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Maria Benedita Costa
Uma lição verdadeira de Evangelho vivido
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A três dias de celebrar os 105 anos faleceu, em Lisboa, Maria Benedita Costa, com a tranquilidade de quem sentia ter cumprido bem a sua missão na terra. Grande parte da sua vida foi vivida ao serviço da Diocese de Lisboa, no apoio à formação nos seminários e na presença junto de cada seminarista.

 

Na Residência dos Velhinhos, das Irmãzinhas dos Pobres, em Campolide, Lisboa, estava tudo preparado para celebrar os 105 anos de Maria Benedita Costa, no dia 2 de setembro. Às 11 horas daquela segunda-feira, o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, iria presidir à celebração da Eucaristia na capela daquela casa, e o Jornal VOZ DA VERDADE estava preparado para acompanhar e testemunhar esse momento. Mas, contrariando as expectativas, embora correspondendo ao desejo desta mulher centenária de grande profundidade espiritual, os seus 105 anos foram celebrados no Céu. “A Dona Benedita uns dias antes do dia do seu aniversário, em que iria celebrar os 105 anos, dizia: ‘Não, eu não vou celebrar aqui, vou celebrar no Céu’. E apontava o seu dedinho para o céu manifestando esse desejo”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE a superiora da Residência dos Velhinhos, irmã Natália de Jesus.

 

Os últimos momentos

“Na sexta-feira, dia 30 de agosto, em que por coincidência celebrávamos a festa da nossa Madre Santa Joana Jugan, a irmã que foi fazer a higiene da Dona Benedita percebeu que ela estava um pouco cansada e debilitada. Foi-lhe dado soro e oxigénio para a ajudar a respirar melhor e antes da Eucaristia, pelas 11 horas, pedimos ao padre João Nogueira para ir vê-la e dar-lhe o Sacramento dos doentes. Ela estava bastante lúcida! Recebeu conscientemente esse Sacramento; foi-lhe dado o almoço e exprimiu o seu desejo de receber Nosso Senhor que recebeu também com muita lucidez. Pegou, então, na mão do padre João, beijou-a e disse: 'Muito obrigada, senhor padre'. Ali ficou, tranquila. Durante a tarde percebemos que baixava, pouco a pouco, a sua respiração. Estava tranquila e sem aparente sofrimento. Foi-se apagando como uma vela, e por volta das 17h15 partiu sem medo”, testemunha a irmã Natália de Jesus.

 

Vida discreta

Maria Benedita Costa era uma mulher desconhecida do grande público, porque toda a sua vida foi de grande discrição, no que fazia e na forma como vivia. Durante cerca de 70 anos serviu os seminários do Patriarcado de Lisboa, convivendo com seminaristas e padres dos seminários de Almada e mais recentemente de São José de Caparide. Em declarações ao Jornal VOZ DA VERDADE, na edição de 14 de setembro de 2008, quando celebrava o seu centenário, contava que tinha começado a sua vida em Santarém num colégio da sua madrinha, Luísa Andaluz, a fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima. “Estive muitos anos em Santarém e foi lá que comecei a minha vida”. Madre Andaluz gostava muito dos pobres e por vezes mandava as raparigas dar catequese muito longe. “Ela gostava de nos mandar para onde houvesse pobres”, recordava a Dona Benedita.

Ainda no colégio, começou a trabalhar, aos Domingos e nas horas vagas, para o Seminário de São Paulo, em Almada. O padre Campos, vice-reitor do seminário, lança-lhe o desafio de levar consigo algumas raparigas para trabalharem para o seminário, mas fora do seminário. “Almada era um meio complicado, mau”, confessava. E lembrava que “houve alguém que nos espiou no largo – ao pé do cruzeiro – a ver se íamos para o seminário”. Como as idas e vindas eram pouco frequentes parece que levantaram o boato de que existiria “um túnel entre a creche e o seminário”. Apesar de tudo, Dona Benedita frisava que nunca sentiu maus tratos por parte dos vizinhos ou da população. Eram outros tempos, em terras onde a religião tinha perdido o seu peso. D. Manuel Gonçalves Cerejeira, antigo Cardeal-Patriarca de Lisboa, quando foi benzer a casa disse: “Daqui para cima ninguém sobe. Já sabem que agora vão ser muito maltratadas. Vão dizer que são amigas dos padres e muitas outras coisas”, contava ao Jornal VOZ DA VERDADE.

 

Missão no Seminário de Almada

O primeiro curso do Seminário de São Paulo tinha 22 alunos. Era necessário lavar roupa, fazer limpezas, tratar para que tudo ficasse na perfeição. Para além da Dona Benedita havia muitas outras raparigas novas – algumas eram da Benedita, perto de Alcobaça. A sua formação deve-a principalmente ao padre Campos: “Ele ensinou-nos o espírito de fé e como é que devíamos olhar para um seminarista”. “Eles são a esperança de um sacerdote e o sacerdote um representante de Deus e por isso devíamos amá-lo e servi-lo”, referia. Na casa das raparigas havia um grande espírito de piedade e de oração, mas só em 1940 Dona Benedita consegue que o vice-reitor pedisse para que houvesse a Eucaristia lá em casa. Foi a 25 de Março desse ano que a capela recebeu a Eucaristia: “O meu quarto – contava Dona Benedita – era paredes meias com a capela”. 

 

“Temos muito que agradecer à Dona Benedita”

Ao longo da sua vida Maria Benedita Costa fez tudo para que nada faltasse aos seminaristas com quem contactou nos seminários. As suas maiores alegrias estavam em “ver os seminaristas avançar e serem padres”, salientava. “Quando nos damos por uma causa, essa causa é que dura sempre e o fim dessa causa é a alegria”, acrescentava. Não escondia, no entanto, que as suas maiores amarguras e tristezas encontravam-se quando via os padres abandonarem o ministério: “E ainda hoje sinto, mas não condeno. Posso lamentar, ter pena e sofrer com isso, mas não critico...”, salientava, em 2008.

Na reportagem publicada, há cinco anos, pelo Jornal VOZ DA VERDADE, Dona Benedita fazia questão de afirmar que a Igreja não lhe devia “favores nenhuns”. “Eu é que devo à Igreja e ainda por cima agora que estou aqui e sou uma inútil, não faço nada. Não fiz nada à Igreja, ela é que está a fazer por mim”, observava, na época em que se encontrava no Seminário de Caparide. No entanto, na celebração de exéquias, presidida pelo Patriarca de Lisboa e concelebrada por cerca de meia centena de padres das dioceses de Lisboa e Santarém, na passada segunda-feira, 2 de setembro, D. Manuel Clemente não deixou de apontar a importância desta mulher no Patriarcado de Lisboa. “Temos muito que agradecer à Dona Benedita. Os seus tantos anos de serviço tão dedicado à nossa Igreja e muito particularmente aos nossos seminários e à causa da formação sacerdotal”. “Vidas como a da Dona Maria Benedita alargam-nos os horizontes acerca do que é a Igreja”, destacou D. Manuel Clemente na celebração realizada na capela da Residência dos Velhinhos, em Campolide.

 

Presença muito silenciosa, orante e atenta

Quando em finais da década de 90 o Seminário de São Paulo, em Almada, foi entregue à Diocese de Setúbal, Dona Benedita mudou-se para o Seminário de São José de Caparide, onde veio a viver os seus últimos anos, até ao passado mês de março deste ano 2013. Segundo o atual vice-reitor deste seminário, padre Nuno Amador, “a presença de Dona Benedita no seminário significou muito” tornando-se difícil encontrar palavras para descrever o sentimento. “É difícil dizer o que ela significou no seminário, primeiro em Almada e depois em São José de Caparide. Foi uma presença, em primeiro lugar trabalhadora, de uma dedicação incansável à Igreja, à formação dos padres. E agora, já nesta última fase no Seminário de Caparide, de uma presença muito silenciosa, orante e atenta”. Embora com os seus quase 105 anos, Dona Benedita mantinha a lucidez que lhe permitia conhecer cada um daqueles que tinha encontrado durante a sua vida. “Ela conhecia cada um e entregava também cada um no coração de Deus. Era alguém que trazia também a vida de Deus para a vida do seminário”, testemunha ao Jornal VOZ DA VERDADE o padre Nuno Amador.

 

Ter Cristo no centro da vida

Para este sacerdote responsável pela formação dos seminaristas em Caparide, o que esta mulher tinha de especial “era a sua relação com Jesus Cristo”. “Isso é o mais especial de tudo e de fazer disso o centro da sua vida. Era algo marcante, não só para ela, e via-se na sua vida. Mas era marcante na vida daqueles que se cruzavam com ela, e na vida dos seminaristas. O testemunho de vida cristã e de oração, trabalho, serviço, dedicação era uma marca muito forte”, acentua o padre Nuno Amador, acrescentando: “Penso que ficará para sempre na história dos seminários em Lisboa”.

Nestes últimos anos de vida Maria Benedita Costa alimentou o desejo de partir para o Céu. Hoje, o padre Nuno Amador acredita que esta mulher “estará certamente a fazer bem à terra agora já no Céu”. “Nosso Senhor fez-lhe a vontade. Ela pedia muitas vezes que Ele a viesse buscar e dizia que queria fazer os 105 anos no Céu. Certamente hoje faz o aniversário no Céu e nós fazemos também com ela essa celebração da vida porque acreditamos que ressuscita em Jesus”.

 

Um rosto de Evangelho vivido

Esta intimidade e relação profunda com Deus foram também reconhecidas pelo Patriarca de Lisboa. Foram “105 anos de vida repleta, neste mundo, do Espírito de Jesus Cristo, no serviço humilde, discreto, profundamente repassado na intimidade com Deus e na oração cristã e deposta nas mãos do Pai onde tudo pode e deve recomeçar”, destacou D. Manuel Clemente, na celebração de exéquias. “Demos graças a Deus pela vida, pelo trabalho e pela obra da senhora Dona Maria Benedita e pela forma como ela deixou o Espírito de Jesus Cristo reproduzir-se nela para bem de tantos. Tantas gerações de seminaristas e de padres, de pessoas que de um modo ou de outro contactaram com ela, como eu tive o gosto de o fazer nestes últimos 40 anos. Quanta lição verdadeira de Evangelho vivido e autêntico assim reproduzido e que hoje tem o rosto e o nome e a memória já da senhora Dona Maria Benedita”.

texto por Nuno Rosário Fernandes; fotos por Pedro Tavares
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