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75 anos da chegada a Portugal das Filhas de Maria Auxiliadora
A expressão feminina do carisma de D. Bosco
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Conhecidas como Salesianas de D. Bosco, as Filhas de Maria Auxiliadora são um instituto que procura a educação integral da juventude. Chegadas a Portugal há 75 anos, a sua presença na Diocese de Lisboa faz-se também através do cuidado aos mais pobres, em especial no Bairro Fim do Mundo, na Galiza, Estoril.

 

O Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA) tem, em todo o mundo, cerca de 13 mil religiosas. “Somos o instituto de vida ativa mais numeroso da Igreja”, revela ao Jornal VOZ DA VERDADE a provincial das Filhas de Maria Auxiliadora, irmã Maria das Dores Rodrigues, lembrando uma afirmação do secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, da Santa Sé, monsenhor José Rodríguez Carballo, que marcou presença no capítulo geral desta congregação feminina. Segundo o site da Província Portuguesa das FMA (www.salesianas-por.net), no continente europeu existem cerca de 7 mil religiosas deste instituto, seguindo-se a América, com mais de 4 mil irmãs, a Ásia, onde estão cerca de 2 mil salesianas, África, com menos de 500 religiosas, e a Oceânia, onde estão presentes cerca de meia centena de FMA. “Estamos presentes em 95 países, dos cinco continentes”, acrescenta a irmã Dores.

A chegada a Portugal das Filhas de Maria Auxiliadora aconteceu há 75 anos. Foi em Évora, no ano de 1940. “As décadas de 40 e 50 são de grande expansão do instituto pela Europa. Cinco irmãs de Itália chegaram ao porto de Lisboa, de barco, a pedido do Arcebispo de Évora, que foi a Turim pedir irmãs salesianas, à superiora geral da altura, para a educação das meninas da Casa Pia de Évora. Três anos depois, as FMA abriram, no Monte da Caparica, ao tempo pertencente à Diocese de Lisboa, uma casa com 500 internas. Em 1947 foi inaugurada a casa de Setúbal, que se mantém hoje em dia e é a mais antiga do instituto. Em 1952, partiu de Portugal, com religiosas portuguesas e espanholas, a primeira expedição para Moçambique, e em 1953 a FMA abriu a primeira casa no Monte Estoril, no Patriarcado de Lisboa. No ano mariano de 1954 foi erigida a Província Portuguesa de Nossa Senhora de Fátima, com sede no Monte Estoril, que contava com mais de 60 irmãs e dez casas: nove em Portugal e uma em Moçambique”, relata a irmã Maria das Dores Rodrigues.

 

Missão em Lisboa

A presença do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora no Patriarcado de Lisboa é feita através de quatro casas, todas situadas na zona de Cascais, Estoril e Monte Estoril. Em 1958, foi inaugurado, no centro de Cascais, o Externato de Nossa Senhora da Assunção. “Atualmente funciona nesta escola o ensino pré-escolar, IPSS, e o 1º ciclo, em regime particular, com duas turmas cada ano e perto de 400 alunos”, aponta a provincial. Ainda na paróquia de Cascais, as Salesianas estão presentes, desde 1976, no Externato de Nossa Senhora do Rosário, no Bairro do Rosário. “Começou por ser um pré-escolar para responder às crianças pobres das barracas do bairro de lata que lá havia, no pós-25 de abril. Em 1985, abrimos uma escola de 2º e 3º ciclo, particular, com três turmas cada ano, mantendo sempre o pré-escolar. Temos, nos dias de hoje, cerca de 500 alunos”, destaca a irmã Dores.

A presença das FMA no Bairro do Fim do Mundo, na Galiza, Estoril, tem uma característica “mais social e pastoral”. “Somos a única congregação presente no bairro, que antigamente era de lata e que tem muitos africanos e ciganos. Começámos a trabalhar lá em 1971, sem comunidade. A irmã Elvira, com mais algumas religiosas, dava aulas durante o dia e ao fim da tarde ia para o bairro apoiar as crianças. As irmãs iniciaram um trabalho de inserção social, legalização, alfabetização, cuidados de saúde, encaminhamentos para procedimentos legais, etc… Em 1993, abrimos uma casa no bairro, a Casa de Nossa Senhora de Fátima, onde ainda mantemos a comunidade. Além do apoio na igreja da Boa Nova, temos uma obra, em parceria com a Câmara de Cascais, uma ludoteca, que é uma espécie de ATL, que acolhe crianças e adolescentes das escolas locais. É uma presença e uma ação muito importante, com os pobres mais pobres”, frisa a irmã Maria das Dores.

 A sede provincial do instituto fica também na Diocese de Lisboa, no Monte Estoril, e, além de receber os serviços da província, “apoia neste momento um bom grupo de irmãs doentes dependentes”. A Província Portuguesa do Instituto das FMA tem atualmente 122 irmãs. Em Lisboa estão cerca de 50. “Além de Lisboa, estamos presentes em mais 8 dioceses, com escolas e com presenças pastorais, na catequese e nas paróquias. Nunca nos fechamos só na escola, procuramo-nos integrar na vida paroquial onde estão as nossas comunidades”, garante a provincial.

Uma religiosa das Filhas de Maria Auxiliadora integra a equipa de Pastoral Vocacional do Patriarcado. “As vocações são uma problemática de todas as congregações e também da nossa, que já viveu o seu auge nestes 75 anos. Chegámos a ter 11 noviças por ano e agora temos duas candidatas do norte do país, que estão numa primeira fase, e temos mais duas que já fizeram a primeira profissão”.

 

Dez anos de formação

A irmã Maria das Dores Rodrigues está no quarto ano como provincial do instituto, num mandato de seis anos. Foi eleita em 2011 e tomou posse no dia 5 de agosto desse ano. “Uma data que é marco na nossa história, porque é a data de fundação do instituto. As renovações de profissões religiosas são feitas nesse dia, na maior parte do mundo”, sublinha esta religiosa.

As raparigas que queiram ser Filhas de Maria Auxiliadora têm de fazer, “no mínimo”, dez anos de formação. “Quatro anos antes da primeira profissão e depois mais seis anos de formação até ao compromisso definitivo, a profissão perpétua. Nestes anos é feita a formação interna carismática, o estudo e aprofundamento dos nossos fundadores, da espiritualidade, do sistema educativo próprio da nossa ação e pastoral”, descreve. Além desta formação, a irmã Dores tirou a licenciatura em Teologia, entre 1993 e 1998, na Universidade Católica, e um mestrado em Ciências Religiosas, Fé e Cultura, também na UCP, do ano 2000 a 2003.

A irmã Dores fez toda a formação religiosa no local onde hoje está instalada a Casa Provincial das FMA. “Esta casa, que primeiro foi casa de formação e de noviciado, fechou no ano em que eu fiz a profissão. Eu sou a última noviça que fez a formação nesta casa. Tivemos depois uma fase em que o noviciado era feito em Espanha, e agora é em Roma, Itália, que tem atualmente dois noviciados internacionais para toda a Europa”, relata.

 

Monumento vivo de gratidão

O Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora foi fundado no norte da Itália, em 1872, por São João Bosco e Santa Maria Domingas Mazzarello. É considerada a expressão feminina do carisma de D. Bosco. “Somos conhecidas por Salesianas de D. Bosco por ser mais fácil a identificação e por termos sido fundadas por ele”, salienta a provincial. Estas religiosas são identificadas, em todo o mundo, pela sigla FMA. “Este nome foi querido pelo nosso fundador. Foi São João Bosco que nos quis com este nome, porque nos fundou com o desejo de que fôssemos o monumento vivo de gratidão a Nossa Senhora Auxiliadora. Ele fundou outros monumentos, como a Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim, e o instituto das irmãs como monumento vivo que perdura no tempo, nesta atitude de gratidão a Nossa Senhora. Por isso, quis-nos Filhas de Maria Auxiliadora, com esta forte dimensão mariana”, explica a irmã Dores.

No século XIX, o então padre João Bosco fundara em Turim uma obra para os rapazes que vagueavam pela cidade. “Ele dedicava-se aos jovens pobres, numa formação integral, fazendo por eles tudo o que pôde até ao fim da vida, para os tornar, na sua linguagem, bons cristãos e honestos cidadãos. Este mantém-se como lema da educação salesiana até hoje, mas com outros termos”, conta a provincial. São João Bosco fundou a congregação dos Salesianos em 1859 e, em 1872, fundou as Filhas de Maria Auxiliadora, a partir de um núcleo de jovens, de uma paróquia muito pequena, Mornese, no norte de Itália, cujo pároco era amigo de D. Bosco. “Este grupo dedicado à juventude feminina era liderado por Maria Mazzarello e recebia as meninas da terra, que nessa altura não iam à escola – estamos em pleno século XIX, onde a educação feminina era muito escassa – e formavam-nas nos princípios femininos, na costura, e na formação cristã”, relata a religiosa portuguesa. A nova congregação da Igreja tem em Maria Mazzarello a primeira superiora, que fez a primeira profissão com mais dez colegas, em 1872. “As FMA expandiram-se muito depressa. Passados 5 anos, o instituto teve a primeira expedição missionária para a Patagónia, com irmãs muito jovens, para evangelizar e abrir comunidades”, conta.

 

Trilogia educativa: razão, religião e carinho

O Instituto das FMA tem como carisma ‘educar evangelizando e evangelizar educando’. “É um lema que remete às origens. É uma simbiose da educação integral onde a dimensão da fé tem um lugar imprescindível. Educar segundo o Sistema Preventivo de D. Bosco, que assenta na trilogia educativa: razão, religião e carinho”, salienta a irmã Dores, sublinhando “a preocupação, sempre, de levar as crianças e os jovens a conhecerem e a encontrarem-se com Jesus”.

Questionada sobre a atualidade dos fundadores, esta religiosa ressalva a necessidade de uma educação integral. “A educação é sempre um desafio e uma emergência. Sempre e cada vez mais. Mas uma educação que toque o todo da pessoa, que seja integral, que ajude a construir a pessoa segundo o projeto de Deus, à imagem de Deus, e que ajude a que uma pessoa que se coloque no caminho da salvação”. A irmã Maria das Dores sublinha que no instituto há a consciência de que as famílias procuram os colégios das FMA pela qualidade do ensino. “Temos consciência de que as famílias que nos confiam a educação dos seus dos jovens procuram-nos não por sermos uma escola católica salesiana, mas muitas vezes pela qualidade do ensino. Mas é um caminho e uma porta que se abre e é uma possibilidade de chegarmos a muitos adolescentes e jovens, e a muitas famílias através deles, com valores e princípios que muitas vezes não encontram em casa”.

  

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Ano da Vida Consagrada

“Acolhi este Ano da Vida Consagrada como uma grande surpresa. Depois de um tempo em que se ouviram algumas vozes dizer que a Vida Consagrada estava condenada, que iria desaparecer, vem o Papa Francisco, consagrado, religioso, declarar um Ano da Vida Consagrada. É um ano que não pode deixar a Igreja indiferente, e não deixa, de certeza! Pessoalmente, na missão que tenho de animar e acompanhar as irmãs, gostava muito que fosse um ano forte de renovação vocacional de encontro com a própria vocação, com o chamamento de Deus que se faz sempre novo e que pede respostas novas.”

Irmã Maria das Dores Rodrigues, FMA 

 

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Uma vocação nascida no Dia de Oração pelas Vocações

Natural de Viana do Castelo, a irmã Maria das Dores Rodrigues nasceu em 1962 e conheceu as Filhas de Maria Auxiliadora na sua paróquia de origem: Perre, onde vivia com os oito irmãos. “Quando era jovem, participava nos encontros da pastoral juvenil da diocese, que tinha algumas irmãs do instituto. Além das escolas, as irmãs estavam muito inseridas na vida da diocese, na formação de catequistas, na pastoral vocacional, na pastoral juvenil. Foi neste mundo eclesial da diocese, que chegava às paróquias, que entrei em contacto com o instituto, tinha eu cerca de 17-18 anos”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. “Comecei a assumir a questão vocacional como minha no Dia de Oração pelas Vocações de 1979, como aquele que celebrámos no passado Domingo, numa celebração da Diocese de Viana do Castelo, com o primeiro bispo da diocese, D. Júlio Rebimbas, que na homilia lançou uma provocação aos rapazes e depois às raparigas para a vida consagrada. Pela primeira vez, aquilo fez-me estremecer. Comecei a pensar: ‘Isto pode ser para mim!’. Foi algo que me começou a inquietar muito”, assume, hoje. Muitas vezes com “muita dúvida e muita rejeição”, esta jovem foi “confrontando e procurando”, “deixando que esta inquietação ganhasse campo e forma”. “Através de conversas com o meu diretor espiritual e com as irmãs, e fazendo retiros, fui ganhando força para arriscar e entrei para o noviciado com 21 anos”, acrescenta.

A primeira profissão foi feita em 1988, ano centenário da morte de São João Bosco, e em 1995 fez a profissão perpétua com as Filhas de Maria Auxiliadora. “Tem sido um caminho com momentos de maior entusiasmo e outros nem tanto, mas sempre numa procura de Deus, numa procura de uma resposta renovada de uma entrega à missão que me é confiada no concreto”, salienta a irmã Dores, Filha de Maria Auxiliadora há 27 anos.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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