universo começa com o Big Bang. Portanto, não podemos confrontar literalmente aquilo que o texto do Génesis diz com aquilo que é a realidade do nosso universo.

 

A Bíblia então está errada? Isso põe em causa a existência de Deus?

Não, é totalmente o oposto. Há uma pedagogia divina na sua revelação à humanidade. É preciso usar a compreensão que a humanidade tinha do seu próprio universo, num dado tempo. Por exemplo, quanto à evolução das espécies, muitas pessoas fazem confusão: afinal, quem apareceu antes, foram os homens ou os dinossauros? A revelação divina não tem a preocupação de pôr Deus a dizer: “Olhem que eu fiz o universo em sete dias… e depois fiz um arco-íris”. A mensagem principal é: “Eu criei o universo”. Deus não esteve a explicar quais foram os mecanismos que utilizou para fazer isso. “Eu criei o universo e a vida, e criei-vos para estarem comigo até ao final dos tempos”. A nossa história é a história dos conflitos que aparecem pelas várias interpretações que se vão fazendo. Não está em causa a existência de Deus. Se não houver uma entidade divina que está por detrás disto, que dá sentido à vida, então a nossa química não é mais valiosa do que a química das pedras.

 

Criacionismo e evolucionismo são dois extremos. A criação de Deus é também a evolução?

O criacionismo no sentido de que Deus que fez o universo, que criou a química, sentir a necessidade de vir ao planeta para construir um homem e uma mulher, que são diferentes dos outros animais que deixou aparecer por acaso, não faz muito sentido. Gosto mais de pensar que Deus criou o universo porque o universo é bom, e dá-lhe as leis todas para a química evoluir naturalmente. E vai esperando que a criação dê um ser humano que Ele ama muito. Mas ama apenas o ser humano? E não tem o mesmo amor pelo resto dos átomos? Acredito que tem. Deus espera que alguma espécie atinja um estado de evolução tal, que pode pensar, que pode raciocinar e que passa a interagir com ele e a desafiá-lo para uma atitude mais elevada perante a natureza. É a história da revelação divina ao povo. “Agora não tens que matar todos, respeita os outros”. “Olho por olho, dente por dente” é um grande avanço moral na época. E chegamos até um desafio máximo que é Cristo em que diz: “Tu vais mesmo amar os teus inimigos”.

 

Um ser à imagem e semelhança de Deus?

O ser feito à sua imagem e semelhança significa que Deus é amor. Este ser humano que atingiu este estado de evolução e pensamento é desafiado a amar. E ao poder amar sabe perdoar, sabe aceitar. É esse ser humano que se torna e comporta como Deus. Gosto de pensar nas palavras de São Paulo: “Toda a criação aguarda ansiosamente…” Mas o resto da criação são pedras, é gás, mas o calhau e o gás aguardam também ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. Gosto muito também do que diz São Francisco: “Irmão sol e irmã lua”. Também aí se refere com grande amor a esta criação. Nada disto é incompatível com o conhecimento científico.

 

Qual o grande problema da ciência hoje em dia?

A ciência procura descobrir como a natureza funciona, como se juntam os átomos. Se comparasse a natureza a um automóvel, termos o conhecimento científico é sabermos a mecânica do automóvel e reparar aquilo. Não nos diz nada da questão mais importante: “porque é que é automóvel?” Porque é que isto é assim. É absurdo tentar provar a existência ou a não-existência de Deus. Tem de ser Ele a revelar-se a si próprio. Não é a partir da nossa capacidade de estudar o ambiente, a natureza, e tudo o mais, que deduzimos a sua existência. Mas a ciência é fundamental? É. Permite-nos conhecer totalmente a natureza, é ferramenta. Mas a relação com Deus e a questão da divindade e do objectivo da vida, de sermos muito amados, e termos sido feitos para estar com o Pai, isso não é o conhecimento das pedras e dos paus e de como é que o coração funciona.

 

Como é ser um homem de ciência e de fé?

Na escola tenho que ensinar a matéria científica, tenho que debater as coisas, mas também ensino a evitar a atitude de que a ciência é o conhecimento absoluto sobre a situação humana. Quando falo do Big Bang, é interessante que as pessoas gostam de pôr no Big Bang a morte de Deus e chamam ao Big Bang a criação do universo, digo que ele é o primeiro estádio da evolução do universo. Toda a energia do Big Bang já lá estava e a ciência não tem hipótese de saber ou de investigar o que havia antes ou porque é que lá está. Apenas constata que já lá estava. A energia que aí estava, quando começa a expandir, já tem as qualidades todas para vir a dar as forças da natureza como as conhecemos hoje. A força gravítica, a força eléctrica e magnética e as duas forças atómicas que mantêm as partículas dos átomos juntas. Nesse sentido o Big Bang é o primeiro estádio da evolução do universo.

 

O ano 2009 é também o ano internacional da astronomia. Qual a importância deste ano?

Faz 400 anos que Galileu utilizou um pequeno telescópio e aconteceu uma mudança da atitude, dos métodos utilizados para fazer astronomia. Os telescópios permitem ver estrelinhas muito mais fracas que o olho humano não vê e medir posições nas estrelas com muito maior rigor. Apareceu uma nova ferramenta que vai mudar o conhecimento que se tinha sobre o funcionamento dos céus. Por volta de 1613, Galileu observa o sol e descobre que o sol tem manchas. Isto, filosoficamente, é um problema: vimos de um pensamento escolástico em que os céus são perfeitos, as imperfeições estão na terra, e, de repente, o astro-rei tem manchas! E aquilo mexe com todo o conhecimento. Galileu é também um marco na história da atitude experimental perante a natureza.

 

Ao olhar o universo, a fé fica mais robustecida?

Estamos limitados a conhecer só o nosso universo e as leis da física impedem-nos de obter informação do que há para lá do nosso universo. Pode haver o lá fora. Os físicos dizem que, provavelmente, o universo terá de dez a onze dimensões, mas não temos acesso a elas. Para aparecer o homem foi preciso que o planeta tivesse átomos de carbono, de ferro, de oxigénio. Foi preciso esperar milhares de milhões de anos. E podemos pôr a questão: daqui a uns tantos milhões de anos será que outra espécie não vai evoluir também e ganhar novamente capacidade de interagir, de falar e raciocinar? E Deus não se irá revelar a ela e desafiá-la novamente? O conhecimento leva-nos a muitas questões. Aquela com que a Igreja se vai debater nos próximos tempos, e já não falta muito tempo, é a dos clones. A nossa tecnologia vai permitir construir células humanas, cientificamente juntar átomos para fazer uma célula humana. E a pergunta que a Igreja se vai confrontar é: eles têm alma ou não têm? E a humanidade vai partir a cabeça. Mas Deus sabe mais do que nós.

 

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