Doutrina social |
Escravidão e liberdade
A Páscoa na prateleira
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Celebramos nestes dias a Páscoa, o núcleo da nossa fé, como memória do acontecimento que revela o projeto de Deus para os seus filhos e que consiste em deixar a escravidão e passar para a liberdade.

 

É a memória revivida na Páscoa que os Judeus celebram; é a memória revivida que Jesus celebra com os seus discípulos, mas à qual dá uma dimensão de plenitude: Ele é a vítima que se oferece para remissão dos pecados, ou numa expressão muito sua “para que todos tenham a vida em abundância”. O povo de Deus está marcado por uma consciência de êxodo permanente, ansiando ultrapassar obstáculos e almejando uma libertação mais profunda.

 

Construir o futuro no presente
Páscoa e Êxodo fazem parte da mesma dinâmica que abrange a vida do crente. O Deus do Êxodo é o Deus de Jesus, Aquele que conhece a situação de opressão em que se encontra o seu povo e que deseja libertá-lo. Aquele que, por vezes, fica ofuscado no meio de ritos, de tradições e sobretudo quando não se quer vê-lo envolvido na vida concreta das pessoas; não se quer vê-lo no presente, porque Ele questiona esse presente quando esse não permite tornar possível o futuro. A Páscoa não se identifica com a primavera (o que já os pagãos faziam), mas tem de ser uma força a renovar aquilo que perde vigor e sentido.

 

O nosso presente
Muitas interrogações me invadiram nestes dias no meio de tantas manifestações religiosas, enquadradas em situações semelhantes às dos hebreus no Egito. Muitos ritos, mas sem apontarem com suficiente clareza para o Deus que realmente deve ocupar o primeiro lugar, numa altura em que Ele é substituído pelo ídolo do poder nas suas variadas manifestações, como a supremacia da finança e da economia sobre a política, a desvalorização crescente da dignidade da pessoa humana ou o curto horizonte do sentido da vida. Numa época de progresso inigualável, vive-se no medo de perder o trabalho ou na angústia de não o encontrar; conquistas conseguidas ao longo de séculos, hoje nada contam para quem governa o mundo. Dada a primazia ao lucro, já nada conta para além dele. Na nossa União Europeia, com cerca de 400 milhões de trabalhadores e de consumidores, já temos 19 milhões de desempregados, correndo estes o risco da pobreza e da marginalização. Todos os trabalhadores vão interiorizando o medo, desde o diretor ao mais insignificante tarefeiro; todos se vão tornando mendigos de trabalho. Mas ainda há pior: as oligarquias internacionais que só procuram maximizar o lucro não sentem remorsos em estabelecer capatazes com a missão de manipular os outros como meras peças da engrenagem, ignorando pura e simplesmente o tempo de trabalho, a idade e a experiência. Cada vez mais se ouve: “se não quiser aceitar, tem três ou quatro jovens à espera de ocupar o seu lugar”. Recordo o sobrevivente Shlomo Venezia, autor do livro “Sonderkommando”, onde ele descreve com pormenor o horror do holocausto e confessa que “nos primeiros dez ou vinte dias estava em constante estado de choque pela enormidade do crime, depois para-se de pensar”. Cada dia preferia morrer e, no entanto, cada dia lutava para sobreviver. O Faraó de ontem tem as suas réplicas nos nossos dias e não vejo menor gravidade na situação atual: a infâmia de mandar matar os meninos recém-nascidos leva-nos a compará-la à sangria no tecido social provocada pela saída dos mais jovens, com todo o potencial de vida e de saber que carregam consigo; ou ainda às políticas que impedem a renovação demográfica do país, transformando a maternidade num risco ou num acréscimo insuportável de encargos.

 

Onde deixaram a memória?

O sonho de uma Europa unida vai-se desvanecendo. Sem memória ou sem liberdade para atendê-la, os governantes estão na linha da subserviência aos senhores do mundo e da guerra, às oligarquias internacionais, aos chefes sem rosto, atribuindo aos seus cidadãos apenas o direito de aceitarem o que os outros querem para eles. Que eles são assassinos da liberdade, da justiça, da fraternidade e dos sonhos, talvez mais tarde se venha a reconhecer; mas se calhar será demasiado tarde. Os últimos Papas têm-nos alertado para isso através de uma rica doutrina social. Ainda nestes dias vozes qualificadas, a começar por Francisco, apontaram para a ferida, como aconteceu na Via Sacra da Sexta-feira Santa ou nas homilias de vários bispos no dia de Páscoa. Mas essa doutrina não pode ficar inócua, sob pena de deixarmos os ídolos no altar e a Páscoa na prateleira.

texto por P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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