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Projeto ‘Dar e Receber’
O Google da caridade
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O portal ‘Dar e Receber’ nasceu há cerca de seis meses, já agrega mais de 90% das instituições de solidariedade existentes em Portugal e pretende ser “uma espécie de Google da caridade”.

 

São milhares as caixas que se acumulam num antigo parque de estacionamento de Alcântara. Milhares de caixas devidamente etiquetadas e empilhadas, parte delas já prontas para seguirem para a sua nova casa – instituições de solidariedade social que devem distribuí-las a quem mais precisa. Sapatos, roupa, brinquedos, fraldas, detergentes, produtos de higiene pessoal, computadores, impressoras podem agora chegar a instituições de Norte a Sul do país que estejam necessitadas destes bens.

Nascido de uma parceria entre a Cáritas Portuguesa e a Entrajuda, o projeto ‘Dar e Receber’ pretende ser, nas palavras da presidente da direção da Entrajuda, Isabel Jonet, “uma espécie de Google da caridade”. Pela quantidade de instituições e voluntários já registados, está no bom caminho para o conseguir. O portal agrega instituições de solidariedade social que necessitam de apoios em material e permite que empresas e particulares se inscrevam como doadores. Por exemplo: se uma empresa em Braga tiver uma impressora para doar e uma instituição de Faro precisar de uma, através do portal www.darereceber.pt vão ficar a saber da existência uma da outra e poderão fazer a impressora atravessar o país para ser reutilizada. De outra forma, provavelmente a empresa dá-la-ia para destruição e a instituição continuaria à procura de uma impressora…

 

O exercício do serviço com amor

Este projeto tem uma forte componente “de consciencialização”. “Quando se vê um armazém como o do Banco de Bens Doados, tomamos consciência do desperdício que existe a nível macro, mas também a nível micro, como em nossas casas. E tomamos consciência de que o futuro do planeta, e até da sociedade como um todo, não é sustentável", reforça Isabel Jonet, ao Jornal VOZ DA VERDADE. "Não é possível deixar para os nossos filhos e netos um mundo em que a necessidade de consumo é de tal maneira imperiosa que faz com que haja este desperdício louco de recursos", continua, lembrando a quantidade de paletes doadas que se encontram no armazém do ‘Dar e Receber’, em Alcântara. Os dois andares do parque de estacionamento, no Bairro da Quinta do Cabrinha, onde funciona este projeto estão cheios. Grande parte do material à espera de ser doado – exceto os computadores – é novo (ainda vem nas embalagens e devidamente etiquetado) e oriundo de grandes empresas do país. "O segundo aspeto deste projeto é a necessidade de aproveitar esses recursos, pondo-os ao serviço das instituições que têm menos meios financeiros, permitindo libertarem tempo e outro tipo de recursos para áreas que são mais necessárias na sua atividade, como os recursos humanos", nota, explicando: “Nós temos uma população cada vez mais envelhecida e vamos precisar de cada vez mais de recursos humanos para tratar dessa população. Então, se pudermos mobilizar os equipamentos, os materiais e as pessoas para facilitar esse trabalho, as pessoas mais velhas podem ter um tratamento mais carinhoso e mais adequado”.

A plataforma online é bastante intuitiva e muito rapidamente se percebe como funciona, um requisito que era essencial para os mentores do projeto. Este portal “quer mobilizar toda a população mas serve as instituições. E tem que facilitar o trabalho dessas pessoas”, afirma Isabel Jonet, referindo ainda que não é por se fazer a partilha através de uma plataforma virtual que a caridade desaparece. “Às vezes pode-se pensar: ‘Como é que através de uma plataforma online eu posso incentivar a caridade?’. Porque posso libertar recursos que me permitem aproximar mais dos outros. Em que posso mais facilmente praticar a caridade porque tenho mais instrumentos para ajudar o outro. O trabalho da caridade só se faz com amor. Aliás, é essa a grande diferença entre solidariedade e caridade, que é o exercício do serviço com amor”, reforça a presidente da Entrajuda.

 

Como se processa?

O portal ‘Dar e Receber’ pretende otimizar as partilhas entre quem mais tem e quem mais precisa, evitando o desperdício e apelando à reutilização. “O impacto social desta partilha é enorme”, mas Isabel Jonet também alerta para o impacto ambiental deste tipo de práticas. "Quando os hotéis remodelam os seus quartos, quando empresas remodelam o seu parque informático ou equipamentos mobiliários, quando há diminuições de agências de um grande banco, que têm muitos armários, muitas secretárias, muitas cadeiras... quando numa grande seguradora se mudam todas as impressoras e dentro dos economatos ainda há os toners cheios e doam tudo isso, imagine o impacto ambiental que não tem”, descreve Isabel Jonet. Todos estes materiais podem agora deixar de ser destruídos e, através do ‘Dar e Receber’, encontrar uma nova casa nas instituições do terceiro setor.

O processo é simples: qualquer empresa ou particular pode doar bens, mas estes só serão entregues a instituições de solidariedade social, que depois se encarregam de os encaminhar às pessoas de que deles precisem. Se uma família carenciada souber que alguém tem exatamente as camas de que precisam, pode dirigir-se à instituição mais próxima de sua casa e pedir que seja feita a intermediação da doação. Se contactar diretamente o ‘Dar e Receber’, será encaminhada para a instituição mais próxima da sua área de residência, através da qual se fará a doação.

Esta opção por doar apenas através das instituições surge porque "o bem em si tem que fazer parte de uma ajuda mais integral e pretende, por um lado, ajudar a família a mudar a sua situação, que se quer pontual, e por outro responsabilizar a própria família quando recebe um bem", justifica Isabel Jonet. "Porque muitas vezes as pessoas recebem bens, apoios e ajudas de qualquer tipo, até em dinheiro, subsídios, o que seja, mas passam a encarar esses bens como algo a que tem direito e não como algo que é uma ajuda para uma fase que tem que ser de transição".

Todas as instituições que estão registadas no ‘Dar e Receber’ já receberam a visita dos voluntários do projeto – cujo número é "incontável”. “São centenas deles em todo o país, porque temos que ter a certeza de que as instituições existem e que podem fazer um trabalho consistente e que não se está a duplicar estruturas e respostas que já existem. Um site deste género pode também ajudar a disciplinar este tipo de coisas, a trabalhar em rede", explica a presidente da Entrajuda.

 

O convite da Cáritas

O portal ‘Dar e Receber’ foi apresentado formalmente em abril deste ano, apesar de ter estado a ser trabalhado desde dezembro de 2013. O portal surge como "resposta a um convite da Cáritas Portuguesa para se fazer algo no âmbito do POPH – um programa da União Europeia – porque havia algumas verbas disponíveis para se fazer algo diferente. Portanto, em vez de duplicar recursos, achámos que era hora de evoluir”. A Entrajuda já tinha “a Bolsa do Voluntariado e o Banco de Bens Doados físico. Então, decidimos fazer o banco de bens doados online [www.bancodebensdoados.pt], para facilitar a doação mais próxima. E juntamos assim o que, para mim, é a coisa mais importante deste projeto: nós todos somos confrontados com situações de necessidade à nossa beira e muitas vezes queremos ajudar e não sabemos como. Acreditamos que com o www.darereceber.pt iriamos criar uma espécie de motor de busca das instituições da solidariedade social no país inteiro, mas de uma forma segmentada. Em vez de ser por código postal, organizam-se por área de atuação", o que facilita a procura para quem dá e também para quem recebe.

 

Participante do mundo

Atualmente o site conta com cerca 3.900 instituições registadas e com 30 mil voluntários inscritos. No Facebook, só a Bolsa do Voluntariado conta com mais de 60 mil ‘Gostos’, um bom sinal para as instituições. A palavra, aqui, é o amor. A maneira como se encara o voluntariado mudou muito nos últimos anos. Vemos muitas escolas públicas e privadas, muitas empresas, muitas associações de estudantes de escolas secundárias e de universidades a propor projetos de voluntariado”, destaca Isabel Jonet. “Ser voluntário é precisamente estar atento e querer ser participante no mundo que me rodeia. Portanto, se o mundo for melhor eu também sou melhor. Acho que o voluntariado como formação cívica não existia muito em Portugal”, reflete. “Um site destes, com 30 mil pessoas registadas, aparece também porque houve algo que mudou. É que as instituições estão a abrir oportunidades de voluntariado, o que faz toda a diferença. Muitas vezes as pessoas querem ser voluntárias e não sabem onde e as instituições precisam de voluntários mas não sabem onde procurar”, alerta.

 

A Igreja como base da rede de partilha

O projeto ‘Dar e Receber’, de âmbito nacional, está presente em cinco dioceses portuguesas – Vila Real, Setúbal, Braga, Évora e Viseu – de uma forma um pouco mais intensa, com equipas da Cáritas a dar formação, obedecendo às regras do POPH, aos grupos ligados às paróquias mas também a grupos da sociedade civil. Questionada sobre por que Lisboa não fazia parte desse grupo de dioceses, Isabel Jonet sorriu e explicou: “A Diocese de Lisboa é uma diocese riquíssima em respostas sociais e onde há também esta necessidade de incentivar o trabalho em rede e a partilha de recursos. Um site como este pode, também, na Diocese de Lisboa, promover o trabalho em rede. Claro que a Entrajuda e também a Cáritas estão totalmente disponíveis para fazer sessões com as instituições, como temos feito. Através dos nossos voluntários visitadores, todas as instituições de Lisboa conhecem o ‘Dar e Receber’, conhecem a Entrajuda e vêm ao Banco de Bens Doados com regularidade buscar cabazes de produtos não alimentares... As instituições da Diocese de Lisboa são, na verdade, privilegiadas na relação de proximidade”, observa.

 

A resposta da Igreja

A presidente da Entrajuda voltou a reforçar o papel da Igreja na ajuda a quem mais precisa, salientando o trabalho sobretudo nos países do Sul da Europa – os mais afetados pela crise financeira. “Há muitas obras da Igreja que permitiram criar uma rede capilar de assistência e estou convencida de que tem sido o papel da Igreja nestes países, nomeadamente em Portugal e Espanha, que tem feito com que não haja tanta tensão nas ruas, apesar das características de emergência”.

Isabel Jonet acredita que “precisamente aqui, apesar de as instituições estarem absolutamente sobrecarregadas com pedidos e mais pedidos de pessoas que nunca pensaram que iam pedir, de pessoas que continuam a pedir, que têm os filhos na creche e no ATL e que deixaram de pagar, que têm os pais nos lares e que deixaram de pagar... apesar desta quase exaustão, as instituições de solidariedade social dão sempre, sempre resposta. E esta capacidade e esta flexibilidade existem porque são ligadas à Igreja Católica, porque acima de tudo têm esta componente de serviço e amor, que dá resposta”, regozija-se.

No entanto, Isabel Jonet não deixa de fazer um alerta aos vários organismos: “A maior parte das respostas sociais da Igreja são hoje Instituições de Solidariedade Social que recebem verbas do Estado. Por isso, é preciso, também, que estas instituições percebam que vivem com apoios que são pagos por toda a gente. Portanto, a eficiência e eficácia tem que ser uma decisão imperiosa porque os recursos são escassos”.

texto por Margarida Vaqueiro Lopes; fotos por Diogo Paiva Brandão
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