Entrevistas |
Um Domingo ?de outra maneira?
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Numa paróquia rural junto aos Pirinéus Atlânticos, nos arredores da cidade de Pau (França), Pierre e Marie-Jo Autaa descrevem-nos um pouco da realidade da sua comunidade e de uma iniciativa eclesial que procura congregar os cristãos num domingo diferente.

Uzein é um dos lugares da Paróquia de Ste Quitterie-en-Béarn. Pierre e Marie-Jo, podem falar-nos um pouco da vossa Paróquia?

Pierre - Esta Paróquia de Ste Quitterie-en-Béarn é composta por nove povoações que, antigamente, tinham cada uma um padre, pois cada uma era uma paróquia. Pouco a pouco os padres não foram renovados e as paróquias foram agrupadas numa só paróquia, criada em 1999 e confiada apenas a um padre até ao ano passado. Com a sua partida para outro agrupamento de paróquias, é o padre da paróquia vizinha que assegura os serviços também nesta paróquia.

 

Marie –Jo - Aqui residem cerca de cinco mil habitantes, nos arredores ao norte da cidade de Pau. É um meio agrícola, rural onde vivem muitos militares pois existe uma base militar em Uzein. Há também uma colónia portuguesa muito importante que chegou aqui nos anos 50, 60, e está bem integrada. Na nossa igreja temos uma imagem da Virgem de Fátima e fazemos uma celebração especial, todos os anos, a 13 de Maio.

 

Pierre - Existe aqui uma grande devoção a uma santa local que viveu no século V e foi martirizada numa cidade a cerca de 50 quilómetros. Ela passou em vários locais desta região, assinalados por fontes e por capelas. Num lugar, no meio dos bosques, existe uma pequena capela onde se venera Ste. Quiterie. É um ponto de reunião muito importante para a nossa Paróquia. Faz a ligação entre as nove paróquias e aí nos reunimos como comunidade. É muito importante para a coesão da paróquia.

 

É uma paróquia onde o papel dos leigos é importante?

Pierre - Estamos estruturados como todas as paróquias. Há um Conselho Pastoral e agora foram criadas Equipas de Animação Pastoral, de duas, três pessoas, oficializadas pelo Bispo que, com o pároco, planeiam a pastoral. O Conselho Pastoral é composto por pessoas que representam cada lugar e também cada actividade pastoral. E cada lugar deve ter uma equipa de animação para as coisas concretas: conservação das igrejas, preparação das celebrações, equipas de exéquias. Quando há um falecimento, a família contacta o padre e ele encontra-se com a família para um conhecimento mais próximo. Depois envia leigos para preparar a celebração com a família, na escolha das orações, das leituras, cânticos ou outras ajudas necessárias.

 

Têm também uma experiência de geminação com uma paróquia do Senegal…

Pierre - O nosso antigo pároco, padre Pierre Sallenave, cumpriu o serviço militar na cooperação [serviço cívico]. Foi enviado para o Senegal como professor numa escola, em 1965. Vinte anos depois, os antigos alunos telefonaram-lhe por ocasião de uma peregrinação a Lourdes e convidaram-no a visitar o Senegal. Criaram-se laços com Keur-Massas, uma paróquia dos arredores de Dakar, a cerca de 25 quilómetros. Todos os anos, um grupo de lá num ano e outro daqui noutro, visitamo-nos. Participam sempre um padre e leigos que representam cada paróquia. Oficializámos estes laços numa carta de geminação.

 

Marie-Jo - As relações são importantes para conhecer e partilhar as diferenças. Também procuramos dar alguma ajuda financeira para as instalações da Paróquia. Ela tem tido uma expansão demográfica e conta com 30 mil habitantes. Já ajudámos a construir um centro paroquial com residência para os padres. E também já fizemos parte de um grupo que esteve lá.

 

Há alguns anos começou uma iniciativa que se chama “Dimanche autrement” [Um domingo de outra maneira]? Que iniciativa é esta?

Pierre - Tudo começou por algumas questões que se colocaram: o número de praticantes que ia diminuindo, a idade dos praticantes que ia aumentando, cada vez menos jovens… O que poderíamos fazer para propor alguma coisa diferente às pessoas que não vêm regularmente à Igreja? A diocese prepara um dossier com propostas que têm por base um esquema comum.

 

Marie-Jo - Convidamos as pessoas a reunirem-se toda uma manhã de domingo, duas vezes no ano. No dossier proposto encontramos uma espécie de definição: “uma reunião inter-geracional, à volta da Palavra de Deus, implicando toda a Comunidade, para um tempo de reflexão, de convívio e de celebração.”

 

E como decorre essa manhã?

Pierre - O encontro começa por volta das 9h30. Serve-se um café e o padre lê o Evangelho do dia. É apresentado o tema proposto para esse encontro. Neste II Domingo da Quaresma o tema tem a ver com o domingo da Transfiguração e será: “Uma luz para atravessar a noite”. Depois são apresentados os animadores dos diferentes pequenos grupos. As pessoas dividem-se pelos grupos em que discutem ou trabalham actividades e temas e até à missa das 11 horas.

 

Marie-Jo - Os diferentes grupos e actividades são propostos pela Diocese mas também dependem das capacidades e necessidades de cada comunidade. São os leigos que animam esses pequenos grupos. O padre está no início, lê o texto do Evangelho e depois participa também mas não é ele o animador. Segundo os carismas e competências que existem em cada comunidade, surgem diferentes grupos, todos centrados na reflexão ou nas actividades à volta do tema comum.

 

E que diferentes grupos se formam?

Pierre - Por exemplo, quem se sente mais dotado para a arte floral, para a decoração das igrejas, pode participar num grupo de arte floral litúrgica. Há também o grupo canto litúrgico que prepara os cânticos para a celebração em ligação com o tema proposto e com os textos desse domingo; o grupo de partilha do Evangelho, que prepara o comentário dos textos pois a homilia, nesse dia, não é feita pelo padre…

 

Marie-Jo - Também há grupos particulares para as crianças e adolescentes; um grupo de meditação que prepara um local de recolhimento e silêncio com pistas para a oração; grupo de jovens que reflecte e partilha o tema; grupo arte e Bíblia que analisa a relação da arte com a Palavra de Deus; grupo música e liturgia…

 

Pierre - O grupo Solidariedade… No encontro do Advento esteve connosco um responsável do “Secours Catholique” que nos apresentou as acções de ajuda às pessoas em dificuldade. Este ano, como sofremos os efeitos de uma grande tempestade na nossa região iremos partilhar e reflectir sobre as acções de solidariedade que se geraram entre as pessoas e entre vizinhos que, por vezes, mal se conhecem. Há gestos que são como uma luz que é levada a quem estava nas trevas.

 

Marie-Jo - Após este trabalho, reunimo-nos na igreja para a celebração da Eucaristia e cada grupo partilha, em diferentes momentos, um pouco dos seus frutos. Depois há um pequeno convívio e quem quiser fazer um almoço partilhado pode prolongar o encontro.

 

Esta iniciativa é também uma acção missionária. Como a propõem?

Pierre - Esta convocação é feita duas vezes no ano: no início do Advento e no início da Quaresma. O próximo será no II Domingo da Quaresma, a 8 de Março, num dos lugares maiores, Sauvagnon. Este ano como houve a grande tempestade e o tecto da igreja foi afectado, vamos celebrar a Eucaristia num salão de festas, e criou-se um grupo especial que irá preparar a decoração e transformação da sala num lugar digno para a celebração.

 

Marie-Jo - Fazemos a divulgação na folha dominical um mês antes, mas sentimos um problema de comunicação. As folhas são distribuídas às pessoas que vêm à missa e é difícil fazer chegar às pessoas que não vêm habitualmente. Precisamos melhorar a nossa comunicação e convocação.

 

Pierre - É uma iniciativa que parte da descoberta das potencialidades de cada comunidade, dos dons de todas as pessoas. Por isso as propostas são sempre adaptadas e enriquecidas com a realidade. É também um trabalho de grande compromisso dos leigos. Claro que o nosso desejo é chegar cada vez mais a todos. Para ser mesmo um domingo de outro modo!

 

 

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