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Irmã Lúcia Soares: ?Educar as crianças é transformar o mundo e conduzi-lo à verdadeira vida?
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Nascidas há 175 anos, as Irmãs Doroteias celebram um ano jubilar. Neste sábado, 14 de Março, reúnem-se em festa no Santuário de Fátima. A Irmã Lúcia Soares, Provincial da Região Sul da Congregação, testemunha-nos alguns traços de Santa Paula Frassinetti e os desafios da sua presença no mundo da educação.

Irmã Lúcia Soares, as Irmãs Doroteias estão a comemorar os 200 anos do nascimento de Santa Paula Frassinetti, os 175 anos da fundação da Congregação e os 25 anos da sua canonização. Qual a importância destas datas?

São acontecimentos muito importantes para nós. Santa Paula nasceu em Génova (Itália) em 1809 e foi baptizada no mesmo dia. Vinte e cinco anos depois ela fundou a congregação. Há alguns factores que ajudam a explicar esta rapidez. Por um lado, a mãe morreu quando ela tinha 9 anos e acabou por ter uma preocupação com a família. A que uma mulher naquela altura tinha que ter, acrescida pelo facto de ser a única mulher em quatro irmãos, que depois foram todos padres. A educação dela aconteceu nesse diálogo com os irmãos que estudavam, e acabou por fazer a educação em casa. Ela buscava a vida religiosa, e procurou num ou outro convento da época mas não se sentia muito identificada.  

 

Mas não é em Génova que funda a Congregação…

Aí pelos vinte anos, também por razões de saúde, acaba por ir ajudar o irmão, padre José Frassinetti, pároco de Quinto, a cerca de 20 quilómetros de Génova, numa zona perto do mar. Aí ela sente a dureza da realidade e começa a ensinar as crianças mais pobres, e a dar atenção às jovens que queriam alguma coisa mais. É aí que a pouco e pouco se vai fazendo a busca, e em 1834 funda o instituto numa casinha em Quinto, criando logo uma escolinha para as crianças mais pobres. Estamos na 1ª metade do século XIX, no início da era industrial em que as raparigas são as que ficam mais marginalizadas, sem acesso à instrução e à sociedade. Um ano depois o padre Lucas Parsi, que fundara uma obra chamada “Pia Obra de Santa Doroteia” com o objectivo de reunir as jovens nos seus lugares, nas suas paróquias e formar grupos em que as mais velhas apoiassem as mais novas, acompanhadas num crescimento humano, procurava congregações nascentes que assumissem a obra para lhe dar continuidade. Era assim uma espécie de Acção Católica, antes do tempo! E a nossa fundadora foi uma das que assumiu essa obra. E tão importante a achou, como meio de chegar às raparigas e de lhes poder dar uma formação humana e cristã, que mudou o nome da congregação para “Irmãs de Santa Doroteia”.

 

Encontramos já aí estes dois pilares do vosso carisma que são a educação e a promoção da mulher?

Evidentemente que a promoção da mulher naquela altura acontece porque a mulher era a mais fragilizada. Paula Frassinetti funda algo que responda à realidade da época, porque sentia as necessidades da época. Era uma mulher sem estudos. Não foi pedagoga no sentido que hoje atribuímos ao termo mas uma grande educadora. A partir dela o nosso trabalho é no campo da educação. Claro que durante muito tempo entendemos a educação privilegiando a escola. Começou-se em Génova, depois foi-se para Roma, alargando o leque. Também sempre estivemos muito ligadas a situações de crianças que hoje chamamos “em risco”. Isso aconteceu na nossa primeira presença em Roma. Depois a presença foi passando pelos colégios e pela “Pia Obra de Santa Doroteia” que acabou por consolidar a nossa inserção nas paróquias e a nossa dedicação à catequese. Aqui em Portugal, este trabalho foi muitas vezes chamado “a obra da Catequese”. No Patriarcado de Lisboa as irmãs chegaram a sítios espantosos, iam organizar a catequese em muitas paróquias.

 

Quando chegaram a Portugal?

Em 1866 aconteceu a primeira expansão para fora de Itália, para o Brasil e para Portugal. Havia contactos com algumas pessoas que já tinham ido a Itália.

 

Tinham passado 32 anos após a extinção das ordens religiosas. Não deve ter sido fácil…

Foi um tempo muito complicado. Elas entraram mais ou menos clandestinas. Trabalharam com os jesuítas. A casa era o Colégio do Quelhas onde agora é Faculdade de Ciências. Não traziam hábito. Foram muito difíceis os primeiros tempos. Até 1910 houve uma expansão e depois foram novamente expulsas. Começaram a voltar em 1918. Mas, expulsas de Portugal, foram parar à Bélgica, a Inglaterra, ao Brasil, aos Estados Unidos, e à Suíça. Houve um grande alargamento da Congregação por causa destas dificuldades.

 

Foram também para África…

Chegaram a Angola em 1934, cem anos depois da fundação, e a Moçambique em 1967. Hoje Angola é uma província organizada com as irmãs de lá. Claro que em 1974 vieram muitas portuguesas embora mas nunca deixássemos de lá estar. Acabaram por ir para outros sítios. Tínhamos colégios que agora estão a voltar

 

Que desafios para a vossa presença na Igreja e no mundo?

Os desafios são grandes porque na Europa as congregações do nosso tipo, congregações apostólicas, têm poucas vocações. Vão agora iniciar o noviciado em Angola três raparigas de lá, três de Moçambique e uma de Portugal. Estamos num momento de reflexão e de redefinição porque queremos assumir realidades novas e consolidar realidades em que estamos. O desafio é continuar a educar e a evangelizar. E evangelizar nesta Igreja da Europa não é nada fácil. Sentimos o desafio de responder à presença nas nossas instituições educativas, com todas as dificuldades que se põem hoje, e responder às necessidades das pessoas. Sabemos como o ensino particular é tratado e há muitas pessoas que gostariam de estar connosco e não podem estar. Mas também assumimos a presença na Igreja local e temos algumas comunidades que estão inseridas a nível social e evangelizador.

 

Com que traços descreveria a actualidade de Santa Paula Frassinetti?

É uma grande educadora, no sentido de fazer com que o melhor de cada pessoa possa vir cá para fora, se possa desenvolver. Que pelo nosso contacto as pessoas possam ser ajudadas a crescer. O nosso conceito de educação foi-se alargando e é muito bonito o que dizemos que é educar e que nos vem dela [lê]: “Educar para nós, significa deixarmo-nos possuir pela pedagogia do evangelho, que leva a pessoa a descobrir que é amada por Deus, a acreditar nesse amor e a crescer como pessoa até à plenitude da maturidade em Cristo”. Isto é muito dela. Esta capacidade de, por onde passava, e as pessoas que tocavam a sua vida ganharem gosto de crescer e de se desenvolverem ao máximo. Depois há três traços fundamentais que procuramos passar no serviço que fazemos. A dimensão da simplicidade e o ir ao essencial, dando uma formação sólida que unifica a pessoa; o espírito de família, criando uma escola com uma dimensão do espírito de família que é a capacidade de as pessoas poderem relacionar-se e fazerem a aprendizagem do amor; e a dimensão do dom de si, do espírito de serviço, a dimensão da solidariedade. Ela sempre dizia que educar as crianças é transformar o mundo e conduzi-lo à verdadeira vida. É muito forte para nós esta preocupação da transformação da realidade.

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