Entrevistas |
Cónego Luís Alberto Carvalho, Missionário da Misericórdia
“Ainda me surpreendo no confessionário, não pelos pecados mas pelo trabalho da graça na vida das pessoas”
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O cónego Luís Alberto Carvalho é um dos dois Missionários da Misericórdia do Patriarcado de Lisboa e defende que “é justamente quando toca o perdão que se nota mais a novidade da vida cristã”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, este sacerdote fala ainda da missão pedida pelo Papa Francisco.

 

É um dos dois Missionários da Misericórdia do Patriarcado de Lisboa, num envio feito pelo Papa Francisco. Qual a sua missão em concreto?

Há duas linhas de ação. A primeira é ao nível da pregação: aquilo que é comum a todos os padres, nós sentimo-nos particularmente responsabilizados em o fazer – o anúncio da misericórdia. Nas solicitações que nos fazem, aquelas normais que já fazemos e outras eventualmente derivadas por todo este ambiente que a Igreja vive nesta altura no âmbito do tema da misericórdia. A outra linha de ação é ligada ao exercício do sacramento da Reconciliação. Mais uma vez, também é, evidentemente, vivido por toda a Igreja e por todos os padres, mas no nosso caso concreto de Missionários da Misericórdia tem algumas faculdades que o Papa nos deu. No ano santo, o Papa já estende a todos os padres a capacidade de absolvição de determinados pecados que por princípio estão, pelo direito, reservados ao Bispo, como o aborto; a nós, Missionários da Misericórdia, também nos dá a faculdade de perdoar alguns pecados que estão reservados à Santa Sé.

 

E que pecados são esses?

Basicamente são quatro. Dois dizem respeito à generalidade dos fiéis e têm a ver com a agressão ao Santo Padre, que não é um pecado muito comum, e à abjuração da fé, ou seja, o renegar publicamente a fé e depois querer regressar de novo à comunhão. Há ainda dois pecados mais ligados aos padres, porque têm a ver com o exercício do ministério da reconciliação, portanto da própria confissão: a revelação explícita, direta, do segredo da confissão e a solicitação na confissão, que significa o uso da confissão como meio de se aproximar de uma forma que não está de acordo com a própria confissão e não está de acordo com a moral de se aproximar de alguém nesse sentido.

 

De que forma acolheu este pedido do Santo Padre?

Acolhi, por um lado, com naturalidade, como acolho tudo o que vem da Igreja, apesar de não me sentir nunca à altura daquilo que me é pedido. A minha lógica de funcionamento é fazer aquilo que me pedem e se me pedem tenho a certeza que não sou eu que faço mas o Espírito que faz através de mim. Mas com naturalidade também porque como sou cónego penitenciário já tenho na diocese ordinariamente a capacidade de poder substituir também o Bispo diocesano naquilo que diz respeito à faculdade de perdoar alguns pecados e penas inerentes a pecados. Além da naturalidade, há sempre aquela coisa de nós sentirmos – não digo o peso – a responsabilidade que é. É um sentido de exigência acrescido, que advém do facto de sermos escolhidos para uma missão destas.

 

O que tem sido possível concretizar nestes primeiros meses de Ano da Misericórdia e quais as expectativas para o que ainda falta deste ano jubilar?

Ao nível da pregação não foi possível concretizar muita coisa, em especial devido a doença. Ao nível da confissão e da direção espiritual não sinto que esteja a ser mais procurado do que era anteriormente; além daquilo que era a minha predisposição anterior, sinto que este facto de ser Missionário da Misericórdia funciona como um estímulo, uma interpelação muito forte, que me leva a ter isso muito presente na relação com as pessoas.

Para o futuro, tenho vários retiros marcados, porque uma das coisas que o Papa nos disse – não o Papa diretamente mas o presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, D. Rino Fisichella – foi que de alguma forma nós até teríamos que colocar esta missão de Missionários da Misericórdia à frente daquilo que são os serviços que já temos…

 

Nas suas duas paróquias – Fátima e Santa Joana, Princesa –, sente que houve uma aproximação das pessoas à confissão?

Houve, mas já tinha havido antes de ser inaugurado o Ano Santo da Misericórdia. Logo no início do ano pastoral, em outubro, eu e os padres que comigo colaboram decidimos ter uma cobertura semanal com um horário de confissões muito mais alargado do que aquele que tínhamos anteriormente. Se ao princípio não era muito ‘concorrido’, agora a prática é a procura da confissão.

 

Num encontro em Roma com os 1071 Missionários da Misericórdia de todo o mundo, a 9 de fevereiro último, o Papa Francisco pediu aos confessores para cobrirem os pecadores “com o manto da misericórdia” e lembrou-os que são “chamados a expressar a maternidade da Igreja”. De que forma é possível aos sacerdotes cumprirem este desejo do Papa?

Participei nesse encontro com o padre Rui Valério, o outro Missionário da Misericórdia do Patriarcado de Lisboa, e encontrámos mais cinco sacerdotes portugueses – dois da Diocese de Braga e três religiosos Capuchinhos –, o que não quer dizer que não haja mais. Eu vejo o facto de ser Missionário da Misericórdia como um sinal do que propriamente como um ‘encargo’. É toda a Igreja que é chamada a viver o Ano da Misericórdia, e isso significa duas coisas: em primeiro lugar, significa fazer a experiência da misericórdia de Deus para consigo. Cada um de nós é chamado a fazer essa experiência. E é na medida em que a fizermos que depois podemos ser testemunhas dessa misericórdia e exercê-la junto dos outros. Portanto, ser misericordioso como o Pai é misericordioso, que é o lema deste ano jubilar, é algo que só se pode ser depois de se experimentar a grandeza dessa misericórdia na primeira pessoa. E isto também não é uma novidade do Ano Santo da Misericórdia. A novidade é colocar o acento aí e é sublinhar muito isso. Nesse encontro em Roma, o Papa sublinhou muito, de uma maneira muito viva e rica, esta dimensão da misericórdia, que por vezes se pode perder.

Recordo ainda palavras do Papa Francisco alertando que quando temos diante de nós um pecador, temos de ter consciência que temos diante de nós uma pessoa. Só depois é que temos diante de nós os pecados. Convidou-nos a viver uma dimensão do acolhimento que olha um penitente como uma pessoa e não como um monte de pecados que ali está. O Papa disse-nos ainda que se por acaso tivéssemos alguém que inclusivamente pudesse não estar em condições de receber a absolvição, que nunca devia sair daquele espaço e daquele momento de reconciliação sem levar pelo menos uma bênção.

 

O mundo está carente de misericórdia?

O mundo está muito carente de misericórdia. Uma das coisas que sinto no dia-a-dia, na relação entre as pessoas, é uma certa incapacidade de acolher as falhas dos outros. Há uma certa impaciência, há uma certa ‘reivindicação’ de direitos que não deixa de ter razão de ser mas que da forma como é exercida muitas vezes parece que não tem em consideração que o outro também é uma pessoa, também é uma pessoa que erra, que falha. A misericórdia não como um ‘passa culpas’, um desculpar, mas como a capacidade de nos pormos na pele do outro e de olhar o outro como uma pessoa que também está a caminho e está em crescimento, e precisa de tempo como nós precisamos. Uma das consequências naturais da misericórdia de Deus para connosco, creio eu, é que Deus quando olha para nós nunca vê o que somos hoje; Deus vê sempre aquilo que Ele quer que nós sejamos e ainda podemos ser. Para Deus nunca há casos perdidos. Por isso podemos compreender porque é que há mais alegria no Céu por um só que se arrepende do que por 99 que já vão mais à frente e não estão tão longe daquilo que é o sonho do Pai para todos nós.

 

Que mensagem poderia transmitir às pessoas que têm dificuldade em se aproximar da misericórdia de Deus através do sacramento da Reconciliação?

Uma mensagem de fé e simplicidade. Uma mensagem de perceberem que o sacramento da Reconciliação é dado a respeitos humanos, que nós sabemos que o padre está ali em nome de Deus e da Igreja a perdoar os pecados… há sempre uma certa relutância, uma certa dificuldade natural. Por um lado, há quem prefira confessar-se a quem não conhece de lado nenhum, exatamente por causa disso; por outro lado, há quem prefira confessar-se a quem conhece precisamente porque o conhece.

O Papa disse-nos uma coisa interessante no encontro em Roma: a misericórdia também passava por não estar a castigar muito, entre aspas, as pessoas que estão ali. Pensar que para alguns já é uma penitência muito grande o estarem ali, ajoelhados, naquela altura. Percebo que isso possa ser complicado e difícil, mas a mensagem que eu teria para deixar é que vale a pena! Vale a pena arriscar, vale a pena experimentar e viver a misericórdia de Deus assim.

Se nós percebemos o papel da Igreja como mediação e a maneira que Deus tem, hoje, de estar connosco, e se a Igreja sobretudo na sua expressão sacramental nós a usamos e a vivemos assim – no Batismo, na Eucaristia, no Matrimónio, na Unção dos Doentes e em todos os outros sacramentos –, então também não faz sentido haver um que nós não ‘usemos’ só por razões nossas. Há aqui um sermos capazes de nos vencermos a nós próprios, morrermos para nós próprios, que é fonte de vida e que vale a pena.

 

Ao fim de 36 anos de sacerdócio, ainda se surpreende durante o sacramento da Reconciliação?

Ainda me surpreendo, não pelos pecados mas pelo trabalho da graça na vida das pessoas. Há confissões que eu penso que me fazem muito melhor a mim, confessor, do que a quem se confessa. Acredito que quem se confessa sai dali com a graça de Deus e portanto faz-lhe imenso bem, mas faz-me muito melhor a mim. O que passa no sacramento da confissão não é muitas vezes apenas o enunciado do pecado, é a fé que transparece da maneira como a pessoa olha para si, olha para Deus, olha para a vida. Deste ponto de vista, saio muito edificado do confessionário. Não pelo mal feito, mas pela leitura de fé que as pessoas são capazes de fazer da sua vida e de a viver na relação com Deus.

 

Por que é tão difícil perdoar?

É o mal, é o pecado… é talvez o que há de mais difícil na vida. Porque é aquilo que nos obriga mais a sairmos de nós próprios, deixarmos de ser o centro para fazermos de nós um dom, um ser para os outros, de uma forma totalmente gratuita. Não é por acaso que Pedro perguntou a Jesus: ‘Quantas vezes é que eu devo perdoar? Até sete vezes?’ – e isto não vem lá, mas nós podemos imaginar que ele era capaz de estar a pensar que sete vezes já era muito. Quando ouviu a resposta de Jesus, a dizer que era setenta vezes sete, deve ter ficado sem palavras. Porque é justamente quando toca o perdão que se nota mais a novidade da vida cristã. Jesus vem dar-nos um mandamento novo: o do amor, mas o amor que é novo é amar como Ele ama. Isto dito assim, porque o amor é uma coisa que nos diz muito a todos, até pode parecer que não tem grande novidade ou pode não nos parecer assim tão espetacular como isso, porque vem ao encontro daquilo que a natureza por si só é capaz de descobrir e perceber como uma riqueza. Mas é preciso lembrarmo-nos sempre daquele outro amor que Jesus juntou e que a natureza não conhece e torce o nariz: o amor aos inimigos.

É difícil perdoar por aquilo que exige da pessoa de se descentrar por completo de si própria e ter olhos apenas para o amor, para a plenitude do amor que é Deus.

  

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O Missionário da Misericórdia padre Rui Valério

Na próxima edição do Jornal VOZ DA VERDADE, de dia 5 de junho, não perca a entrevista ao outro Missionário da Misericórdia do Patriarcado de Lisboa, o padre Rui Valério, sacerdote Monfortino que é pároco de Póvoa de Santo Adrião e vigário da Vigararia de Loures - Odivelas.

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