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Os dias difíceis da comunidade cristã em Zanzibar
Sobreviver ao medo
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A cada dia que passa cresce o receio entre a minoritária comunidade cristã em Zanzibar, na Tanzânia. Desde há um par de anos que esta região, famosa como destino turístico, tem sido abalada por ataques com motivação religiosa. Os extremistas islâmicos parecem ter apenas um objectivo: acabar com a presença dos Cristãos.

 

Dia 2 de Maio. Igreja de Nyarwele, na região de Kagera, no extremo noroeste da Tanzânia. De repente, o alarme corre de boca em boca. A igreja está a arder. Os primeiros que chegam tentam apagar as chamas, mas pouco conseguem já fazer. O calor impede as pessoas de se aproximarem e tudo arde em pouco tempo. Documentos, cadeiras, bancos, livros litúrgicos, até um gerador. Este é o terceiro lugar de culto cristão incendiado desde o início do corrente ano. O Padre Bijura foi dos primeiros a reagir ao incidente. Na verdade, e uma vez mais, tratou-se de um “atentado contra a comunidade cristã”. Além dos três templos consumidos pelas chamas em Maio, na memória de todos estão ainda seis igrejas incendiadas em Kagera no ano passado, em Setembro.

O incêndio da igreja de Nyarwele veio como que reavivar o sentimento de medo que parece alastrar entre toda a comunidade cristã. São incidentes de mais. É uma violência gratuita que parece crescer impunemente perante a passividade das autoridades. O Padre Bijura, porém, não desiste. “Aqueles que pensam que se destruírem as nossas igrejas não rezaremos mais, estão enganados... há uma grande árvore perto da igreja e continuaremos a reunir-nos por lá para rezar”.

 

Dias de terror

A comunidade cristã do arquipélago de Zanzibar é muito pequena. Calcula-se que serão apenas cerca de 10 mil fiéis, inseridos numa população estimada em mais de 1 milhão de habitantes, na sua maioria muçulmanos. A convivência entre religiões decorria com normalidade até que grupos radicais islâmicos começaram a instigar as populações, acusando os Cristãos, apontando-lhes o dedo e procurando transformar Zanzibar num estado independente, gerido pela sharia, a lei islâmica mais radical. O Verão de 2012 marcou o início das hostilidades. Então, centenas de manifestantes invadiram igrejas, atacando cristãos, lançando o medo. O Padre Amos Kibona não esquece o que lhe aconteceu. Foi a 28 de Maio. “Chegaram em nome da religião, perseguindo os Cristãos para que Zanzibar continuasse a ser só dos Muçulmanos. Chegaram em grande número, com machados e lanças, arrombaram a porta e queimaram tudo. Depois fugiram.” Ainda nesse ano, no próprio dia de Natal, alvejaram e feriram gravemente o Padre Ambrose Mkanda, e, dois meses mais tarde, assassinaram, à queima-roupa, o Padre Evaristus Mushi. Hoje em dia, ninguém consegue esconder o receio do que possa vir a acontecer. Do que possa vir a acontecer-lhe. O Padre Cosmas Shayo reconhece que “há muito medo e tensão” no ar.

 

Exemplos de fé

O papel da Igreja em Zanzibar é fundamental. Cerca de metade da população vive abaixo do limiar da pobreza. No arquipélago, que incluiu além de Zanzibar a ilha de Pemba, há oito paróquias onde todos os dias um punhado de homens e mulheres trabalham junto dos mais desfavorecidos, e não apenas dos Cristãos. Como diz o Padre Thomas Assenga, “por aqui até os Muçulmanos são pobres”. As prioridades da diocese são a educação e a saúde. Fazendo das fraquezas força, a Igreja em Zanzibar quer construir escolas e centros de saúde. E conta, para isso, com a ajuda da Fundação AIS. Os atentados, as igrejas incendiadas e as ameaças contra os Cristãos não têm parado de crescer nos últimos tempos. No entanto, de Zanzibar chegam-nos extraordinários exemplos de fé. Apesar do medo, ninguém renuncia à sua missão. Um dos sacerdotes cujo trabalho é apoiado pela Fundação AIS, o Padre Cosmas Shayo, diz-nos que todos procuram encorajar-se mutuamente. Juntos são mais fortes. “Eu próprio tenho muito medo, mas sou padre e este é o meu local de trabalho. Se eles quiserem matar-me, morrerei aqui! Mas não posso fugir e deixar o povo para trás. Não vamos abandonar este lugar.”

 

Lugares de Misericórdia

De Zanzibar chegam-nos pedidos de orações. Os cristãos são uma minoria e os extremistas islâmicos querem expulsá-los de lá. Querem expulsá-los das suas casas, das aldeias onde nasceram, onde sempre viveram. Os extremistas matam, violentam, destroem. Mas não conseguem apagar a fé do povo. Como diz o Padre Cosmas à Fundação AIS, desde que começaram os ataques que as igrejas têm cada vez mais fiéis. “As pessoas colocaram tudo nas mãos de Deus. Por isso, aconteça o que acontecer, Deus está connosco e nós vamos ficar aqui.” De Zanzibar chegam-nos pedidos de orações, e exemplos de fé e de coragem que nos devem também fazer meditar… É que, por lá, mesmo se queimarem todas as igrejas, os cristãos hão-de sempre descobrir alguma árvore frondosa para se abrigarem e continuarem a rezar. De Zanzibar, os Cristãos ensinam-nos que o verdadeiro templo está no nosso coração. E o coração de um cristão será sempre um lugar de Misericórdia…

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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