Missão |
Gabriela Ricca
“Os indígenas vivem segundo uma simplicidade e felicidade intrínseca que nos apaixona”
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Gabriela Ricca (na foto, à esquerda) nasceu no Porto, no dia 3 de junho de 1994. Está neste momento a tirar a licenciatura em Engenharia Mecânica, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, após um ano de missão em Sepahua, no Peru, onde conviveu de perto com várias comunidades indígenas.

 

Uma formação com destino à Missão

Durante o percurso académico, Gabriela passou por várias escolas, uma experiência que agora recorda como uma aprendizagem constante para estar sempre preparada para partir para novos desafios. Ao mesmo tempo, foi sempre um percurso marcado por uma identidade católica, presente logo no ensino primário, frequentado no Colégio Flori, das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, e no qual cresceu com o testemunho das irmãs e de todas as pessoas que lá trabalhavam. Também no seio familiar, Gabriela foi crescendo no seio de uma família numerosa e disponível para a novidade da vida. É a mais velha de quatro irmãos, tendo 19 anos de diferença da sua irmã mais nova. Por isso, mesmo em ambiente familiar, Gabriela foi crescendo em comunidade, na certeza de que a felicidade individual se constrói na comunhão e no serviço aos outros.

O dia-a-dia de Gabriela sempre foi muito preenchido com muitas atividades extracurriculares: um campo de formação de animadores organizado pela Mocamfe, um curso de liderança jovem organizado pela United World Colleges, participação nos campos de férias do Cantil e nos grupos de jovens e de CVX do CREU – Centro Universitário de Jovens dos Jesuítas. Foi neste meio que surgiu a ideia de organizar um campo de férias para crianças e jovens nas aldeias próximas de Vila Nova de Foz Côa que já vai na sua terceira edição: “Foi a minha primeira experiência de voluntariado como projeto e modo de vida”.

 

Sepahua – um ano de entrega

Sepahua é uma aldeia ao largo do rio Urubamba, rio que atravessa o Peru e desagua no Amazonas. Ao redor de Sepahua encontram-se várias pequenas comunidades nativas que ainda vivem segundo o modo de vida e a cultura indígena. Foi a Ordem dos Pregadores que nesta região construiu a primeira escola, a primeira carpintaria e o primeiro centro de saúde.

Em Sepahua existem dois Internatos da Missão (um para rapazes e outro para raparigas) da responsabilidade das Irmãs Dominicanas. Estes internatos acolhem as crianças e jovens das aldeias mais afastadas (um a dois dias de canoa) que vêm para Sepahua para estudar, indo a casa duas vezes por ano. “A comunidade de três irmãs que vivem na Missão foi a minha família mais próxima durante esse ano. Uma delas, a Irmã Mercedes Ravelo – que para mim será sempre a Hermana Meche, foi com quem partilhei a direção do internato. Não há palavras para descrever de forma justa o quão crucial a Hermana Meche foi para mim durante este ano. Foi o meu porto seguro e pilar constante”. Inicialmente o dia-a-dia de Gabriela era vivido neste Internato: “Cuidar, conhecer e guiar estas crianças e jovens mulheres indígenas”. Vivendo com estas jovens no mesmo espaço, ficou a conhecer melhor esta cultura: “São pequenas nativas de 11 anos que vêem em Sepahua o pináculo da civilização”. Estas jovens nunca conviveram com outras etnias e nas suas comunidades, as mulheres nativas começam a formar família entre os 13 e os 16 anos. Algumas destas jovens são as primeiras mulheres das suas comunidades a completar o 12º ano e a grande maioria, quando regressam a casa durante as férias são as únicas que não têm filhos ou companheiro... “Há muitas questões a resolver, muitos pequenos passos a dar para encontrar um equilíbrio entre a importância de estudar e a necessidade de não tornar esta educação incompatível com a cultura indígena”.

Gabriela teve ainda oportunidade de dar aulas numa escola primária em Nuevo Rosario perto de Sepahua, maioritariamente de etnia Yaminahua. É uma comunidade composta por 4 famílias, ainda sem eletricidade ou água, vivendo da pesca, da caça e da recolha de alimentos: “Não me foi fácil entrar nesta comunidade. Os indígenas são conhecidos por não deixarem os ‘invasores’ entrar, e a sua grande arma é a cultura e a língua: ao não partilharem o seu modo de vida, o seu conhecimento e a sua língua nativa com quem vem de fora, mantêm-se protegidos. Demorei alguns meses a saber como me aproximar, e como me deixar aproximar. É algo que custa. Há muitos ajustes a fazer, muitas pequenas coisas que para nós são óbvias. É preciso muita ginástica mental”. Mas se o choque inicial foi grande, a aprendizagem foi ainda maior: “A mentalidade indígena difere muito da nossa: não vivem como indivíduos, senão como família/comunidade; vivem segundo uma simplicidade e felicidade intrínseca que nos apaixona. Vivem o hoje, e não o amanhã. Sorriem pelo que têm e vivem, nunca dando muita importância ao que não têm. Acima de tudo, vivem em paz e com um sentimento constante de pertença”.

Uma outra experiência que marcou Gabriela foi a Rádio Sepahua, criada pelo Padre Ignacio Iraizoz, um missionário dominicano que iniciou este projeto em 2000, sendo atualmente a única rádio FM na zona: “Como nas comunidades nativas que nos rodeiam não há acesso a rede de telemóvel, a internet, a jornais ou a qualquer outro meio de comunicação, a existência de uma rádio FM mudou radicalmente a maneira de passar informação dentro desta região. Desde missas e rosários, passando por noticiários que englobam as principais notícias da zona, até avisos pessoais que membros das comunidades pretendem dar a outros, tudo passa na Rádio. A 100.5 FM é, para todos eles, muito mais que uma emissora de rádio. É quem os acompanha na cozinha ou no campo e é a única janela de informação com o seu distrito, o seu país e o resto do mundo; é, também, a professora que os ensina como alimentar os seus filhos para que cresçam saudáveis e que lhes lembra que devem ferver a água para evitar a diarreia”.

Hoje, a muitos quilómetros de distância, Gabriela recorda esta experiência de Missão como uma grande inspiração para encontrar o equilíbrio necessário entre diferentes culturas, modos de vida e formas de encarar o dia-a-dia. Foi sem dúvida uma experiência que marcará para sempre o quotidiano desta jovem que abraçou os desafios da Missão.

texto por Emanuel Oliveira Soeiro, Fundação Fé e Cooperação
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