Entrevistas |
Dia Internacional dos Museus
“Um museu tem uma missão pastoral”
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A criação de uma rede de museus e a abertura a parcerias com as autarquias, na Diocese de Lisboa, são algumas propostas para o bom funcionamento dos museus paroquiais. No Domingo em que se celebra o Dia Internacional dos Museus, André Afonso, mestre em museologia e museografia, apresenta ao Jornal VOZ DA VERDADE algumas conclusões de um estudo realizado a doze museus do Patriarcado. 

 

Escreveu uma tese sobre os museus eclesiásticos e a sua missão pastoral, centrando-se de forma específica no que é esta dimensão cultural do Patriarcado de Lisboa. O que é este estudo?

É uma tese que parte de um problema de investigação muito concreto: em primeiro lugar, ver que os museus da Igreja são diferentes dos outros museus. Há uma distinção tipológica, conceptual. É sobretudo essa dimensão pastoral que deve estar presente nos museus da Igreja e deve ser de facto o seu centro. Um museu tradicional tem como funções desenvolver investigação, incorporar e conservar as suas coleções, lidar com toda a documentação e arquivo, e educação, exposição e interpretação. O museu eclesiástico tem naturalmente de desenvolver todas estas funções mas, acima de tudo isto, tem uma missão pastoral que vai de certa forma dirigir estas funções museológicas para uma prática pastoral. Neste sentido, esta tese visava analisar como é que esta dimensão pastoral se encontra desenvolvida no contexto do tecido museal do Patriarcado de Lisboa, investigando os obstáculos e necessidades que se colocam na operacionalização desse determinante vector.

 

Como é que se especifica isso?

Esta tese divide-se em três aspectos essenciais. Por um lado, analisa aspetos mais teóricos sobre o que é o património da Igreja. Pegar no que existe escrito sobre essa temática, olhando para os documentos do Conselho Pontifício para os Bens da Igreja, conhecer as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa, saber o que diferencia o património da Igreja do restante património de tutela estatal. Numa segunda parte há um estudo de caso, aplicado à realidade do Patriarcado de Lisboa, analisando os museus que existem no Patriarcado. Era algo que não estava esclarecido. Havia muitas dúvidas. Havia conhecimento de algumas unidades ao longo do Patriarcado de Lisboa, mas desconhecia-se a existência, não se encontravam estudadas e acabámos por sistematizar, com muita pesquisa, estes museus do Patriarcado de Lisboa. Estes museus foram analisados dando maior atenção à sua missão pastoral. Conhecer o que existe, as coleções que têm, como se encontram organizados, como gerem os espaços, as condições de abertura ao público, que atividade desenvolvem para o público e como se encontra essa dimensão pastoral inserida nessas atividades. Numa terceira parte, analisando cada museu e analisando o tecido no seu todo, verificando se há ou não um tecido ou se são unidades dispersas pelo território sem nenhuma relação entre elas, e sem nenhuma relação com o Patriarcado, nomeadamente com o Centro Cultural do Patriarcado. Assim, tendo em conta os obstáculos encontrados apresenta-se uma proposta do que se pode tentar fazer para corrigir esta realidade, em cada um, mas sobretudo no seu todo.

 

E que proposta apresenta neste estudo?

É a construção de uma rede de museus e coleções visitáveis do Patriarcado de Lisboa. Uma rede é, de certa forma, uma coisa um pouco informal, coordenada por uma instância que não tem de ser a instância que tutela este espaço. A maior parte dos museus que verificámos não são museus no seu sentido tradicional. Não desenvolvem as referidas funções museológicas que são definidas pela Lei portuguesa no conceito de museu, que o define como coleção visitável. Alguns destes espaços enquadram-se nesse conceito, mas muitos não. Esta rede pode ser uma plataforma importante para corrigir muitos dos problemas verificados. Alguns destes museus que estudámos vão surgindo da vontade particular do pároco ou de um colaborador, por vezes sem grande interesse ou empenho do resto da comunidade. Por vezes, estes espaços fecham portas a curto ou médio prazo, ou quando o pároco muda de comunidade. São, assim, espaços sem grande sustentação, sem grande gestão que permita desenvolver um trabalho qualificado ao longo do tempo.

 

O que falta para que seja possível estruturar esta rede que apresenta e que implicações teria?

A construção desta rede iria tentar colmatar muitos dos problemas que existem, por um lado, ao nível da sensibilização para estas questões olhando para o modo como estas coisas se devem fazer e o que não se deve fazer. Esta rede, como apresento na tese, seria tutelada e coordenada pelo Centro Cultural do Patriarcado. No entanto reconheço que neste momento o Centro Cultural do Patriarcado tem a equipa muito reduzida, o que torna a tarefa mais complicada nesta fase. Porém, a proposta desta rede implicaria ter um coordenador geral, um secretariado, um sector de programação museológica e museográfica, e um sector de comunicação, marketing e parcerias. Assim, esta rede acabaria por ser também um espaço para dar formação, consultadoria sobre o modo como se deve fazer um museu.

 

Que benefícios podem advir das parcerias?

Há um aspecto muito importante que encontrei em alguns dos museus do Patriarcado que é o facto de que quando existem parcerias desenvolvidas com autarquias locais, nomeadamente, conseguem-se construir espaços muito interessantes que desenvolvem de forma qualificada as funções museológicas. Conseguem ter, inclusive, uma participação da própria comunidade no estudo, inventariação do património, e até desenvolver ações para a comunidade. Há exemplos de museus onde existe esta parceria mas acontece que depois as paróquias alheiam-se daquilo que é a dinamização destes espaços. A dinamização das atividades fica centrada na atividade desenvolvida pela câmara municipal, como é o caso do centro interpretativo de Atouguia da Baleia. De certa forma, a câmara não vai evidenciar essa dimensão pastoral. Se fosse a paróquia naturalmente poderia colocar alguns aspetos relacionados com essa dimensão. Por outro lado, em Óbidos, o museu paroquial tem uma parceira sólida com a câmara municipal e consegue ter estruturas qualificadas para conservar, expor e estudar o património. Este museu desenvolve exposições de temáticas cristãs, sobre a Santíssima Trindade, sobre o simbolismo da cor litúrgica e o próprio espaço está bem organizado e as peças bem expostas. Este é um aspecto crucial, e a rede desenvolveria também um papel de intermediação entre uma paróquia que tem um museu, ou quer criar um museu, e as autarquias locais que podem muitas vezes apoiar, mesmo financeiramente e com recursos humanos, a construção destes espaços.

 

Que dimensão pastoral pode ter um museu?

A missão pastoral vai verificar-se ao longo da realização das várias funções museológicas, na investigação, no estudo, na educação, na exposição, etc. Todas essas funções têm de ter alguns elementos dessa dimensão pastoral. Por exemplo, no caso da investigação um museu pode desenvolver um estudo da história da presença do cristianismo naquele território, em concreto. Pode também, ao nível das exposições, desenvolver temáticas relacionadas com a doutrina cristã, com a liturgia... pode haver exposições temáticas durante a Quaresma, a Páscoa, o Advento... as pessoas por vezes fixam melhor aquilo que veem do que o aquilo que ouvem. Há uma sensibilização para esta questão da imagem através do património que a Igreja sempre utilizou através do tempos e muitas das obras de arte realizadas para as igrejas tinham também esta dimensão catequética que pode ser aproveitada nos museus. Por exemplo, podem desenvolver-se, de forma criativa, sessões de catequese in loco, no espaço de um museu. Os museus podem ser, por isso, um espaço de evangelização, de catequese, mas também átrios dos gentios abertos a não crentes e pessoas de outras confissões para mostrar o que é a Igreja e no que a Igreja acredita. Não o podemos fazer com uma perspetiva proselitista mas tem potencialidades enormes e precisa ter também as pessoas qualificadas para que as coisas se concretizem de forma qualificada.

 

Neste estudo apresenta doze museus na diocese. Estarão eles a cumprir essa missão pastoral?

Infelizmente acho que não, sobretudo porque creio que muitos deles foram criados com uma dimensão de conservar, com alguma segurança, o património que expõem. No entanto, parece-me que as metodologias não são as melhores, mesmo em questões de segurança. Por outro lado, alguns espaços não têm sequer um horário regulamentado de abertura ao público e os museus são apenas museus de 'arte sacra'. O património da Igreja é muito mais vasto e podem ser muito mais coisas, mesmo coleções etnográficas. O núcleo museológico de São Mamede da Ventosa não tem arte sacra nenhuma. É uma simples coleção etnográfica que foi recolhida pelo pároco junto da comunidade. Depois acaba por ser uma recolha de objectos... mas podia criar-se ali alguma coisa de interessante. Estes museus não têm parcerias com as autarquias e nem sequer com o Centro Cultural do Patriarcado.

 

A maior parte dos lugares onde existem estes museus são paróquias pequenas, com escassos recursos para implementar um museu com as características que sugere. Como é que esse trabalho de evolução pode ser feito, tendo em conta as dificuldades económicas e os investimentos necessários?

Aí entraria a rede. Para a gestão e funcionamento, nas paróquias mais pequenas, tem de haver parcerias com as autarquias. Aqui a rede serviria para ser intermediária para apoiar, na medida do possível, ajudando também na criação de um programa de exposições, na formação e criando equipas rotativas para o funcionamento do museu.

 

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Apresentou este estudo aos responsáveis do Departamento da Cultura no Patriarcado?

Apresentei recentemente, mas ainda não tive reações. Ao longo de todo o processo e mesmo para estudar todos os espaços entrei em contacto com todos os párocos das paróquias envolvidas neste estudo, com o diretor do Centro Cultural, o cónego Nuno Isidro, o padre António Pedro Boto Oliveira, que tem um conhecimento grande desta realidade, e o padre Bruno Machado, diretor do serviço de museus e exposições do Centro Cultural. Fiz algumas entrevistas também. Falei com o cónego Manuel Alves Lourenço que também foi o responsável pela criação do Tesouro da Sé que ao nível eclesiástico apresenta um discurso completamente inovador para a altura em que abriu, em 1993.

 

O que o levou a realizar este estudo?

Sou católico e venho da diocese de Setúbal. Neste momento trabalho no Museu Nacional de Arte Antiga e quando decidi ingressar no mestrado em museologia e museografia da Universidade de Belas Artes de Lisboa li a tese de doutoramento da professora Maria Isabel Roque - 'O Sagrado Museu' - que é muito citado na minha tese. Este livro mudou muito a minha perspectiva sobre estas questões dos museus e fez-me dirigir um interesse muito particular em relação aos museus da Igreja.

 

Porquê o Patriarcado de Lisboa como objecto do seu estudo?

Entretanto, já trabalhava em Lisboa há algum tempo, passava muito tempo cá e já tinha alguns contactos. Na Diocese de Setúbal, por seu lado, não há praticamente museus, embora saiba que há algumas coisas a serem planeadas. Também já tinha participado em algumas iniciativas do Centro Cultural do Patriarcado, conhecia o Tesouro da Sé, e por isso sabia que havia mais espaços em Lisboa para realizar este estudo. É um estudo com uma dimensão muito prática e por isso espero e gostaria que os responsáveis destes museus vissem algumas destas conclusões e pudessem estudá-las, tentando aplicar alguma coisa do que é sugerido.

texto por Nuno Rosário Fernandes; fotos por Diogo Paiva Brandão e André Afonso
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