Entrevistas |
Padre Carlos Silva, novo director do Externato de Penafirme
Construir a escola
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Foi professor. Depois entrou no Seminário e foi ordenado padre. Para sua surpresa, o padre Carlos Silva voltou à leccionação a pedido da Igreja. No passado dia 4 de Setembro, tomou posse como director do Externato de Penafirme, focando a sua nova missão em cada um dos 1600 alunos.

 

Como foi a adolescência do padre Carlos Silva?

Creio que terá sido uma adolescência ‘normal’. Tenho dois irmãos mais novos e frequentei a escola quase sempre de tarde o que permitia aproveitar as manhãs para ler e fazer os trabalhos da escola. Na paróquia fiz o percurso de catequese até ao 6ºano e depois entrei num grupo de jovens. Foi importante porque era uma espécie de pequena comunidade da mesma idade, que vivia a fé cristã. Ao mesmo tempo, os meus avós paternos residiam em Bucelas, e nós íamos lá passar todos os fins-de-semana. Por isso, apesar de morar na Portela a minha vida de missa de Domingo acontecia em Bucelas, onde fui acólito e onde acho que o meu ser padre foi crescendo por dentro. O padre Freitas dava-me algumas ‘alfinetadas’...

 

E tinham efeito?

Tinham... nós damo-nos muito bem. Sempre gostei muito de conversar com ele! A ‘alfinetada’ que mais me lembro era: ‘Um dia ainda hei-de concelebrar contigo!’. Para mim nunca foi esquisito ir à Missa porque isso fazia parte do programa da família. Quando estava a frequentar o 12º ano comecei a dar catequese na Portela, com uma colega da escola. E aí como que se inaugurou um outro nível de aproximação ao Senhor, através da acção e da disponibilidade para servir, naquilo que estava ao meu alcance. Esta missão de catequista, que durou até entrar no Seminário, foi muito estruturadora do meu ser cristão.

 

Entretanto, o ainda jovem Carlos Silva faz a sua formação universitária e torna-se professor de Físico-Química…

Foi uma experiência muito boa! Fiz a licenciatura na Universidade Nova, no Monte da Caparica. O curso estava muito direccionado para a investigação, quer na área da química orgânica quer no meu ramo da biotecnologia. Mas, durante o curso foi crescendo em mim a vontade de dar aulas durante algum tempo. Da minha experiência como aluno tive professores muito bons e outros muito maus. E desses que eu não gostei, eram pessoas que estavam no ensino quase 'por acidente'. Por isso, a minha ideia era: ‘Se eu quiser ser professor, vou ser melhor do que aqueles’. E assim, numa espécie de retribuição do que de bom tinha aprendido e porque gosto muito de estar com gente nova, pelos desafios que se colocam, essa possibilidade de ser professor foi crescendo. Quando cheguei às aulas como professor o primeiro ano foi muito difícil. Hoje percebo que é normal ser difícil.

 

Porquê difícil?

Porque encontrei uma quantidade de alunos que não tinha nenhum interesse em estar na escola. Aparentemente, nada interessava àqueles adolescentes. E isto foi uma luta muito grande para tentar ir ao encontro deles. Eu estava cheio de vontade de ser professor e eles não tinham vontade nenhuma de ser alunos. Mas, ao mesmo tempo, também estava no ensino nocturno de adultos e aí a experiência foi diferente porque os que vinham às aulas estavam muito interessados em progredir. Mesmo com muito mais dificuldades do que os do ensino diurno. Este conjunto acabou, então, por se equilibrar e foi, por isso, um ano belíssimo. Percebi que não se trata de ‘despejar’ matéria em cima deles, mas há a necessidade de ir ao seu encontro, o que é um desafio maior e entusiasmante. Por vezes digo, a brincar, que dar aulas é a única coisa gira na escola. O resto são coisas que fazemos à volta para que possa haver aulas. É exagero, claro, mas dar aulas é, de facto, o mais entusiasmante. Foram quatro anos a dar aulas, em quatro escolas diferentes. E assim poderia ter continuado, se o chamamento que Deus me fazia não me tem desinquietado o suficiente para isso.

 

Como aconteceu esse chamamento?

Foi uma coisa muito antiga. Lembro-me de ser criança e de dizer que ‘quando fosse grande gostava de ser padre’. Tinha como referências o padre Freitas, em Bucelas, e um padre amigo da família, no Alentejo. A amizade que eu percebia que esse padre do Alentejo tinha por nós, e a maneira como a família falava dele, era para mim muito desafiador. Lembro-me, também, de um dia na catequese, no 5º catecismo, ter havido uma visita de seminaristas que fizeram uma sessão diferente com todas as crianças que tinham catequese naquele dia. No fim perguntaram se havia algum rapaz que quisesse ser padre. Eu disse que sim! A partir daí ganhei a alcunha do 'padre', o que não foi muito interessante. Mas ganhei, também, o cuidado da minha catequista que me acompanhou, com discrição e muito interesse. Já algures a meio do curso, a questão voltou a surgir e andou ainda mais viva. E numa conversa com uma pessoa amiga rematei a questão dizendo: ‘Agora tenho de acabar o curso e depois logo se vê’.

Quando acabei o curso, o meu pároco, padre João Rocha, chamou-me e perguntou-me se eu nunca tinha pensado em me consagrar. Foi um susto imenso! A resposta foi mal ajeitada mas foi o suficiente para que ele tivesse dado o passo a seguir. Fui, então, convidado para um dia de recolecção no Seminário de Almada. Acolhi o desafio e, depois desse encontro, continuei a procura, fazendo um discernimento com o padre Mário Rui. Depois de eu ter rejeitado, numa primeira vez, entrar no Seminário, iniciei um caminho de direcção espiritual. Estávamos em 1996. Fui, então, dar aulas e fazia parte do Secretariado Diocesano da Pastoral Vocacional. Esses quatro anos de trabalho, de ser professor, foram os mesmos quatro anos de caminho para entrar no Seminário. Aí fiz uma experiência nova de olhar a Igreja a partir da Diocese. No Verão de 1999 por proposta do padre Mário fui, com o grupo de universitários do Pré-Seminário, a um mosteiro em Espanha durante três dias. Foi um espanto perceber que as minhas reticências e dúvidas eram sustentadas por Deus. Porque o Deus que chama também sustenta. E eu tinha percebido que Deus se dirigia a mim directamente mas eu não tinha disponibilidade ou coragem para interromper a minha vida. Isso metia-me medo! Tinha muitas inseguranças. No regresso a Lisboa manifestei a minha disponibilidade para entrar no Seminário. Nesse ano continuei o discernimento, vivido já com muita alegria por o horizonte próximo ser a entrada no Seminário, para aquilo que Deus quisesse. Estar no Seminário, a partir do dia 17 de Setembro de 2000, foi estar ao serviço de Deus. Se tivesse saído no dia 18, eu tinha já um dia de serviço entregue a Deus, e por isso já tinha valido a pena!

 

Nessa disponibilidade previa voltar a ser professor?

Acho que não! Eu tinha a ideia de que um padre ser professor era perder tempo. Mas eu estava disponível para aquilo que Deus quisesse e, para mim, o que Ele queria não era, seguramente, ser professor. Mas quando estava no Seminário dos Olivais, numa das conversas anuais com o Senhor Patriarca, no meu penúltimo ano, é-me proposto vir para Penafirme, como professor de Físico-Química. Foi um susto muito grande porque essa expectativa saía desarrumada. Arrumar o ser professor com o ser padre, na altura, parecia-me um desafio muito grande e complicado. Por isso, o meu último ano de Seminário foi feito nesta certeza de que ia para Penafirme. Fiz um curso de Pós-graduação em Ciências da Educação e em 2007, quando fui ordenado, vim para Penafirme. Deixei de ter aquelas oposições interiores que sentia em mim, e se era vontade do Senhor Patriarca que eu fosse professor, então era mesmo isso! Voltar a ser professor foi muito bom. Foi uma belíssima surpresa que Deus tinha para mim. Porque as outras missões me ocupam tempo não tenho tido um horário completo de aulas, mas tem sido uma experiência muito boa. É bom ser professor e não é nada incompatível com o ser padre!

 

Como é que se conjugam as duas dimensões?

A palavra que nós temos para presbítero, é 'padre'. E padre, é pai. Ser professor é um bocadinho ser ‘pai’ dos alunos. Não é substituir a família, mas no seu crescimento intelectual é assumir o papel que os pais assumem no crescimento humano e relacional dos filhos. Numa escola como o Externato de Penafirme, onde a tónica da formação humana é muito grande e não é um apêndice possível da formação académica, isto é quase evidente. Não há oposição nenhuma, e este crescer com eles e vê-los crescer, é muito interessante.

 

Olhando para a sua experiência primeira como professor, sente que a evolução social e cultural, e as transformações ocorridas ao longo dos anos, vieram interferir, de algum modo, na personalidade dos alunos de hoje?

Parece-me que o mundo electrónico é muito cativante e absorvente, e por isso mudou alguma da espontaneidade e do crescimento que acontecia nas 'malandrices' que se faziam com os colegas da turma ou os vizinhos do bairro. Agora esse tipo de energia e de imaginação é investido em coisas informáticas. Por um lado, pode ser menos perigoso, do ponto de vista físico, mas é também menos útil do ponto de vista humano. Porque mesmo a fazer 'asneiras', se as faço com outras pessoas, estou a habituar-me a lidar com pessoas, e não com coisas, máquinas ou personagens de jogos de computador. Há a perda do humano, do natural.

 

Recentemente assumiu a missão de novo Director do Externato de Penafirme. Como é este desafio?

É um desafio que não foi grande surpresa. A minha vinda para Penafirme não tinha como única consequência ser director. Foi para fazer caminho. Mas essa era uma expectativa possível. Há três anos que faço parte do grupo da direcção do externato liderado pelo padre Alfredo Cerca e, portanto, há muito daquilo que é a tarefa de dirigir o externato que eu fui conhecendo. Ainda não conhecia o peso pessoal que esta tarefa exige, pelo volume de informação, de pedidos e de decisões exigidas, que é muito grande. Desde a administração da casa, a manutenção física dos edifícios, dos abastecimentos, da gestão das pessoas, a gestão do corpo docente – que foi o grande peso deste Verão –, dos alunos e das pequenas coisas que constroem a vida de mais de duas mil pessoas, que são o Externato de Penafirme. Por isso, é muito exigente! Já vi na pessoa do padre Cerca que não mata e que é possível sobreviver e viver isto. Percebemos que é possível construir a escola. Não ir fazendo o despacho dos assuntos, mas ir construindo a escola.

 

Esta nova missão surge numa altura em que a educação em Portugal está a sofrer algumas alterações. A criação dos mega-agrupamentos, a reestruturação dos currículos, a gestão do corpo docente. Como tem sido gerir estas situações?

O Externato de Penafirme distingue-se por não ser do Estado, e por isso podemos ser nós a tomar as decisões. No entanto, o currículo diminuiu e este ano há menos aulas. Especialmente no 2º Ciclo e no 12º Ano. E se temos menos aulas precisamos de menos professores. Por isso, sobraram professores sem nada para fazer. Isto foi uma dor muito grande! Ter que dizer a pessoas concretas: ‘Nós, que até ao ano passado precisámos de si e gostámos de o ter cá como professor, este ano não precisamos de si!’, é humanamente muito difícil de fazer! E nesta construção de escola de pessoas é terrível, porque o professor tem um rosto, tem uma família, uma história. Utilizámos para este processo o critério da antiguidade. Saíram os mais novos dos grupos onde sobravam professores, e saíram bons professores! Tive de dizer a professores que eu gostava de aqui ter, que não tinha trabalho para eles, nem dinheiro para lhes pagar. Porque esta é uma escola com contrato de associação, que conta com um financiamento do Estado para que os alunos não paguem a frequência do ensino. E esse financiamento paga, apenas, as aulas do currículo que temos. Não havendo outras fontes de receita, objectivamente, não temos como manter professores sem aulas. Isto é muito difícil, para mim, e ainda mais para as pessoas com quem tive de falar. Foi uma nuvem negra neste Verão, também aqui em Penafirme.

 

Que desafio se coloca neste momento ao Externato?

São os 1600 alunos! Gostamos de ter alunos com boas notas e bons resultados, gostamos quando os nossos alunos crescem ao longo do percurso escolar e se vão fazendo adultos, mas o desafio é cada um deles.

 

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Perfil

O padre Carlos Nuno Aleixo Pais Silva tem 39 anos, e é natural de Arroios, em Lisboa. Cresceu nos arredores da capital, na paróquia da Portela, lugar para onde foi desde criança. Licenciado em Química Aplicada na Universidade Nova de Lisboa, foi professor da disciplina de Físico-Química durante quatro anos. Entrou no Seminário no ano 2000 e foi ordenado sacerdote em 2007. Após a ordenação foi nomeado formador no Seminário de Penafirme, e no Pré-Seminário, e professor do Externato de Penafirme, da Diocese de Lisboa. No passado dia 4 de Setembro de 2012, tomou posse como Director do Externato de Penafirme.

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