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Cónego João Canilho (1932-2014)
‘Quando eu for embora, a obra continua e a Igreja há-de continuar’
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Foi pároco de Azambuja e de Vila Nova da Rainha durante os últimos 46 anos. Antigo vigário geral do Patriarcado de Lisboa, entre 2004 e 2013, o cónego João Canilho faleceu no passado dia 16 de novembro e deixa nas suas comunidades um sentimento de saudade e gratidão. “Partiu o homem mais importante da Azambuja do último meio século”, afirma a população local.

 

José Carlos Batalha tinha 12 anos quando, em 1968, o jovem padre João Canilho, então com 36 anos, chegou à Azambuja. “Lembro-me perfeitamente da chegada dele, até porque era acólito. A chegada do novo padre mexeu com a vila. Obviamente que, enquanto crianças e pré-adolescentes, começámos a estar próximos e a lidar de perto com o novo pároco e fomo-nos apercebendo de uma série de coisas novas que hoje, quando fazemos esta retrospetiva, valorizamos sobremaneira”. Entre os primeiros episódios que recorda dos 46 anos de contacto, praticamente diário, com o cónego Canilho, José Carlos Batalha sublinha ao Jornal VOZ DA VERDADE a abertura que o novo sacerdote procurou imprimir nesta terra ribatejana. “Há coisas que me lembro e que me marcaram. Por exemplo, nos finais dos anos 60, na altura da chegada do padre João, a Azambuja era uma sociedade rural, marcada por um clima de instabilidade e turbulência. Era um meio rural que estava a fazer uma transição muito lenta para um meio industrial e urbano, de periferia. Já existia uma fábrica de tomate, mas entretanto foram inauguradas duas fábricas automóveis muito grandes, que começaram a receber muita gente. Ao mesmo tempo os campos de Azambuja eram cultivados por grandes lavradores e lembro-me de ir, juntamente com outros jovens, com o senhor padre João que ia celebrar a Eucaristia ao campo. As pessoas eram naturais das beiras, queriam celebrar a sua fé, mas não tinham possibilidade de percorrer os 4, 5, 6 quilómetros até à igreja, e o padre João Canilho, apercebendo-se disso, foi ao encontro das pessoas. Isto marcou-me sempre! É uma memória muito viva. Os ventos pós-conciliares propõem uma Igreja mais virada para o Homem e para o povo de Deus, e o padre João era um homem aberto à exigência do Concílio”, lembra, apontando a “lufada de ar fresco” e “a nova Igreja” trazida por este sacerdote.

 

Carta desafiadora

Paroquiano da Azambuja desde que nasceu, José Carlos Batalha faz parte da direção do Centro Social Paroquial de Azambuja desde o primeiro dia e destaca “o grande desafio da promoção do desenvolvimento da pessoa e da comunidade que o padre João agarrou e viveu, com uma dolorosa intensidade”. “Esta mensagem era incomodativa, era exigente e era considerada, ao tempo, uma mensagem progressista, porque de alguma forma confrontava situações instaladas. Estamos a falar de uns anos antes de abril de 74”, observa.

Batalha socorre-se de um texto escrito por si, aquando do jubileu sacerdotal (50 anos) do cónego Canilho, em 2007, para citar um excerto de uma carta dirigida pelo pároco de Azambuja aos paroquianos, no início de 1969, poucos meses após a sua chegada a esta terra. “A carta intitulava-se ‘Carta do vosso pároco’ e dizia, entre outras coisas: ‘Espero o vosso apoio no sentido de darmos as mãos numa colaboração leal e franca, em ordem ao progresso e melhoria da vida espiritual, moral e económica da Azambuja’. E acrescentava: ‘Muitas tarefas nos esperam: juventude, família, atividades assistenciais, formativas, culturais, recreativas’. Como desafio, a carta dizia: ‘Conto também contigo, que dizes não ter fé’. Portanto, o padre João era um homem que estava bem à frente no tempo”.

José Carlos Batalha não tem dúvidas que “o padre João marcou os últimos 50 anos da história da vila de Azambuja e Vila Nova da Rainha, em vários domínios”. A educação foi um deles. “Na altura havia o Externato Diocesano de São Bernardo e Azambuja teve o seu primeiro estabelecimento de ensino secundário. O padre João chega a esta terra como pároco e também como diretor dessa escola, e revoluciona ao nível do ensino, com a tele-escola e a abertura de cursos noturnos para quem trabalhava de dia”, refere, salientando igualmente “a inauguração de um jardim-de-infância, sem os apoios estatais que há hoje, e da cantina social”. “A comunidade sentiu que tinha no padre João um líder”, frisa.

Sublinhando que o seu amigo pároco procurou sempre “humanizar as estruturas de assistência, atendendo a todas as dimensões do homem”, José Carlos Batalha lembra que, após o 25 de abril, o externato passou a ser uma escola pública e quando foi devolvido à Igreja, já nos anos 90, o cónego João Canilho começou desde logo a pensar na utilização daquele espaço para a criação de novas respostas às necessidades da comunidade. “Em 1996, é inaugurado o Centro Social Paroquial de Azambuja que hoje, diria, é um centro comunitário, aberto à comunidade, e que surge como resposta à vida e ao serviço da vida, desde o nascimento à morte. A grande marca do padre João foi olhar para os outros numa perspetiva social, foi ver Cristo nos outros”.

Este paroquiano destaca ainda, a terminar, a construção de duas capelas na Azambuja, em Casais dos Britos e Casais de Baixo, dedicadas pelo Cardeal Ribeiro e pelo Cardeal Policarpo, respetivamente. “São obras que nasceram do dinamismo do padre João, uma vez mais para dar resposta às populações”.

 

Uma presença diária

Gia, como é conhecida entre colegas e amigos do Centro Social Paroquial de Azambuja, está desde os primeiros tempos a trabalhar na instituição. Atualmente faz parte do serviço administrativo e da secretaria, além de ser secretária da direção, e contactou diariamente, durante muitos anos, com o cónego Canilho. “Fizemos a casa, crescemos com o centro desde o início. Desde a primeira hora que estou no centro social paroquial”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. Desde o ano passado, altura em que deixou de ir regularmente à Cúria Diocesana do Patriarcado de Lisboa, que o cónego Canilho passava grande parte dos dias no Centro Social Paroquial de Azambuja, junto de funcionários e utentes. “Ele vinha por volta das 10 horas da manhã, saía por volta das 6 da tarde para ir celebrar a Eucaristia às 19h. Depois regressava após o jantar e ficava pelo centro praticamente até à meia-noite. Era muito raro ele ir embora mais cedo. Eram horas e horas passadas ora ao computador, ora a escrever, ora a estudar, ora a ler, ora a ‘meter-se’ com o utentes, idosos e crianças, que lhe tinham um carinho muito especial. Era a presença chave desta instituição”, garante Gia. Já este ano, em fevereiro, o cónego Canilho deu uma entrevista às crianças do Fórum Jovem deste centro. Gia recorda a resposta do sacerdote à pergunta sobre o futuro deste centro social paroquial: “O futuro está nas mãos de Deus e não podemos desanimar. Isto tem de ser uma obra construída pela comunidade, pela paróquia. Esta obra não é minha, eu estou numa paróquia e compete a esta comunidade dar-lhe continuidade. O futuro está nas mãos desta gente, não em mim. Quando eu for embora a obra continua e a Igreja há-de continuar”.

Natural de Azambuja, Gia, atualmente com 59 anos, tinha somente 12-13 anos quando conheceu o sacerdote que iria ficar na sua paróquia durante 46 anos. “Recordo-me perfeitamente da chegada do senhor padre João, em 1968. Lembro-me de ele tentar reunir os jovens e constituir um grupo. Nós, jovens de então, crescemos com ele. Da minha parte, foi ele que me introduziu na liturgia”.

Ao longo dos anos, revela Gia, o cónego Canilho teve um sonho que conseguiu cumprir há precisamente um ano: ter uma comunidade de irmãs na paróquia da Azambuja. “Em novembro de 2013 abriu uma casa com três religiosas da Congregação da Apresentação de Maria: a irmã Aurora está a colaborar no lar, a irmã Carla acompanha os miúdos do Fórum Jovem e faz o Despertar da Fé às crianças da instituição e a irmã Hermínia é catequista e voluntária com os idosos do centro. A paróquia recebeu uma casa, que foi remodelada, e o senhor padre pôde cumprir o seu sonho de ter religiosas na Azambuja”, conta Gia, sublinhando igualmente “a constituição do agrupamento de escuteiros”, que “está em formação e nas vésperas de fazerem as primeiras promessas”, como o mais recente sonho cumprido pelo antigo pároco. “O senhor cónego Canilho conseguiu fazer tudo aquilo que tinha sonhado na paróquia. Creio que ele partiu feliz”, frisa, lembrando que “há dois ou três anos” que este sacerdote não tirava uns dias de descanso: “Nós dizíamos-lhe: ‘Senhor padre, tem de tirar férias, precisa de descansar’. A resposta era sempre a mesma: ‘Tenho tempo de descansar…’”.

O cónego Canilho faleceu a 16 de novembro último, poucos dias após um AVC, e a notícia da morte apanhou a comunidade cristã de surpresa. “Temos muita pena da forma como isto aconteceu, tão rápido, ninguém estava à espera”, partilha esta leiga, que na paróquia é cantora, organista e catequista, enaltecendo ainda a forma como o sacerdote foi pároco até ao fim: “Creio que ele deu testemunho mesmo até ao fim. Foi mesmo, mesmo, mesmo até aguentar. Andou a lutar, desde há uns meses a esta parte, e nós que estávamos com ele todos os dias notávamos isso mesmo”.

 

Uma vocação pelo testemunho

Ordenado em 1957, antes de chegar a Azambuja e Vila Nova da Rainha o padre Canilho foi professor e prefeito do Seminário de Santarém (1957 a 1966). Ao longo dos 46 anos que esteve na paróquia de Azambuja, viu dois dos ‘seus’ jovens serem ordenados sacerdotes: o padre Carlos Marques, ordenado em 1996, e hoje com 43 anos e pároco de Atouguia da Baleia; e o padre Nuno Amador, de 35 anos, que foi ordenado em 2004 e é atualmente vice-reitor do Seminário de São José de Caparide e diretor do Sector da Pastoral Universitária. Lurdes é a mãe do padre Nuno Amador e recorda ao Jornal VOZ DA VERDADE a amizade que unia a sua família à do cónego Canilho. “Desde pequeno que o meu filho Nuno ia muitas vezes a casa do senhor padre. As famílias eram muito amigas”, refere, sublinhando a importância do testemunho do sacerdote na vocação do filho: “A vocação do Nuno está muito ligada ao nosso pároco. Ele ficou cativado pela figura do cónego João Canilho”, afiança a mãe do padre Nuno Amador.

Lurdes é também a ecónoma do Centro Social Paroquial de Azambuja – “o cónego Canilho costumava dizer que eu era a governanta!” – e trabalha na instituição desde o primeiro dia, em fevereiro de 1996. “No Natal de 1995, já o padre João organizou aqui uma ceia para carenciados que encheu o espaço do centro social paroquial! E durante anos assim foi. Era o ex-libris dele, fazer aquelas ceias natalícias na Azambuja e em Vila Nova da Rainha”.

Sobre a figura do sacerdote que guiou a comunidade de Azambuja nos últimos quase 50 anos, Lurdes diz que é toda uma terra que está de luto. “Não tem descrição a presença deste padre em Azambuja… ainda esta manhã uma senhora que não frequenta a Igreja disse: ‘A Azambuja está sem a pessoa mais importante que tinha’. Isto vindo de uma pessoa que não é praticante quer dizer muito… O cónego Canilho era uma figura sem descrição, muito amigo dos meninos, muito amigo dos idosos, tinha sempre uma graça, um carinho”, descreve.

 

Porto de abrigo

Maria João Canilho é sobrinha do cónego João Canilho e lembra o acolhimento que a sua família sentiu ao regressar a Portugal, vinda de África, nos anos 70. “Eu nasci em Moçambique e quando tinha 2 anos regressámos a Portugal, como a maioria dos retornados, numa situação financeira muito complicada e fomos acolhidos pelo padre João, em casa dele na Azambuja. Foi uma altura muito conturbada e, pelo que me relatam, fomos muito bem recebidos pelo meu tio”. Estávamos então em 1976 e o cónego João Canilho estava já há 8 anos na Azambuja e, por isso, “bem entrosado na terra”.

Além de irmão do pai de Maria João, o cónego Canilho era também padrinho desta sobrinha. “O meu tio era assim o segundo porto de abrigo. Primeiro era o meu pai, e o tio João era a pessoa que ficava a saber primeiro de tudo! Era aquele colinho… lembro-me de ter 4-5 anos e conseguir ‘meter-me’ no casaco do meu tio, que estava sentado na poltrona. Era um momento de aconchego”, recorda ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Nas “conturbadas fases da adolescência” , que “não são fáceis”, a sobrinha Maria João teve o que considera “um normal afastamento da Igreja”. “O meu tio geriu essa fase de uma maneira muito sábia, muito serena, porque ele era um homem muito sereno. Tinha as suas convicções muito marcadas, defendia muito a sua fé e a sua forma de estar na Igreja, mas era um homem com um tremendo respeito por todas as pessoas e por aquilo que as pessoas tinham para dizer. Era uma pessoa com quem se podia conversar sobre todos os temas. Um padre numa paróquia durante tantos anos é alguém que marca a forma de pensar de uma terra”.

Maria João Canilho é a diretora técnica do Centro Social Paroquial de Azambuja e aquando do falecimento do cónego João Canilho, que era o presidente da direção da instituição, dirigiu uma mensagem aos colegas funcionários, utentes, famílias e amigos do centro, a recordar o seu ‘tio João’ e a deixar expresso um desejo: “Tenho a certeza que todos juntos conseguiremos honrar e dignificar a casa que ele sonhou. Juntos faremos o Bem, o melhor que soubermos, como ele nos ensinou…”

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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