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Cardeal-Patriarca ordena quatro sacerdotes da Companhia de Jesus
Querer o que Deus quer
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Na celebração da ordenação de quatro novos sacerdotes Jesuítas, D. Manuel Clemente lembrou o carisma de Santo Inácio de Loyola e exortou os recém-ordenados a ‘ser’ “anúncio da boa nova aos infelizes”. Conheça o percurso que levou três dos jovens a aceitarem a “liberdade” de se oferecerem como sacerdotes.

 

Fazem parte do “grupo de Companheiros de Jesus”, que tal como Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, “desejam estar ao Seu serviço junto daqueles que mais precisam, onde faça mais falta, onde ninguém quer ir”, lê-se no guião da celebração das ordenações de quatro novos sacerdotes Jesuítas, que decorreu no passado sábado, 9 de julho, na Igreja de São Roque, em Lisboa.

Andreas Lind, António Ary, Bruno Nobre e Francisco Mota são os jovens que receberam o segundo grau do sacramento da Ordem, pela imposição das mãos do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.

 

Espaço de liberdade

Em declarações ao Jornal VOZ DA VERDADE, o agora padre António Ary refere que a ideia de ser sacerdote aparecia “de vez em quando” mas sempre foi apartada. “Vivia a fé com naturalidade e intensidade especial mas, durante a adolescência, essa ideia de ser padre surgia mas era fortemente reprimida. Era como um sacrifício que esperava que Deus não mo pedisse. Por isso, essa ideia era afastada com vigor”, aponta. Mais tarde, com 18 anos, António Ary deixou França – onde sempre viveu – para estudar Direito, em Lisboa. É nesse período que, ao constatar que a ideia de ser padre não tinha sido trabalhada nem “vivida em paz”, a espiritualidade inaciana ofereceu-lhe “um espaço de liberdade para ser verdadeiramente colocada”. Foi numa experiência chamada ‘Páscoa Universitária’, organizada pelos Jesuítas, que começou o “processo mais específico e intenso de discernimento vocacional”, conta este jovem, que entrou na Companhia de Jesus em 2005. Para o futuro, o padre António irá continuar a estudar Direito Canónico, em Roma, e deseja que o seu sacerdócio seja um “instrumento de reconciliação num mundo em tensão”.

 

“Fascínio” pelo sacerdócio

Depois de concluir o Doutoramento em Física, Bruno Nobre entrou na Companhia de Jesus. Natural da Guarda, o novo padre jesuíta explicou ao Jornal VOZ DA VERDADE o contexto familiar em que viveu. “Os meus avós e pais sempre foram católicos comprometidos. Fui à catequese, desde os 6 anos, ia à Missa com a minha mãe e com o meu pai”. Aos 18 anos foi para Lisboa estudar no Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia Física e Tecnológica e onde acabou por fazer o doutoramento. “Foram anos confusos porque o meio universitário era muito secularizado... No meu curso não havia muita gente católica”, lamenta.

O percurso que levou o padre Bruno da Física até ao altar é explicado pelo “fascínio” que, em criança, tinha pelo sacerdócio. “Quando olho para trás, em criança, acho que tinha uma sensibilidade religiosa um bocadinho especial mas, depois, durante muitos anos, acho que fui esquecendo isso”, recorda. No entanto, no final do percurso universitário, foi-se envolvendo em atividades da Igreja e chegou a ser chefe dos escuteiros, colaborador da Pastoral Universitária do Patriarcado de Lisboa e catequista. “A pouco e pouco a questão da vocação foi-se colocando”, refere o padre Bruno Nobre. O “ponto decisivo” deu-se durante uns exercícios espirituais de Santo Inácio onde foi “capaz de dizer ‘sim’ a esta vocação”, refere o novo sacerdote, revelando ainda um “fascínio pela figura do Papa Francisco”.

Futuramente, o padre Bruno Nobre irá fazer um pós-doutoramento em Filosofia, no Rio de Janeiro, Brasil, de onde regressará um ano depois para lecionar na Universidade Católica, em Braga. “Um dos objetivos é estar em diálogo com pessoas que estão mais nas margens da Igreja. Estarei um bocadinho nessas margens, tentando estabelecer pontes e dialogar. Fá-lo-ei como padre. Em tudo tentarei ser rosto da misericórdia e manter uma atividade apostólica grande em termos dos sacramentos e pregação”, aponta.

 

Sem dar por isso

Francisco Mota é o mais velho de cinco irmãos. “Venho de uma família católica, onde a fé não é uma questão: faz parte do dia-a-dia. O contacto com a Igreja fazia parte da vida lá em casa, era como almoçar, jantar ou ir à escola”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE o novo padre Francisco. Para este jovem ordenado no passado sábado, a sua vocação foi uma soma de “muitos momentos pequenos”. Um deles deu-se numa atividade dos Jesuítas, “sem dar por isso”. “Dei por mim a ler o Novo Testamento de ponta a ponta e a perceber que essa era uma história à qual nunca tinha dado atenção”, explica Francisco, precisando que este episódio aconteceu numa manhã, onde era convidado à oração e silêncio. “Como não sabia muito bem o que havia de fazer, acabei por ler o Novo Testamento para passar tempo”, salienta.

A missão “extraordinariamente complexa” dos sacerdotes Jesuítas em todo o mundo é algo que alicia o padre Francisco Mota. “Para alguém como eu, poder viver uma vida inteira sabendo que vou ter uma componente pastoral, social, intelectual e até de bombeiro ao fazer coisas que mais ninguém faz, para o resto da minha vida, atrai-me muito”, justifica.

Para este sacerdote que, para já, continuará em Boston, nos Estados Unidos, a estudar Teologia Moral, o futuro não apresenta preocupação. “Não faço a mais pequena ideia de onde vou estar daqui a um ano”, refere o padre Francisco, sublinhando que a Igreja pode esperar dele “o que pode esperar dos Jesuítas: a vida de um padre que procurará viver, na sua atividade, aquilo que recebe na sua oração”.

 

Ordem do ser

Os quatro novos sacerdotes Jesuítas foram ordenados no passado dia 9 de julho, na Igreja de São Roque, pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, numa celebração concelebrada por D. Manuel Felício, Bispo da Guarda, e D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro, além de vários sacerdotes religiosos e também diocesanos. Na homilia da celebração, D. Manuel Clemente sublinhou aos novos padres a necessidade de serem “anúncio vivo” do Evangelho. “Não é da ordem do meramente ter e fazer, é da ordem do ser, intimamente ser. Sereis essencialmente e em tudo, pelo sacerdócio ministerial, ‘anúncio da boa nova aos infelizes’. Não só anunciadores pelo que direis, mas anúncio vivo pela intenção prevalecente, a oração constante o coração disponível”, apontou o Cardeal-Patriarca, indagando depois os quatro jovens Jesuítas que se preparavam para receber o sacramento da Ordem: “Algum de vós aqui chegaria, a este ponto absoluto da ordenação sacerdotal, se não tivesse pressentido já que os infelizes de tanta infelicidade, os atribulados de tanta tribulação, os cativos e prisioneiros de tantas prisões da vida e da alma, se alegraram e alegram com o simples facto de vos abeirardes deles e assim mesmo vos esperarem, pois há um Evangelho a cumprir?!”. “Eu sei a resposta”, afirmou D. Manuel Clemente. “É estardes aqui como estais; é terdes sido reconhecidos precisamente assim por quantos vos acompanharam e ajudaram no discernimento da vossa vocação religiosa e sacerdotal, na esteira do grande Inácio de Loyola”.

 

Totalidade

Para D. Manuel Clemente, a exortação escutada na segunda leitura da celebração, retirada da Epistola de São Pedro (1 Pe 4, 7b-11): «Cada um de vós ponha ao serviço dos outros os dons que recebeu, como bons administradores da graça de Deus, tão variada nas suas formas», deve encontrar eco em cada um dos novos sacerdotes para que chegue “à totalidade”. “O que em Jesus foi pleníssimo, no seu corpo eclesial só pode ser particular em cada um, em favor da totalidade. Daí a multiplicidade dos carismas, que são graças particulares de destino universal, para que o todo cresça pelo contributo de muitos. Graças são, na verdade, encargos, como os talentos que havemos de reproduzir”, apontou, destacando o exemplo do fundador da Companhia de Jesus: “Quando Santo Inácio viveu, estava um certo mundo a morrer e outro arduamente a nascer. A graça que teve, o seu carisma, foi exatamente este de reconduzir cada um ao princípio que nos recria em Cristo, obediente à vontade do Pai, única realização de tudo. Pois, como diria pouco depois São Francisco de Sales e o nosso Padre Cruz gostava de repetir, só «quem quer o que Deus quer tem tudo quanto quer»”.

 

Sentido da vida

Por fim, o Cardeal-Patriarca de Lisboa dirigiu aos novos sacerdotes algumas palavras do Papa Francisco, proferidas na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus e Jubileu dos Sacerdotes: “«Queridos sacerdotes, na Celebração Eucarística, reencontramos todo os dias esta nossa identidade de Pastores. De cada vez podemos fazer verdadeiramente nossas as suas palavras: ‘Este é o meu corpo que será entregue por vós’. É o sentido da nossa vida, são as palavras com que, de certa forma, podemos renovar diariamente as promessas da nossa Ordenação. Agradeço-vos pelo vosso ‘sim’, e por tantos ‘sins’ diários, escondidos, que só o Senhor conhece. Agradeço-vos pelo vosso ‘sim’ a doar a vida unidos a Jesus: aqui está a fonte pura da nossa alegria»”.

texto por Filipe Teixeira; fotos por Arlindo Homem
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