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Visita Apostólica do Papa Francisco à América Latina
Por um “coração livre”
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Numa visita de 9 dias ao Equador, Bolívia e Paraguai, o Papa Francisco enalteceu a importância da família como sendo o “hospital mais próximo”, mostrou-se firme contra a “cultura do descarte” e emocionou-se com o testemunho dos jovens que lhe pediram para rezar por “um coração livre” para todos.

 

Equador

5 a 8 julho

“A nossa fé é sempre revolucionária”

De regresso à América Latina para a sua 9ª viagem apostólica internacional, o Papa Francisco manifestou, à chegada ao aeroporto de Quito, capital do Equador, “gratidão” pelo acolhimento recebido e recordou os momentos em que visitou o país em trabalho pastoral, enquanto sacerdote e Bispo, destacando o grande motivo comum nas várias viagens àquele país. “Também hoje venho como testemunha da misericórdia de Deus e da fé em Jesus Cristo. A mesma fé que, durante séculos, modelou a identidade deste povo e deu muitos frutos bons”, salientou o Papa argentino.

O segundo dia da visita ao Equador ficou marcado pela Missa celebrada em Guayaquil, a maior cidade do país. Perante uma multidão de 600 mil pessoas, o Papa Francisco destacou a importância da família, num discurso muito aplaudido pelos fiéis: “A família é o hospital mais próximo, quando uma pessoa está doente cuidam-na lá enquanto se pode. A família é a primeira escola das crianças, é o grupo de referência imprescindível para os jovens, é o melhor asilo para os idosos. A família constitui a grande ‘riqueza social’, que outras instituições não podem substituir, devendo ser ajudada e reforçada para não perder jamais o justo sentido dos serviços que a sociedade presta aos seus cidadãos”, destacou Francisco, na sua homilia.

De regresso à capital equatoriana, o Papa celebrou Missa, numa praça dedicada aos movimentos independentistas da América do Sul, e aproveitou o facto para apelar à evangelização. "O nosso grito, neste lugar que lembra aquele primeiro da liberdade, atualiza o grito de São Paulo: ‘Ai de mim, se eu não evangelizar!’ (1 Cor 9, 16). É tão urgente e premente como o daqueles desejos de independência. Possui fascínio semelhante, possui o mesmo fogo que atrai. Irmãos, tende os mesmos sentimentos de Jesus: sede um testemunho de comunhão fraterna que se torne resplandecente! E que belo seria se todos pudessem admirar como nos preocupamos uns pelos outros; como mutuamente nos animamos e fazemos companhia. (...) ‘Dar-se’ significa deixar atuar em si mesmo toda a força do amor que é o Espírito de Deus e, assim, dar lugar à sua força criadora. (...) Isto é evangelizar, esta é a nossa revolução – porque a nossa fé é sempre revolucionária”, concluiu o Papa Francisco.

 

Bolívia

8 a 10 de julho

“Basta de descartes”

Na chegada à Bolívia, para a segunda etapa da viagem à América Latina, o Papa começou por destacar os passos dados pelo país para a inclusão mas alertou para a necessidade de “um espírito de cooperação cívica, de diálogo e de participação nos indivíduos e atores sociais nas questões de interesse comum”. “O progresso integral de um povo inclui o crescimento em valores das pessoas e a convergência em ideais comuns que consigam unir vontades, sem excluir nem rejeitar ninguém. Se o crescimento for apenas material, corre-se sempre o risco de voltar a criar novas diferenças, de a abundância de uns ser construída sobre a escassez de outros”, referiu.

Na manhã de quarta-feira, 9 de julho, na primeira Missa celebrada na Bolívia, Francisco centrou a sua homilia na “cultura do descarte” que afasta os pobres e idosos. “Num coração desesperado, é muito fácil ganhar espaço a lógica que pretende impor-se no mundo, em todo o mundo, nos nossos dias. Uma lógica que procura transformar tudo em objecto de troca, tudo em objecto de consumo: vê tudo negociável. Jesus continua a dizer-nos nesta praça: sim, basta de descartes; dai-lhes vós mesmos de comer”, exortou.

O Papa Francisco reuniu-se ainda com os sacerdotes, religiosos e seminaristas, e escutou um testemunho emocionado do padre Crispín Borda Gómez, reitor do Seminário Maior de San Luis, em Cochabamba. “Quando passeava pela minha terra, encontrei dois jovens amigos que iam para um retiro vocacional. Ali me apresentaram o Senhor Ressuscitado, lendo-me o Evangelho de Marcos 3, 13-14: ‘Subiu à montanha e chamou a si os que Ele queria, e eles foram até Ele. E constituiu doze para que ficassem com Ele, para enviá-los a pregar’. Eu deixei tudo: terreno, casa e família porque essa era a expressão de ternura mais valiosa para mim. Agradeço infinitamente ao Senhor o olhar de amor e misericórdia porque se fixou em mim, um pobre homem do campo, e me presenteou com a vocação do sacerdócio”, referiu, feliz, este sacerdote boliviano, fugindo depois ao discurso escrito: “Não sei se foi Ele que se enamorou de mim, ou eu d’Ele, mas agora estamos muito enamorados”.

Este dia ficou ainda marcado pelo encontro do Papa com os movimentos populares. No seu longo discurso, Francisco foi firme contra a “tirania do ídolo dinheiro” e propôs uma mudança. “Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza? Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas”, apelou.

A agenda do Papa na sexta-feira, 10 de julho – último dia na Bolívia – começou com a visita a uma das prisões mais perigosas do país. Francisco passou pelos reclusos, cumprimentando-os e apresentou-se como “um homem perdoado”. “Um homem que foi e está salvo dos seus muitos pecados”. No local onde vivem milhares de pessoas privadas de liberdade, apelou depois à fraternidade. “Não tenhais medo de vos ajudar entre vós. O diabo procura a briga, a rivalidade, a divisão, os bandos. Não lhe deis ouvidos. Lutai para sairdes vencedores contra ele, unidos”, salientou o Papa Francisco.

 

Paraguai

10 a 12 de julho

“Os pobres têm muito para nos ensinar”

Já no Paraguai, durante a passagem por um hospital pediátrico, em Assunção, o Papa passou pelas salas, abraçando as crianças e dando-lhes a bênção. Aos familiares mais próximos das crianças que ali estão internadas, o Papa Francisco apelou para que todos pudessem aprender com o exemplo das crianças. “Devemos aprender de vós, da vossa confiança, alegria, ternura; da vossa capacidade de luta, da vossa fortaleza; da vossa capacidade incomparável de resistir. Sois uns lutadores”, reconheceu o Papa, que terminou inesperadamente o seu discurso com uma criança a chegar perto e oferecer-lhe a sua credencial de doente do hospital, dizendo as seguintes palavras: “Para que não te esqueças de mim!”, ao que o Papa respondeu, dirigindo-se a todos: “Temos que ser sinceros como esta criança. Escutaram o que ela disse?”.

Ainda no penúltimo dia da visita à América Latina, o Papa advertiu contra as “ideologias que acabam em ditaduras”. “Não serve uma visão ideológica, que acaba por usar os pobres ao serviço de outros interesses políticos ou pessoais. As ideologias terminam mal, não servem. (...) Pensam pelo povo, não deixam o povo pensar. (...) Os pobres têm muito para nos ensinar em humanidade, bondade, sacrifício e solidariedade”, salientou.

No segundo dia de visita ao Paraguai, Francisco celebrou Missa em Ñu Guazú. Milhares de fiéis aguardaram largas horas, desde o dia anterior, num terreno repleto de lama, para escutarem o Papa. Na homilia, Francisco apelou para a “hospitalidade ao outro”. “Quantas vezes idealizamos a evangelização, pondo de pé milhares de estratégias, tácticas, manobras, truques, procurando que as pessoas se convertam com base nos nossos argumentos. Hoje o Senhor diz-nos muito claramente: na lógica do Evangelho, não se convence com os argumentos, as estratégias, as tácticas, mas simplesmente aprendendo a alojar, a hospedar. (...) Quanto bem se pode fazer, se nos animarmos a aprender esta linguagem da hospitalidade, esta linguagem de receber, de acolher!”, recordou o Papa Francisco na celebração.

Para a história desta viagem ficou o último e emocionante encontro do Papa com os jovens paraguaios. Na Avenida Costanera de Assunção, Francisco escutou atentamente os testemunhos de dois jovens. Manuel, um jovem que passou por momentos muito difíceis na sua infância e juventude, sem apoio da família e maltratado, foi um dos jovens que partilhou. “Senti que se aproveitavam da minha situação. Voltei à minha terra para trabalhar no campo e, passado um tempo, a minha mãe faleceu. Fiquei só. Foi quando, através de uns jovens, conheci um Deus que tudo pode. Segui em frente e procurei uma forma de estudar. Agora tenho vontade de servir os outros”, lembrou emocionado, Manuel. Liz, uma jovem de 25 que se deparou, sozinha, com a doença de Alzhiemer da sua mãe, deu também testemunho. “Ela pensa que eu sou sua mãe e que eu sou sua filha. Quando isto me aconteceu, o meu mundo desfez-se em pedaços. Ela era o meu sustento. Perguntei a Deus porque não me deu um irmão. Ele respondeu que tenho muitos irmãos – os meus amigos que me apoiam. Vivo à espera dos Domingos, onde estou com eles. A paróquia é o único lugar onde sou feliz. A minha mãe é um milagre na minha vida!”. Perante um eventual discurso “aborrecido”, Francisco voltou a improvisar e enalteceu a coragem dos jovens paraguaios, pedindo-lhes “esperança e fortaleza” para conhecerem Jesus e para terem “um coração livre”.

Naquela que foi a última atividade pública da visita apostólica do Papa Francisco ao Equador, Bolívia e Paraguai, o jovem Orlando, que proclamou o Evangelho das Bem-Aventuranças, aproximou-se do Papa e pediu que rezasse pela liberdade de cada um. Francisco lembrou-o no discurso, dizendo que “a liberdade é um dom que Deus nos dá, mas há que saber recebê-lo, há que ter um coração livre”. “Rezemos para que tenhamos um coração que possa dizer o que sente e o que pensa. Esse é um coração livre”, pediu Francisco, improvisando, com todos os milhares de jovens presentes, uma oração: “Senhor Jesus, dá-me um coração livre, que não seja escravo de todas as armadilhas do mundo, que não seja escravo do comodismo, do engano; que não seja escravo da boa vida, que não seja escravo dos vícios; que não seja escravo de uma falsa liberdade que é fazer o que me apetece em cada momento”.

 

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Reencontro

No Equador, o Papa Francisco reencontrou o seu amigo jesuíta padre ‘Paquito’, após mais de três décadas sem se verem.

 

“Olha onde venho ver-te!”

O Papa Francisco visitou o Cardeal Julio Terrazas, arcebispo emérito de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, que se encontra internado numa clínica.

 

“Posso morrer em paz!”

Uma das anciãs, com 82 anos, visitadas pelo Papa Francisco, num dos bairros mais pobres do Paraguai, afirmou ser “um milagre” o Papa ter visitado aquele lugar.

 

Peugeot 405 SR

Na sua visita ao Paraguai, o Papa Francisco viajou no carro que foi utilizado por João Paulo II, aquando da visita àquele país, há 27 anos.

texto por Filipe Teixeira; fotos Agência SIR e D.R.
A OPINIÃO DE
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P. Nuno Amador
Não quero chamar nomes ao verão! Ele apareceu, como habitualmente, sem ser indelicado e não se apresentou com falta de educação.
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