Entrevistas |
Padre José Boaventura, diretor do Sector da Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa
Paróquias desafiadas a um impulso missionário
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O diretor do Sector da Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa considera que as semanas missionárias nas paróquias despertam os leigos para a missão. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, por ocasião da Semana Missionária em Agualva e do Dia Mundial das Missões, o padre José Boaventura apela à colaboração dos institutos missionários e convida os religiosos e as religiosas a darem testemunho com a sua presença.

 

Há pouco mais de um ano foi nomeado diretor do Sector da Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa. Como se encontra neste momento a animação missionária na diocese?

A Carta Pastoral dos Bispos ‘Como eu vos fiz, fazei vós também’, de 2010, apresentou-nos um projeto, algumas interpelações para que nós fossemos capazes de fazer suscitar grupos missionários paroquiais e diocesanos. Criar algo que fosse dinamizador desta dimensão missionária, que atingisse toda a vida da Igreja local. Não é fácil. Nós temos a tentação, fácil, de fazer pequenos grupos, fechados em si mesmos, mas a ideia não é essa. É abrir-se! Se a mensagem do Evangelho se fecha em si mesma, num grupo eclesial, e não é capaz de partilhar a alegria do Evangelho, tem os dias contados. Se é fácil, se é difícil, eu digo que não é fácil, mas também, por outro lado, acho importante que nós aproveitemos toda esta sinergia, este momento muito importante na vida do Patriarcado, com o Sínodo Diocesano, que nos abre todas as perspetivas missionárias! Nós somos convidados, perante as diferentes realidades das nossas paróquias, a sermos capazes de responder a partir do Evangelho para criar algo que nos faça testemunhar e viver com alegria. Como organizar exatamente estes grupos, não há ‘receita’, mas aquilo que é fundamental, da nossa parte, é a disponibilidade de se colocar ao serviço do Reino de Deus. Depois, ver com as pessoas como caminhar, como fazer suscitar isso.

 

O que foi possível concretizar no primeiro ano de trabalho neste departamento da Cúria Diocesana?

Em primeiro lugar, continuámos o mesmo sistema, o mesmo projeto, que já vinha de trás. Contudo, temos encontrado algumas dificuldades na resposta global de todas as vigararias. A ideia era chegar às vigararias, para que estas atingissem as paróquias. O meu sonho foi sempre entregar a dinamização aos institutos missionários dentro da diocese, naquelas vigararias onde estão presentes. Ou seja, como é que os institutos missionários se podem articular para dinamizarem algo importante dentro de uma pastoral de conjunto do Patriarcado, que pudesse dar essa contribuição missionária para a Igreja local, para as próprias paróquias na vigararia? Como temos ‘o sonho missionário de chegar a todos’, também este ‘todos’ são os institutos missionários.

 

Tem sido possível fazer algum trabalho específico com as paróquias?

Um trabalho programado, pensado e aplicado, não. Aliás, estamos fragilizados porque a equipa, talvez por culpa própria, não tem dinamizado algo para oferecer na dinâmica sinodal. Tem sido difícil conseguirmos fazer este tipo de reflexão… Antes de fazer parte do Sector da Animação Missionária do Patriarcado, integrava o grupo Animag – agentes missionários ad gentes, e era o responsável pelo grupo de Lisboa. Nesse grupo trabalhei com o padre Tony Neves e organizámos Semanas Missionárias em Camarate, Chelas, São Marcos e Rio de Mouro. Já no meu mandato, foi realizada uma Semana Missionária em Mira-Sintra e agora recentemente, entre 11 e 19 de outubro, em Agualva, Cacém. O ideal não é atingir uma ou duas paróquias por ano, porque acho que é muito frágil para um departamento, mas será encontrar algum método que depois seja colocado na ‘mão’ dos responsáveis a nível de vigararia, ou de algumas paróquias. Acredito que a presença nas paróquias dos nossos irmãos missionários e missionárias, consagrados à missão, é muito importante até no visual. A sua presença é algo de novo que está escondido. Eu até apelaria aos meus irmãos missionários e missionárias consagrados que apareçam, no sentido de se fazerem presentes nesta ou naquela Semana Missionária, neste ou naquele acontecimento missionário, na diocese, nas paróquias, para que possam dar testemunho pela presença. Nós notámos, especialmente nesta última Semana Missionária em Agualva, que foi muito importante a presença dos cerca de 15 religiosos e religiosas, de diferentes congregações, cada um com o seu hábito, com o seu jeito de falar, com a sua cultura.

 

Acredita que os leigos, em especial os das paróquias do Patriarcado de Lisboa, têm consciência que a missão é exigência do batismo?

Sempre será necessário, de vez em quando, falar sobre isso. Mas fico feliz pelos leigos que nós encontramos nestas Semanas Missionárias – e nesta última em Agualva isso foi evidente –, pelo grande grupo de pessoas que se ofereceram para serem, nessas semanas, missionários na sua terra, na sua paróquia, na sua rua, na sua casa, no seu trabalho. Foi bonito ver que, se nós, missionários, éramos cerca de 15, os leigos eram mais de 40! É muito importante que esta união entre consagrados missionários e missionários leigos apareça também visível concretamente na rua. Acredito, por aquilo que vai acontecendo nas Semanas Missionárias, que há uma resposta muito positiva das paróquias e que vão havendo sinais de impulso missionários.

 

Uma novidade da missão ad gentes nas últimas décadas é o interesse de muitos leigos e, particularmente, jovens pela missão. Qual a razão que leva os leigos a partir em missão?

Nós, missionários, que já estivemos fora em missão, em África e pelas Américas, sabemos que sem os leigos não se consegue nada. Normalmente estas Igrejas jovens, que agora começam também a partilhar da sua pobreza, têm poucos agentes pastorais e consagrados, mas têm muitos leigos, inseridos na sociedade. Acredito perfeitamente que a Igreja será Igreja quando os leigos forem bem visíveis nesta dinâmica de todos, em comunhão com os seus Pastores, serem verdadeiramente cristãos, até no seu testemunho missionário. Por isso, quando vejo jovens a partir em missão, e estão um mês ou dois meses, no tempo das suas férias, por um lado sou levado a dizer que é pouco tempo, mas por outro este pequeno testemunho ou experiência de vida, o facto de sair, leva precisamente a que depois haja fruto. O jovem que vai em missão, quando volta, deveria estar à disposição para partilhar a sua experiência e deixar a semente no coração de outros jovens. Hoje, precisamos de jovens missionários que partam daqui, desta Igreja local de Lisboa, para ir anunciar pelo mundo que Deus os ama, conforme Jesus nos mostrou.

 

Outubro é, tradicionalmente, dedicado pela Igreja, em todo o mundo, como o mês das Missões. O que a Igreja pretende realmente com a celebração deste mês?

O mês de outubro vem a calhar bem, em Lisboa, na abertura do Sínodo Diocesano. O tema deste mês é ‘Missão, uma paixão por Jesus e por todos’. O nosso Patriarca escolheu como lema para o Sínodo Diocesano ‘O sonho missionário de chegar a todos’. Este ‘todos’ são todos os que estão aqui perto e todos os que estão lá longe! Portanto, o mês de outubro ajuda-nos também a perceber que a Igreja será capaz de responder às exigências missionárias de hoje se for capaz de estar aberta também às necessidades missionárias do mundo. Acredito que o mês de outubro dá-nos assim como que um ‘abanão’ em vista da missão a nível do mundo. Por outro lado, dá uma grande contribuição de despertar missionário para estas realidades que por vezes estão esquecidas nas nossas pastorais paroquiais.

 

Na Mensagem para o Dia Mundial das Missões, que a Igreja celebrou no passado Domingo, 19 de outubro, o Papa Francisco lembrou que, ainda hoje, há muitas pessoas que não conhecem Jesus Cristo…

Li e reli a mensagem do Papa e captei que é uma síntese, no seu cariz missionário, da exortação apostólica ‘Alegria do Evangelho’. A mensagem do Papa para o Dia Mundial das Missões deste ano coloca-nos, mais uma vez, diante deste mundo que é e continua a ser amado e querido por Deus e por isso não podemos esquecê-lo. O Papa lembra-nos que temos de ser conhecedores da causa da nossa alegria, que é Jesus Cristo, e partilhar este tesouro com o mundo!

  

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Perfil

Nascido em 1956, em Vila Nova de Tazem, Gouveia, o padre José Amaral Boaventura pertence aos Missionários Combonianos, é coadjutor da paróquia de Camarate e está no segundo ano como diretor do Sector da Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa. Entrou no seminário com 11 anos e fez a formação teológica em São Paulo, no Brasil, durante cinco anos. Após a ordenação, em 1984, ficou por sete anos em Portugal, ligado à animação missionária e à promoção vocacional, e regressou depois a terras brasileiras. Voltou a Lisboa somente em 2009, esteve um ano na casa provincial dos Combonianos e, em 2010, mudou-se, juntamente com o padre Alexandre e o irmão Neto, para a paróquia de Camarate.

Em 2012, com a eleição do padre Tony Neves como provincial dos Espiritanos, o então Cardeal-Patriarca D. José Policarpo pediu ao padre Boaventura para assumir o Sector da Animação Missionária da diocese. 

 

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‘A alegria do Evangelho também é para ti’

A Semana Missionária em Agualva, que decorreu de 11 a 19 de outubro, foi “muito positiva”. “Em especial deu a conhecer a possibilidade que temos nos leigos das nossas paróquias, de eles serem verdadeiramente missionários nos ambientes em que vivem. Há uma riqueza muito grande se formos capazes de superar departamentos paroquiais. A missão deve unificar todos, o Sínodo Diocesano deve-nos colocar a caminhar, a rezar, todos juntos, com os mesmos olhos de Cristo Jesus”, salienta o diretor do Sector da Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa. Ao longo dos vários dias de missão nesta paróquia da Vigararia de Sintra, foram organizadas procissões e Eucaristias pelos vários bairros da Agualva, bem como diversos encontros, partilhas e momentos de oração.

No encerramento da Semana Missionária em Agualva, que teve como lema ‘Vinde e Vede! A alegria do Evangelho também é para ti’, o presidente da Comissão Episcopal das Missões e Nova Evangelização, D. Manuel Linda, lembrou que o desafio missionário deve levar os cristãos a comprometerem-se com as “grandes causas da humanidade” para que o mundo não fique “de pernas para o ar”. Na igreja paroquial de Agualva, o prelado sustentou que os missionários são exemplos de cristãos “comprometidos com as grandes causas da humanidade”.

O padre Boaventura ressalva que “ainda não está marcada nova Semana Missionária noutra paróquia do Patriarcado”, mas fala da necessidade de reflexão, por parte do seu departamento, juntamente com os institutos missionários, sobre o “contributo específico da formação e da dinamização missionária para o Sínodo Diocesano 2016”.

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