Entrevistas |
Padre Jean Duranton: "Anunciar o Evangelho em francês"
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A Comunidade da Igreja de São Luís dos Franceses, junto ao Coliseu de Lisboa, é acompanhada pelo P. Jean Duranton, há 12 anos. Da sua profunda experiência na educação em França à paixão pela Bíblia nos numerosos grupos bíblicos que acompanha, o diálogo fluiu entre o passado e o presente.

P. Jean Duranton, de onde é e como veio até Lisboa?

Sou de L’Ile de France. Fui um dos responsáveis nacionais do ensino católico de França. Sempre fui professor. Comecei por ser director do seminário que me tinha acolhido em rapazinho. Aconteceram-me coisas originais. Um ano transformei a casa acolhendo uma Escola Técnica de raparigas, quando a casa se desmoronava. Nessa época ninguém se interessava pelo ensino técnico. Fiz coisas que não foram fáceis. Transformei a capela de modo a podermos acolher uma escola. Tornou-se mais tarde um estabelecimento escolar técnico e clássico. Começaram cerca 250 alunos e quando o transmiti aos meus sucessores eram 2100 alunos. Para fazer educação é preciso fazer confiança. Pediram-me para ser o director do ensino de uma Diocese junto a Paris e em algumas semanas tornei-me um dos membros responsáveis pelo ensino católico de L’ Ile de France. Mas sempre fui professor.

 

O que leccionava?

Um pouco de tudo. Sobretudo filosofia, mas também grego, latim, teologia, e até ensinei cinema. Tive alunos que são hoje cabeça de cartaz em França. Fiz fotografia. Sou filósofo e interessa-me essencialmente a escrita, a palavra, mas as imagens são qualquer coisa particularmente precioso.

 

E veio para Lisboa…

Vim um pouco por engano. Nas grandes manifestações de 1984 derrubámos um governo de Mitterrand. Foi no contexto de trabalhos com o Conselho da Europa e com a Unesco que tomei conhecimento do trabalho que faço hoje e que eu ignorava: uma rede mundial de comunidades francófonas católicas no mundo. Ofereceram-me a possibilidade de ser padre em Viena, Moscovo, Roma ou Lisboa. Escolhi Lisboa e não estou arrependido. Estou aqui há 12 anos. Então o Cardeal de Lisboa achou que era pena não me utilizar e pediu-me para ser Assistente Internacional das Equipas de Nossa Senhora Jovens do mundo. Estou aqui para a comunidade francófona. A comunidade são cerca de umas centenas de pessoas, conheço cerca de 500 pessoas. Há actividades variadas mas a mais importante parece-me ser a aproximação à Bíblia.

 

Como funciona esse trabalho bíblico?

Há vários grupos bíblicos. É preciso responder à procura, pois as pessoas não estão sempre livres. Na segunda à noite há a "Bíblia à noite" para as pessoas que trabalham, que são professores e estão ocupados ao longo do dia. Às terças-feiras de manhã, de quinze em quinze dias temos "A aurora dos evangelhos", sobre o Novo Testamento. Depois temos às quintas de manhã um grupo sobre o Antigo Testamento. Depois há o sector das pessoas mais idosas, o grupo S. Luís ao sábado. Há um outro grupo, "a Bíblia de Domingo" para as pessoas que trabalham ao longo da semana e após a missa estudamos até às 15H. É o grupo mais numeroso e que tem mais dificuldades.

 

Quando foi constituída esta comunidade?

A Igreja francesa não faz um acompanhamento de comunidades de franceses, mas de francófonos. Quer dizer que acolhemos belgas, canadianos, suíços e mitos africanos. A história da Igreja remonta à Idade Média. Quando Luís XV soube da catástrofe do terramoto de Lisboa, enviou um ministro plenipotenciário para reconstruir a igreja no local onde estamos. Esta é uma das três igrejas de S. Luís dos Franceses no mundo: existe uma em Roma, outra em Madrid e esta em Lisboa. É um lugar um pouco privilegiado, pois tem o estatuto de embaixada. É um lugar de trabalho, de troca de amizade e, o que me parece mais fundamental, há aqui uma acção para anunciar o Evangelho em língua francesa aos mais novos. Os encontros são muito diversos.

 

Há missa todos os dias?

Não. Respondo aos pedidos que me fazem, aos grupos que solicitam. Celebro aos Sábados às 18H30, e aos domingos às 11H00.

 

Que idade tem?

Tenho 82 anos. Mas devido ao trabalho que fiz toda a vida em contacto com os mais novos tenho-me sentido sempre jovem. Constatei, há muito tempo, que as mulheres mães de família trabalhavam cerca de 15 horas por dia. Considerei então que não tinha o direito de trabalhar menos de 15 horas por dia para poder falar-lhes com autoridade. Ganhei o hábito de trabalhar 15 horas por dia.

 

Muito desse trabalho tem a ver com os estudos bíblicos…

Posso dizer-lhe que aqui, nesta sala, estão os livros que aparecem de exegese bíblica em língua francesa. Procuro estudá-los e emprestá-los a outros. Penso que não temos o direito de falar se não trabalhamos antes. No mundo da exegese bíblica as coisas mudaram muito e é preciso estudar bastante. Todos os domingos, no fim da missa distribuímos um papel com "chaves de leitura" para o domingo seguinte. E graças a Martinne, a minha secretária, estes textos chegam pela internet a muitas outras pessoas. Um dia apareceram-me aqui umas pessoas de Tóquio que queriam conhecer quem escrevia esta partilha. Actualmente estou a fazer uma reflexão sobre o Vaticano II porque muitas pessoas não sabem o que foi o Concílio. No meu trabalho de professor e na minha leitura constante foi-me pedido fazer balanços do Vaticano II dez, vinte e trinta anos depois!

 

Conheceu pessoalmente João XXIII?

Para mim, João XXIII é o Papa do século XX. A maior parte do trabalho foi feita por ele. E muitos esqueceram-no. João Paulo II foi mais visível. Acolhi esse "bravo núncio" do Papa [Cardeal Ângelo Roncali, futuro João XXIII], quando estava no Seminário de l’Ile de France, mostrei-lhe a igreja e discuti com ele sobre as pinturas que ali existem.

 

É verdade que não gosta que o tratem por "père" [padre/pai]?

Quando cheguei aqui a primeira asneira que fiz foi responder a quem chamou de "padre": "Mas eu não sou teu pai! Jesus diz no Evangelho para não chamar pai a ninguém a não ser ao pai do Céu!" Lembro-me de um engenheiro, pai de cinco filhos, a quem lhe disse isto e que, quinze dias depois veio muito admirado dizer que, de facto, aquilo estava no Evangelho! As pessoas esqueceram-se do que vem no Evangelho. E foi assim que apareceram um, dois, três, quatro, cinco, seis grupos bíblicos. Digo muitas vezes: ‘Vocês não conhecem a Palavra de Deus.’ Utilizo uma pequena imagem: o Senhor nosso Deus enviou-nos uma carta de amor e nós não abrimos o envelope, ou abrimo-lo e deixamos a carta no bolso sem a ler. Em França, no século dezassete e dezoito, os impressores queriam imprimir os textos litúrgicos e o arcebispo de Paris disse que os excomungaria. À maior parte das pessoas que ajudo a descobrir que têm a graça de aceder à Bíblia pergunto: sabiam que Teresa de Ávila, Catarina de Sena, doutoras da Igreja, nunca puderam ler o Evangelho todo de seguida? Teresa só falava espanhol, Catarina de Sena só conhecia o italiano; nenhuma sabia latim. O que conheciam era sobretudo comentários. Fizeram-se guerras de religião porque, em vez de ler a Palavra, matavam-se em honra de não sei que Deus. É miserável! A descoberta da Palavra de Deus é extraordinária e eu desejo que os países do sul possam fazer iguais descobertas aos países do norte da Europa em termos bíblicos.

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