Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Família

Temos cuidado pouco da família. Temo-la olhado como uma realidade que, de tanto se encontrar na base do viver humano, sobreviverá automaticamente. Ou como uma realidade que tanto importa que sobreviva ou não, porque todo o resto do tecido social irá continuar, sem ruturas nem sobressaltos, eventualmente com um rosto diferente, organizado de outro modo (segundo alguns, até mesmo melhor).

O facto é que isso não é, simplesmente, verdade. É certo que a família – como muitas outras realidades humanas básicas – já se apresentou de forma diferente da que temos hoje. Já foi a família “alargada” que se estendia a toda a aldeia; já foi a família “de elite” que se encontrava acima ao próprio Estado; já foi, em muitos casos onde a ideologia se sobrepôs à vida humana, o simples lugar onde eram gerados os membros de uma pretensa “nova sociedade”, sendo depois os filhos retirados aos pais e educados pela “coletividade”; é hoje, no anonimato das grandes cidades (mas também já nas nossas aldeias e meios rurais) a “família nuclear” constituída pelo pai, pela mãe e pelo filho – os avós, esses são mais ou menos “descarregados” num lar.

Contudo, se virmos bem, consoante o tipo de família que uma sociedade adota, assim também as relações sociais e o modo de viver dessa sociedade. Não é a sociedade a fazer a família. É a família a construir a sociedade. É da família e das suas relações – e do modo como todos se relacionam primeiramente no seio familiar e, depois, alargando o círculo, com todos os demais membros de uma sociedade – que dependem a segurança, o bem-estar, a paz e o desenvolvimento de qualquer grupo humano, mesmo do próprio Estado. Sem a família, em última análise, não valerá sequer a pena clamar por democracia: sobreviverá apenas aquele que for mais forte.

Nos últimos anos, a família não foi simplesmente ignorada: foi combatida. Tudo passou a ser chamado de “família”, todos os “ajuntamentos” passaram a ter os direitos familiares; para a família ficaram apenas, como exclusivo, os deveres. Isto significa que, para o Estado e, consequentemente, para a sociedade em que vivemos, nada é, verdadeiramente, família. Mas isso significa, também, que estamos a construir um modo de viver sem fronteiras e sem regras, onde apenas a lei e a polícia poderão garantir alguma relação pacífica entre os humanos. Tudo o resto ficará para a selva, onde tudo é permitido, porque o outro deixou de o ser, e se transformou num mero objeto.

Tenho consciência de que o tom deste artigo é demasiado apocalítico. Mas uma questão se impõe: e nós, cristãos, que fazemos?

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