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Opinião, por Victor Gil
Do Sofrimento...
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Deus criou-nos para sermos felizes, entendendo-se a Felicidade como a plenitude da realização como seres humanos, na nossa relação connosco, com os outros e com o próprio Deus. Esse caminho para a Felicidade tropeça frequentemente em escolhos exteriores à nossa vontade (miséria, desgostos, desinserção social, doença, solidão) ou resultantes dos nossos erros, da nossa inadaptação, ou da incapacidade para seguir esse percurso. A construção da nossa Felicidade faz-se de alegrias mas também de tristezas, de nascimentos e de perdas, de satisfação e de sofrimento.

O desenvolvimento das ciências tem permitindo afastar muitos mitos, consolidando-se a ideia de que o Conhecimento humano poderá ultrapassar todas as fronteiras. O Conhecimento pode encontrar soluções que removam obstáculos para a realização humana e nessa medida pode ser um importante instrumento para a Felicidade. Todavia, o Conhecimento não é, por si só, fábrica ou cimento de Felicidade. As ciências médicas têm conseguido prolongar a sobrevivência e aliviar o sofrimento - o que fazem com razoável eficácia na imensa maioria dos casos - mas nunca lograrão conseguir a vida eterna neste mundo nem a ausência total de sofrimento que não é apenas de ordem física mas tantas vezes psicológica, familiar económica ou social. Além disso, uma mais longa existência humana é muitas vezes mais só, mais privada de conforto, mais triste. No entanto, ninguém questiona a bondade do aumento da sobrevivência da nossa espécie; o que falta é a sociedade e a família desenvolverem ao mesmo ritmo os mecanismos de enquadramento dos mais idosos garantindo um ocaso da vida sereno, pacífico e, porque não?, feliz.

Almejamos um estado de Bem absoluto (afinal, o Reino de Deus) mas, neste mundo em que vivemos, o mal também existe e é de tal modo visível por todo lado que por vezes ofusca o Bem e nos faz sentir diminuídos e impotentes.

A Sociedade Humana, embora imperfeita, infectada por séculos orgulho, de ignorância, de intolerância, de violência e de falta de Amor, tem procurado, não obstante, construir regras de convívio a que chamamos Civilização, sempre ameaçadas pela barbárie de ontem e de hoje, mas sempre em aprofundamento lento mas progressivo no sentido da Paz. Nos grupos humanos culturalmente mais avançados (entendendo-se Cultura como o produto da criação humana em todas as suas vertentes), o respeito por Valores fundamentais como os que se acordou estarem contemplados na Carta dos Direitos do Homem, ganhou raízes profundas. Entre eles, emergem o direito à Vida e o direito à Liberdade.

O relativismo tem vindo a ocupar um espaço cada vez maior no sentir das sociedades atuais e, centrada apenas no homem, é difícil defender princípios absolutos de ética e de moral. Para os Cristãos, a Vida e a Liberdade são Bens fundados no próprio Deus.

Talvez a maior polémica civilizacional dos dias de hoje, seja o confronto entre a Vida e Liberdade. Para uns, a Liberdade é o valor supremo, devendo todos os outros valores, incluindo a Vida, se subordinar e ela; para outros, é a Vida humana o valor supremo, que para os crentes assume especial sentido pois incorpora o sopro do próprio Deus.

É à luz da ausência de Valores absolutos que se defende o aborto como solução para chagas sociais, contornando a questão central do sacrifício de uma vida humana inocente em nome da liberdade de proceder de acordo com o que aparenta ser mais útil.

No outro limite, a morte é proposta como solução do sofrimento extremo, tido como insuportável, sem possibilidade de alívio ou de esperança.

Neste ponto da nossa reflexão, convém recordar que o sofrimento não é feito apenas de dores físicas, mas engloba um conjunto complexo de factores que incluem a destruição da auto-imagem, o abandono, a solidão, o desespero, a exaustão. Mas mesmo nessas circunstâncias de dureza intensa, mesmo dotados de razão, de autonomia e de liberdade para decidir, quem pode e com que autoridade, decidir sobre a destruição da própria autonomia, da própria liberdade e da própria vida? Na verdade, como escreveu Tolentino: "...quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?" (Tolentino de Mendonça, "Não matarás", Revista do Expresso, 27.02.2016).

Escrevia o Papa Bento XVI na Carta Encíclica “Salvos na Esperança”:

"Podemos procurar limitar o sofrimento e lutar contra ele, mas não podemos eliminá-lo. Precisamente onde os homens, na tentativa de evitar qualquer sofrimento, procuram esquivar-se de tudo o que poderia significar padecimento, onde querem evitar a canseira e o sofrimento por causa da verdade, do amor, do bem, descambam numa vida vazia, na qual provavelmente já quase não existe a dor, mas experimenta-se muito mais a obscura sensação da falta de sentido e da solidão. Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor".

O nosso Deus de Amor e Misericórdia não eliminou o sofrimento da face da terra, mas sentiu e partilhou as nossas dores e caminha ao nosso lado, confortando-nos na Esperança do encontro com Ele, origem e sentido da Vida. No entanto, no sofrimento extremo, experimenta-se muitas vezes aquilo a que alguns chamaram o silêncio de Deus que está ali, mas silenciosamente, simplesmente estando, enquanto a longa e difícil travessia se faz redimindo-nos a caminho da Luz.

O Papa Francisco distingue Misericórdia - relacionada com o julgamento divino sobre nosso pecado – de Compaixão, que tem rosto mais humano e significa sofrer com, sofrer juntos, não permanecer indiferente à dor e ao sofrimento alheio. É em nome da Compaixão pelo sofrimento extremo que se tem defendido a legalização da eutanásia e o suicídio medicamente assistido (Papa Francisco, "O nome de Deus é Misericórdia").

A compaixão perante o sofrimento extremo e o dever supremo de o aliviar, ganha o seu maior sentido na perspectiva de defesa e respeito absoluto pela Vida e Dignidade Humana. Invocar a morte como solução para o sofrimento, é uma completa inversão do sentido profundo das coisas. Quais os limites? Que sofrimentos devem ser aliviados e quais os que devem merecer a morte? Por escolha do próprio? E as fases de desespero, de solidão, de negação? Que tantas vezes são apenas fases? A Medicina não conseguirá aliviar eficazmente todo o tipo de sofrimento mas a medicina também não consegue curar tudo. E levar a medicina ao extremo possível da paliação do nosso semelhante que sofre é uma forma superior de respeitar a sua dignidade e a sua vida nessa fase derradeira, mesmo que prolongada que antecipa a morte. É o reconhecimento do sentido da Vida, que pode dar sentido ao sofrimento. É ainda em respeito pela Vida e Dignidade humana, que nas situações de sofrimento extremo e irreversível é ilegítimo usar medidas desproporcionadas que prolonguem artificialmente a vida.

A Esperança é também a de que, no sofrimento extremo, na dor absoluta, em que o desespero e a incerteza nos assaltam, ante o silêncio de Deus, como Job e Teresa de Lisieux, a Misericódia de Deus tenha em conta tudo o que fomos, tudo o que somos, e nos sobre uma fé pequenina, como diria o teólogo Tomás Halík, que nos leve ao outro lado a contemplar o Rosto Luminoso de Deus.


Victor Gil,
Médico e professor universitário

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