Entrevistas |
Adelina Almeida, presidente do Conselho Central de Lisboa da Sociedade de São Vicente de Paulo
“O nosso maior desejo é que haja uma Conferência Vicentina em cada paróquia!”
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A presidente do Conselho Central de Lisboa da Sociedade de São Vicente de Paulo deseja criar uma Conferência Vicentina em cada paróquia da diocese. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, Adelina Almeida pede cristãos atentos à pobreza envergonhada e diz que os vicentinos têm muito a aprender das palavras e gestos do Papa Francisco.

 

Com o eclodir da crise económica e financeira, em 2008, a missão das Conferências da Sociedade de São Vicente de Paulo ganhou uma nova dimensão. De que forma os vicentinos se organizaram para ajudar os carenciados?

Atualmente as Conferências têm cada vez mais pedidos. Mais necessitados e mais famílias carenciadas, em todos os aspetos, pedem a nossa ajuda! O ‘boom’ começou em 2008-2009 e tem sido progressivo. O ano passado e este ano as solicitações aumentaram muitíssimo e quase não conseguimos dar apoio a todos… Temos listas de espera – que me fazem uma enorme aflição, porque as pessoas não podem estar à espera de ajuda – porque não conseguimos prestar auxílio a todas as famílias. As Conferências têm apoiado muitas famílias e chegamos a um ponto em que não conseguimos ajudar mais. Posso dar um exemplo, da minha Conferência, na Amadora, em que apoiamos 450 famílias e temos em lista de espera mais de 100… Nestes últimos anos, para atenuar a crise, tentámos promover uma interligação e cooperação com outros grupos sócio-caritativos. Temos uma colaboração enorme e um acordo feito com o Banco Alimentar Contra a Fome, que é o nosso grande suporte!

 

Em muitas paróquias da Diocese de Lisboa, a caridade está confiada aos vicentinos. O que é que os números espelham, em relação aos voluntários e às pessoas que são ajudadas pelo vosso trabalho?

Na Diocese de Lisboa temos 110 Conferências, praticamente todas espalhadas pelas paróquias. Nós somos leigos, mas católicos! Trabalhamos em articulação e harmonia com o pároco e a própria Igreja! Em termos de números, temos cerca de 1400 vicentinos, que prestam ajuda a cinco mil famílias, o que representa um agregado familiar entre 10 a 12 mil pessoas!

O nosso maior desejo, e aquilo que pedimos a Deus, é que haja uma Conferência Vicentina em cada paróquia! O fulcro da Sociedade de São Vicente de Paulo é a Conferência. É a base fundamental da Sociedade de São Vicente de Paulo. Sem Conferência, não há Sociedade de São Vicente de Paulo!

 

Para quem está no terreno nos dias de hoje, quais as principais carências detetadas, especialmente na região de Lisboa?

Antigamente havia a pobreza pura e simples. Agora a pobreza tem diversos carismas: há a pobreza monetária, há a pobreza por falta de organização e orientação – porque existem famílias que têm uma verba, mas que não se sabem orientar e gastam o dinheiro em bens de segunda necessidade e não de primeira –, há carência na falta de roupa, de alimentos, de pagamento de água, luz e rendas. Depois, temos também o isolamento dos idosos, já para não falar nas carências de falta de fé…

 

Tem aumentado a chamada pobreza envergonhada?

Existe cada vez mais a pobreza envergonhada. São casos reais… o país real é muito diferente do que a maioria das pessoas pensa. E nós, vicentinos, temos, graças a Deus, conhecimento desta realidade porque vamos a casa das pessoas. O fundamental da missão dos vicentinos é a visita domiciliária! Tornamo-nos amigos e damo-nos, dando-nos! Porque se não nos dermos, não conseguimos. É preciso criar relação com as pessoas!

Posso-lhe dar um exemplo: há uma pessoa a quem ajudamos que apenas permite que se lhe levem coisas durante a noite. A senhora tem uma casa muito boa, recebe uma pensão mínima que só lhe chega para pagar a água, luz, renda, telefone e pão. Mais nada! Ela vai à Missa todos os Domingos e ninguém diria que aquela senhora precisa de ajuda. Simplesmente, falou comigo – graças a Deus confiou em mim e nos vicentinos – e pediu-me para eu lhe levar ajuda somente de noite, por causa dos vizinhos. Este é um caso, mas há muitos mais. A grande dificuldade é saber quem são estas pessoas que têm necessidades. Nas Conferências, digo muitas vezes: ‘Estejam atentos às pessoas, aos vizinhos, conversem’. É importante que os cristãos estejam atentos!

 

Acredita que a caridade é evangelizadora?

A evangelização é fundamental! O ponto central dos vicentinos é a caridade! Caridade sem fé não há, não pode ser. Nós fazemos Caridade com o ‘C’ maiúsculo, com amor, com fé em Cristo! Se nós não transmitirmos isso ao nosso irmão, à família que vamos visitar, nada tem valor. Nós visitamos famílias que nem querem saber de Deus, não são católicas. Mas o vicentino não é muito das palavras, mas é da obra! Ao estar a ajudar, vamos dizendo que foi o Espírito Santo que nos indicou o caminho, que nos inspirou. Se as pessoas estão doentes, dizemos que temos fé em que vai recuperar e Deus os vai ajudar. É essa a nossa evangelização!

 

De que forma a Sociedade de São Vicente de Paulo tem procurado a renovação dos seus membros?

Os cristãos que estejam interessados em fazer parte dos vicentinos assumem um compromisso na Assembleia da Imaculada Conceição, que anualmente se realiza no sábado ou Domingo seguinte ao dia 8 de dezembro. Em 2011, apenas na Diocese de Lisboa, tivemos 53 novos vicentinos – o que para nós é muito bom! – e em 2012 tivemos mais 32 membros a assumirem o seu compromisso com a Sociedade de São Vicente de Paulo!

Há muitas pessoas que dizem: ‘A Sociedade de São Vicente de Paulo está muito velha, já tem as pessoas todas com muita idade…’. Eu já oiço a minha mãe dizer isso há muitos anos, ainda nem era vicentina! As pessoas continuam a dizer isso, mas afinal continuam a aparecer mais vicentinos! Porque, na verdade, quem está mais disponível são as pessoas na pré-reforma. É ótimo ter jovens – tomáramos nós ter muitos jovens connosco! –, mas não é possível ter Conferências apenas com jovens. Eu criei uma na Amadora, que era ótima, mas que terminou porque muitos dos seus membros foram para outras cidades estudar e trabalhar. O ideal é ter Conferências jovens e menos jovens! Os jovens com as suas ideias fantásticas, e os menos jovens a desenvolverem essas ideias, a colocá-las em prática e a deixar que os jovens também colaborem!

 

De que forma os vicentinos se sentem desafiados perante as manifestações de pobreza do Papa Francisco e dos constantes apelos em favor de uma Igreja voltada para os pobres?

O Papa Francisco foi uma bênção para a Igreja! Foi mesmo o Espírito Santo que iluminou os Cardeais para votarem no Papa Francisco! Para nós, vicentinos, é o ‘máximo’ que nos poderia acontecer ter um Papa que quer uma Igreja pobre para os pobres! Tocou-nos muito esta eleição! Todos os vicentinos querem comprar os seus livros, todos o querem ouvir, todos querem saber o que ele diz, porque tudo o que ele diz e faz tem interesse! Os vicentinos têm muito a aprender e a beber das palavras e ações do Papa Francisco!

 

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Perfil

Presidente do Conselho Central de Lisboa da Sociedade de São Vicente de Paulo há dois anos, Adelina Almeida é vicentina desde há 18 anos, por influência de sua mãe. “A minha mãe, que tem atualmente 91 anos, é uma vicentina de longa data, se não me engano, há 60 anos! Ela sempre quis que eu fosse também vicentina e eu sempre a ajudei na sua missão, mas foi apenas com o falecimento de uma pessoa que me era muito próxima, há cerca de 18 anos, que segui o caminho a que Deus me convidava”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. Começou na Conferência a que sua mãe pertencia – a Conferência de Nossa Senhora do Rosário de Fátima da Amadora – e passado pouco tempo foi nomeada presidente desta Conferência. Dois anos depois, foi nomeada presidente do Conselho de Zona de Queluz, que abrange toda aquela área, onde esteve por nove anos. “Terminado o mandato, pensei: ‘Agora vou ser vicentina de base!’. Não consegui, porque entretanto, em 2010, fui eleita para a Associação das Obras Assistenciais e, no ano seguinte, fui eleita para o Conselho Central de Lisboa da Sociedade de São Vicente de Paulo”, recorda. “Na verdade, tudo o que eu tento fazer é com muito amor e uma dedicação total, porque a Sociedade de São Vicente de Paulo assim o merece”, garante.

 

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Beato Ozanam: “Envolver o mundo numa rede de caridade”

No passado dia 23 de abril completaram-se 200 anos do nascimento do fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, António Frederico Ozanam. “O nosso fundador é onde vamos beber toda a nossa vocação, toda a nossa esperança no futuro! As palavras e ações do beato Ozanam incentivam-nos e são um exemplo para todos os vicentinos!”, garante ao Jornal VOZ DA VERDADE a presidente do Conselho Central de Lisboa da Sociedade de São Vicente de Paulo, Adelina Almeida. “O beato Frederico Ozanam viveu apenas 40 anos, teve uma vida curtíssima, mas riquíssima! Aos 20 anos fundou a primeira Conferência em Paris, em 1833, juntamente com sete jovens universitários, e deixou-nos uma frase simbólica, dizendo querer envolver o mundo numa rede de caridade”, refere.

 

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Peregrinação Nacional a Fátima junta perto de quatro mil vicentinos

Coube ao Conselho Central de Lisboa, neste ano 2013, a organização da Peregrinação Nacional a Fátima da Sociedade de São Vicente de Paulo, que juntou quatro mil vicentinos de todo o país e foi presidida por D. Nuno Brás, Bispo Auxiliar do Patriarcado. “Este é o maior evento da Sociedade de São Vicente de Paulo. É um encontro anual muito importante, porque é como que um recarregar de baterias! É o irmos junto de Maria agradecer o que conseguimos fazer e pedir apoio para aquilo que necessitamos fazer, que é muito!”, destaca ao Jornal VOZ DA VERDADE a presidente do Conselho Central de Lisboa da Sociedade de São Vicente de Paulo, Adelina Almeida.

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