Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Quando Deus ocupa o Seu lugar

Uma notícia da Rádio Renascença dava conta, na passada terça-feira, da passagem de uma efeméride “sui generis”: em 16 de Janeiro de 1918, Anatoly Lunacharsky, líder da propaganda do regime soviético, colocou uma Bíblia no banco dos réus, e julgou Deus. Condenou-o à morte por genocídio e crimes contra a humanidade, após o que um pelotão de fuzilamento disparou vários tiros contra o céu.

Em si, o evento não merece, obviamente, grande relevo. Não se trata senão da lembrança de mais uma das farsas ridículas do anti-cristianismo primário que, surpreendentemente, ainda tem alguns adeptos.

O problema, no entanto, é muito mais profundo: Lunacharsky e os líderes comunistas de então mais não fizeram que dar forma à tentativa – tão velha quanto a humanidade – de construir um mundo sem Deus, em que o homem possa dominar de uma forma absoluta. E nesta atitude não caem apenas os anti-cristãos primários. Caímos, de um modo ou de outro, de uma forma mais ou menos disfarçada, todos nós, quando nos colocamos no centro do mundo e esquecemos Deus num canto mais ou menos distante da nossa consciência ou do nosso coração.

É contra este “esquecimento de Deus” por parte dos indiferentes mas, sobretudo, por parte daqueles que se dizem cristãos, que se tem erguido, desde o início, o magistério e a acção pastoral do Papa Bento XVI. Só em Deus toda a criação pode encontrar a sua razão de ser e a sua consistência. Deus deve regressar ao centro do pensamento, do sentir, do agir do homem. Procurar construir uma sociedade sem Deus ou contra Ele desemboca no que estamos hoje a viver – não apenas a crise económica motivada pela falta de valores éticos de alguns, mas a crise, muito mais profunda, que julga ser lícito fazer tudo o que se encontra ao nosso alcance, desde que daí resulte um mínimo de bem-estar para uns quantos.

Ao impedir que nos vejamos a nós e àquilo que nos rodeia apenas com o nosso olhar (sempre marcado pelo egoísmo); ao impedir que nos vejamos no centro do mundo como parece à nossa visão; ao colocar a Deus no seu verdeiro lugar, em vez de olhar, somos vistos; em vez de julgarmos, somos julgados; em vez de sermos a medida de todas as coisas, percebemos o quanto nos falta ainda para podermos reivindicar qualquer coisa. Mas isso mais não é que a nossa realidade – aquela realidade pequena que cada um bem conhece de si (mesmo que o não diga ou não o confesse publicamente), e a realidade de uma humanidade que, apesar de todas as suas conquistas e de toda a sua história, se encontra ainda na infância ou adolescência.

Quando nos deixamos encontrar por Deus, faz-se luz sobre quem somos; e ao fazer luz sobre nós, aparece-nos claro quem andava iludido: afinal, muitas das nossas atitudes são tão ridículas como os tiros mandados para o céu por Lunacharsky.

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