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Vida Consagrada
A castidade na caridade
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Os conselhos evangélicos são o estilo da vida de Jesus e, portanto, o estilo de vida de quem O segue, formam o todo de uma entrega pessoal e total a Deus, por isso a eles dedicamos os últimos três artigos desta rubrica sobre a Vida Consagrada.

 

A terceira dimensão da entrega ao Deus da aliança de todo o coração é o celibato por amor do Reino dos Céus (Mt 19,12). Realiza-se seguindo Jesus que, para Si, escolheu este estado de vida (virgindade e celibato), ao andar de aldeia em aldeia a pregar, pois estava maximamente centrado no Reino (cf. Lc 8,1). Às perguntas provatórias (cf. Mt 19,3) feitas a Jesus a respeito do estado de vida, Ele responde com palavras que indicam plenitude, corporeidade e sexualidade por uma causa, ao afirmar: «Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus.» (Mt 19,12)

Ser «eunucos pelo Reino» é só porque se é plenamente masculino e feminino. Trata-se de uma plenitude sem matrimónio. Ser «eunuco» é uma provocação do Senhor para ambos géneros: masculino e feminino. Isto porque o «eunuco feito pelos homens», no tempo de Jesus, era aquele que era mutilado da sua masculinidade, castrado portanto, para estar nas instâncias do rei e guardar a sua rainha. Era uma função delicada, mas muito importante e de confiança. Estar junto do rei para guardar a rainha era também uma grande nobreza. O contexto era nobre, mas tirava-se-lhe a sua masculinidade para confiar. O bruto para se ser nobre, para se ser uma pessoa importante.

Jesus diz que se pode ser «eunuco», mas com o dom do Espírito Santo. Dizendo isto, Ele mesmo se declara eunuco. Jesus comporta-Se e diz ser o Esposo da Igreja através da virgindade no celibato. Jesus tem uma outra forma de dizer que a sexualidade é efémera. O prazer, o “eros”, da sexualidade não pode dar mais que aquilo que promete. Promete mais que aquilo que pode dar. As pessoas não são felizes apenas “fazendo sexo”, embora seja belo que o façam. O exercício da sexualidade não tira ninguém da solidão.

A provocação de Jesus é que, mais do que ser especialista na sexualidade, devemos sê-lo na relação. Assim, para os que foram atingidos pelo fascínio de Jesus, o que importa é a relação. Isto é, passam a viver em estreita relação com Ele, que abre tantas “portas” para viver a relação e as relações com os demais, a ponto de as universalizar, sem outro compromisso que não seja o Reino prometido por Jesus. Quando há uma experiência válida, fica a ligação. Assim é com os que tudo consagram a Deus, como que por um novo nascimento, não da carne, nem da vontade humana, mas nasceram de Deus (cf. Jo 1,13).

O corpo é a primeira palavra de Deus. Nele a sexualidade. Ela, que comporta as dimensões todas da pessoa, não é um prazer, mas uma via para a plenitude. É assim com a sua vida e nas múltiplas relações maduras, gratuitas e livres que os consagrados, ao jeito de Jesus e instruídos por Ele, são mais especialistas na relação. A resposta evangélica ao “belo pecado” é agora não pecar, disse Jesus à mulher pecadora, por todos condenada (cf. Jo 8,12). Os consagrados são aqueles que, no agora da vida terrena, vão falando daquilo que é mais belo. Dando a Cristo o seu coração indiviso, aguardam e anunciam as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 1,19). Trata-se pois da castidade vivida na alegria, aberta a uma relação gratuita de comunhão com os outros.

A fonte para todo este mistério sempre renovado é a Eucaristia. Nela diariamente se cumpre o «Corpo e o sangue entregue» (cf. 1Cor 11,24) e de modo particularíssimo, para aqueles que no corpo também tudo de si entregam a Deus e como Francisco Lhe afirma: «Tu, Pai santo, és Rei Omnipotente.» É então no corpo da pessoa em estado de conselhos evangélicos, com todo o coração, com todas as forças (cf. Mt 22, 37), que, de outro modo renovado, acontece o mistério da Páscoa de Cristo e que conduz à paternidade-maternidade fecunda, em ordem à plenitude.

A vivência da castidade por amor do Reino dos Céus torna a pessoa irmã-livre e, por tal, toma a dimensão de fraternidade, porque o Senhor dá irmãos a quem neste estado espera, de coração livre e com a lâmpada da fé acesa (cf. Mt 25,1-13) a vinda do seu Senhor e por Ele se envolve numa onda de ação e paixão pela unidade, pela fraternidade e pela comunhão para que o Reino aconteça noda história humana.

 

texto pela Ir. Maria da Glória Coelho Magalhães, FMNS, em ‘A essência da Vida Consagrada

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