Mundo |
A história (quase) esquecida da Igreja no Mali
A vida por um fio
<<
1/
>>
Imagem

Depois da tentativa de imposição da “sharia”, a lei islâmica mais rigorosa, por grupos jihadistas em 2012, quase não há presença cristã no norte do Mali. Mesmo no resto do país são poucos. E todos se sentem ameaçados.

 

Sexta-feira, dia 20 de Novembro de 2015. Hotel Radisson Blu, em Bamako, capital do Mali. Passavam poucos minutos das seis da madrugada quando se escutaram os primeiros gritos, os primeiros tiros. O hotel de luxo, frequentado essencialmente por ocidentais, transformou-se, num ápice, num campo de batalha. Homens armados, que se fizeram transportar num carro com matrícula diplomática, entram no edifício aos tiros e começam a vasculhar todos os quartos, um a um. Escutam-se explosões. Os não muçulmanos são alvejados. Abdoulaye Sangaré, um turista senegalês, deixou-se ficar no quarto à espera do pior. “No início, ouvi disparos, barulhos de portas a bater e bombas a explodir. Mas depois ficou tudo calmo no meu andar. Houve momentos de silêncio e novas explosões”, contou, mais tarde, aos jornalistas. O ataque foi reivindicado por um grupo islamita radical, o Al-Murabitun, ligado à Al-Qaeda no Magreb Islâmico. Na altura do ataque, o hotel tinha quase centena e meia de hóspedes. Mais de 100 ficaram reféns do grupo terrorista durante quase nove horas. Foi o tempo necessário para as forças especiais libertarem o edifício. O ataque, que haveria de ser reivindicado pouco depois, causaria 27 mortos.

 

Terror sem fim

O ataque no Mali ocorreu apenas uma semana depois dos atentados em Paris, cometidos pelo auto-proclamado “Estado Islâmico”. A tragédia na França terminou com cerca de 130 mortos e mais de 300 feridos. Ainda hoje todos recordam esse ataque. O do Mali já caiu no esquecimento, apesar de a violência continuar neste país. Domingo passado, dia 29 de Maio, 5 capacetes azuis foram mortos numa emboscada no centro do país, no que parece ser uma nova onda de violência terrorista. Na sexta-feira anterior, dia 27, há cerca de uma semana, portanto, outros cinco soldados perderam a vida, quando o veículo em que seguiam foi atingido pela explosão de uma mina numa emboscada na região de Kidal. Já em Fevereiro, o Al-Murabitun tinha atacado de novo. Dessa vez, uma base da ONU em Timbuktu. Antes, em 7 de Janeiro, deu-se o rapto de uma religiosa suíça, Beatrice Stockly. Num vídeo, com oito minutos, a Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI) reivindicou esse sequestro afirmando que “Beatrice é uma religiosa suíça que declarou guerra ao Islão procurando cristianizar os muçulmanos”. O Mali continua a ser um terreno fértil para a actuação de grupos armados, apesar da intervenção militar francesa em 2013.

 

“Apanhados pela desgraça”

Por causa da violência e da instabilidade, os Cristãos são cada vez mais raros no país, especialmente ao norte. O Padre Germain Arama, da Diocese de Mopti, no centro do Mali, é testemunha disso. “São muito poucos e quase todos expatriados”, explica à Fundação AIS. A maior parte dos Cristãos actualmente no norte do Mali são militares franceses ou capacetes azuis do Togo ou de Espanha. A presença da Igreja aí é praticamente inexistente. “A situação é muito difícil”, explica Arama. “Há atentados suicidas, bombas que explodem aqui e ali. Todo o trabalho pastoral está em ‘stand by’. O único padre que celebra Missa no norte tem de ir num avião militar. Se for de carro, é preciso fazer 600 ou 700 quilómetros. No Norte – explica ainda este sacerdote – quando alguém sai de casa para ir trabalhar, despede-se da família pela manhã, pois não sabe se voltará a encontrá-la pela tarde, no regresso.”
A violência está presente, mesmo quando não há notícias de atentados. “Ninguém controla nada. Cristãos, ou não cristãos, todos podem ser apanhados pela violência, pela desgraça”, diz ainda o Padre Arama.
A “desgraça” acentuou-se em 2012, quando o norte do Mali foi ocupado por milícias islâmicas. A ameaça da conquista da própria capital levou então a uma intervenção militar estrangeira liderada pela França. No entanto, são ainda frequentes os combates entre o exército e forças rebeldes, violência que acentua, ainda mais, a pobreza extrema em que vivem tantas comunidades.

 

Memória inquieta

Dessa revolta de 2012, quando os jihadistas quiseram impor a “sharia”, a lei islâmica mais radical, sobra ainda uma memória inquieta. Diz o Padre Germain Arama: “Esses jihadistas foram repelidos, alguns foram mortos e outros não se sabe onde estão. Mas provavelmente estarão escondidos, ou fugiram para a Mauritânia ou Argélia. Temos de compreender que alguns estão ainda entre nós, estão por aqui. Alguns são originários até das nossas aldeias e vilas. É por isso que ainda sofremos atentados…” De facto, ninguém esquece os tempos terríveis em que o país foi ocupado pelos jihadistas que impuseram punições como flagelações, amputações e execuções. Nesses meses de terror, os jihadistas andaram “à caça de sacerdotes e religiosos”.

Desde o epicentro da crise, em 2012, a Igreja do Mali tem sido apoiada pela Fundação AIS, com uma ajuda de emergência para as populações em fuga. Ainda hoje, essa ajuda é essencial. De facto, no Mali, os Cristãos são cada vez menos e estão todos inquietos. Passaram já quatro anos desde que os jihadistas quiseram expulsar os Cristãos. No entanto, os últimos ataques, como o do Hotel Radisson Blu, em Bamako, ou os atentados contra as forças das Nações Unidas, há uma semana apenas, mostram que ninguém está seguro em lugar algum. Para os Cristãos no Mali, a vida pode estar mesmo por um fio.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
Na Tua Palavra
Não nos separemos d’Ele!
por D. Nuno Brás
A OPINIÃO DE
Isilda Pegado
1. Neste tempo, em que o individualismo parece imperar, apesar da destruição que gera na Sociedade,...
ver [+]

P. Duarte da Cunha
Que todos os homens querem ser felizes não parece ser objecto de discussão entre pessoas sãs. Todos queremos, de facto, ser felizes.
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES